7 de Setembro de 2019
by Salvina
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O JINDUNGUEIRO-MOR

Os meus jindungueiros têm duas mães: eu e a Isabel.

Ambas temos um carinho muito especial por eles e procuramos que estejam sempre confortáveis e felizes. Falamos com eles. Temos palavras diferentes para dar a cada um: dizemos a um que está crescido; a outro perguntamos o que é que se passa porque o achamos triste; a outro agradecemos as imensas flores que nos dá e ao último perguntamos por que perde quase todas as flores, sem parir frutos… digo quase todas as flores, porque uma delas deu fruto e dos grandes (não sei se foi para compensar os que ficaram pelo caminho).

Mas quero falar do meu jindungueiro maior (presente da Catarina).

Iniciou o verão a medo: um tronco esquelético, esguio, ramoso, mas desfolhado (como se estivesse morto). Timidamente foram nascendo folhas, mas, em simultâneo, vieram as flores… lindas flores, branquinhas e bordadas no centro com listas finas e arroxeadas. Eram tantas as flores como as folhas.

Quando as flores começaram a esmorecer, verifiquei que havia um botãozinho que as expelia devagarinho; as flores, quase murchas, fechadas (como quem sabe que é tempo de dar a vez), mantinham-se teimosamente agarradas ao botão como uma placenta que não quer largar o feto, não quer quebrar a ligação, mas tem que ser.

Todos sabemos que o fruto nasce da flor, mas vê-la brotar é outra coisa, observar de perto o fenómeno é maravilhoso.

E o meu jindungueiro-mor deu-me muitos frutos, negros como breu. Cresceram lindos, alongados, carnudos. Fizeram-se vermelho sangue. Um deles sucumbiu, partiu-se-lhe o pedúnculo e começou a querer secar. Tirei-o e resolvi prová-lo. Afinal era o primeiro da safra (a mãe está cá em casa desde Outubro do ano passado e só neste Verão floresceu). Cortei-lhe um pedacinho com uma faca e pu-lo na pontinha da língua. Nada de picar. Mordi-o… nada de picar. Revirei-o contra o palato… nada de picar. Caramba, isto é jindungo? Espera aí que eu já te conto. Cortei-o ao meio. Sementes de um lado e do outro. Esfreguei-o na língua. Nada de picar. Um segundo depois, desci aos infernos, subi aos píncaros das montanhas, arderam-me os ouvidos, transpirei por todos os poros. Alerta de fogo. Quem me acode? O jindungo agia ao retardador. Enchi a boca de tudo o que me apareceu pela frente. Durante dez minutos a minha língua foi uma labareda, ou melhor, toda eu estava incendiada.

Quando acalmei, fui arrancar os quatro jindungos maduros que ainda estavam na planta. Pu-los num frasco com azeite e um pouquinho de whisky (para consumo caseiro).

Resumindo e concluindo: não devemos “embarcar” na primeira impressão, porque nem tudo o que parece, é!

(Texto dedicado à segunda mãe dos meus jindungueiros, com gratidão. Ter duas mães não é coisa pouca… e não é para todos)
Entenderam?

9 de Janeiro de 2019
by Miguel
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Saudade

Por vezes tenho saudade de ter saudade…

Tento ignorá-la, porque se veste de formas diferentes! Por vezes vem sorrateiramente, doce mas cheia de espinhos para enganar aquilo que foi bom e não volta mais.

Outras vezes vem silenciosamente como de veludo, como candeia acesa para iluminar uma escuridão que sempe fica.

16 de Novembro de 2018
by Salvina
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Jindungo


Estou a tornar-me uma agricultora, mais propriamente uma jindungueira (cultivadora de jindungo em vasos).

Para quem não sabe, o jindungo, aportuguesamento da palavra jindungu (plural de ndungo na língua quimbundo, uma das mais faladas em Angola) é uma baga pequenina e muito picante, a que erradamente (ou não) se chama: piripiri, malagueta, pimenta, picante, etc.

O meu palato afeiçoou-se ao jindungo em Malanje (a minha terra em África) quando, ainda menina, a minha mãe fazia uma boa e ajindungada moambada com dendém criado, colhido, cozido, espremido e transformado em óleo de palma lá em casa…
ou
assava uma perna de cabrito no fogareiro do quintal, que ia regando com um raminho de salsa mergulhado num molho previamente preparado com jindungo, azeite e mistérios que não sei…
ou assava o frango no churrasco
ou cozia o camarão
ou fazia mão de vaca com grão.

Em tudo, punha-se sempre jindungo madurinho que apanhávamos na nossa horta: os pretos estavam verdes, os amarelos a pintar, os laranjas quase maduros e os vermelhos no ponto.

“O que arde cura” dizia-me a minha mãe quando me despejava álcool sobre uma ferida qualquer.

Agora, arde-me a vida, mãe. Preciso que o teu jindungo me arda na boca, mas me aqueça o coração.

29 de Junho de 2018
by Miguel
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Dias felizes

Imagem retirada do site https://www.frasesdobem.com.br

Quando me levanto, estou cansado de tanto dormir, cansado do dia anterior e de todo o peso dos anos!…

Mas penso (só para mim) que hoje vai ser um dia feliz, agradável e simpático.

Ele, o dia, vai correndo como um rio corre para o Mar. E… fico sem saber se foi feliz ou infeliz.

Cumpre-me agora dizer, que espécie de dias são estes?

Não importa se têm sol ou sombra, nem quaisquer outros pormenores que não me dizem respeito.

Toda a construção que faço de querer dias felizes, vai sendo de hesitação e dúvida. Mas, deito-me numa cama de pensamento, que deve haver dias felizes.

Só tenho que estar lá.

19 de Junho de 2018
by Salvina
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Uma flor…

Uma flor, uma pequena flor, uma única flor, uma flor…

Olá, branca flor. Esperava-te, mas não sabia se virias. Afinal, esperamos tanta coisa que não vem…

Mas vieste.

Sabias que és linda e que quando os meus olhos te viram logo se riram para ti? Não tinha terra, daquela arejada e livre, beijada pelo sol, pelo vento, pela chuva… e onde debicam os passarinhos; daquela que vive nas hortas, nos terrenos, nos jardins ou nos quintais… daquela que vive, apesar do lixo que lhe despejam em cima; daquela que, embora maltratada, sobrevive e um dia, sem mais nem porquê, deixa-se atravessar por uma planta, uma erva, uma flor, uma árvore.

Não tinha nada disso para te oferecer (e bem gostava de ter), mas tinha um vaso e um parapeito para ti. Não te deixei só: dei-te três irmãs. São todas fêmeas… e sabes porquê? Porque as fêmeas têm o dom de se reproduzirem, de florir, de se abrirem ao mundo, apesar de todos os pesares. E tu, flor, primeira flor, pequena flor, única flor, branca flor, vieste. No teu centro tens um filho… já se lhe vê qualquer coisa. Qualquer coisa, não. É o teu fruto. Vais despir-te de pétalas; ele brotará do teu ventre [como todos os filhos] e tu, que és flor, metamorfosear-te-ás em fruto. Vermelho, vermelho vivo, vermelho sangue, vermelho vida, vermelho porque será vermelho [se amadurecer]. A tua existência, flor, será efémera [todas as vidas o são], mas ainda que efémera seja, já te dei o meu amor.

Obs: Reparem no pormenor (lado esquerdo da fotografia): está um homem (talvez jardineiro) a cuidar da terra.

24 de Maio de 2018
by Salvina
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Imigrante

Está ali uma árvore: um abacateiro. Não é árvore desta terra, bem se vê.

Está só. Não tem irmãs nem irmãos, nem qualquer árvore da sua espécie por perto. Vejo-lhe uma visita: um melro, pássaro preto, a cantar num dos seus ramos.

O tronco não é grande; a terra que lhe coube é pouca. Foi plantada num canteiro de jardim de um pátio cimentado. É única.

As folhas, verdes já não são. Estão amarelas, quase acastanhadas. Árvore dos trópicos, não sei como resiste aos invernos. Está cercada de rasteiras plantas. Algumas dão flores; outras, não.

Nunca lhe vi um fruto. Talvez seja infértil, não sei?! Não comunica, não dança com o vento. O pátio está murado. Encerraram-na ali, entre quatro paredes. Nem sei para onde se expandem (expandir-se-ão?) as suas raízes. A terra é escassa. Como sobrevive? Está ali há anos, não sei como nem porquê?! Olho-a como a alienígena que é. “Não és de cá, camarada” – digo-lhe.

Conheço os seus ancestrais: vestem-se de cheiros, de flores, de frutos. Sei que ela precisa de companhia, mas não sei se ainda vai a tempo de a ter. Cresceu pouco, muito envelheceu. Assim, coberta de sépia, parece velha; no corpo fino, no tamanho e na forma do tronco, lê-se-lhe adolescência.

Bem sei que não amou e não se reproduziu. Viveu só. Ninguém teve. Trocou chuvas de verão por regas no Inverno. Lutou para viver. Resistiu.

Admiro-te, árvore, e lamento-te o destino. Plantada num pátio. Na tua terra, naquela terra de quentes e húmidos ares (de onde vieste), romperias um caroço e qualquer pedaço de terra seria teu e crescerias bela, folhosa, frondosa e frutuosa para alimentar filhos disformes de fomes enormes.

………

Caroço plantado. Quem te plantou?
Foi qualquer pessoa, que por aqui passou

És abacateiro, num pátio fechado?
Vivo num canteiro, estou muito apertado.

Vais morrer aí, velho imigrante
Volta à tua terra, à terra distante
Vai lá ser feliz, vai ser diamante

Não posso voltar, já fui transplantado
Tenho que morrer, já cá deste lado
Sem amar ninguém, sem nenhum pecado
Sou árvore morta num espaço fechado.
As minhas raízes não foram profundas
Não frutifiquei e estão moribundas.
Adeus, minha gente, não vos volto a ver
Aqui nesta vida estou quase a morrer.

7 de Maio de 2018
by Salvina
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Pardais em Lisboa

Aguarela de Paulo Baptista Silva

Ontem, ao final da tarde, senti o pulsar de Lisboa numa esplanada da Rua dos Bacalhoeiros, junto à Casa dos Bicos (Fundação José Saramago), a beber coca-cola e a ouvir o chilrear dos pardais.

Pardais em Lisboa? Há-os aos montes. São citadinos, pois claro!

Poisam nos beirais, nos parapeitos das janelas, escondem-se em buracos e alimentam-se de migalhas. Dizem que “o primeiro milho é dos pardais”, mas olhem que não! Os sem abrigo (sejam pardais ou não) comem do que “desenrascam”, do que lhes dão, do que lhes calha (ou não) ou de migalhas de pão.

[Chilreiam os pardalitos no chão, chilreiam os pardalitos no ar, sobrevoam as mesas, poisam e voltam a voar].

Turistas vão, turistas vêm, turistas ficam, turistas falam, turistas riem, turistas comem, turistas… trânsito, tuque-tuques, motorizadas, bicicletas… engarrafamento… e os pardalitos.

Debica aqui [não há minhocas]; debica ali [não há sementes]; debica, debica [não há nada]; voa, poisa, procura, mexe, remexe, voa, poisa, procura…

Eram dois. Eu bem os vi, ouvi e compreendi: quem luta para sobreviver não dá atenção a mais nada. Sabem porquê? A fome mata… e não só pardais.

Depois de ter escrito estes pensamentos fui para a inauguração da primeira exposição de aguarelas do meu amigo Paulo Baptista. Só vos digo: valeu a pena. Parabéns, Paulo.

12 de Abril de 2018
by Salvina
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Será que vai ser mãe?

Todos os sábados (ou quase todos) desloco-me ao mercado de Benfica para comprar frutas e legumes para a semana.

Um dia, chamou-me a atenção uma loja de produtos africanos (onde existe África, existo eu). Entrei para ver o que por lá havia. Descobri, então, que a lojinha vendia uma mistura de óleo de palma, arroz, farinha torrada, fuba, mas também paçoquinha, polvilho… e alguns produtos asiáticos que desconheço.

Reparei que na montra do balcão estavam alinhadas várias garrafinhas com jindungo (como se diz na minha terra). Algumas estavam cheias de bolinhas vermelhas (nunca tinha visto), outras de formato oblongo, umas amarelas e outras vermelhas. Encheram-me os olhos.

Comprei uma garrafinha de “Pimenta bode” (era assim que se chamavam as bolinhas vermelhas) e fui experimentar-lhe o sabor. Delícia. Comprei mais e mais e mais. Não sei se fui eu que acabei com o stock, mas o que é facto é que a pimenta bode esgotou e durante uns tempos não lhe pus os olhos em cima. Quando voltou, o preço tinha aumentado substancialmente e deixei de a comprar.

Quem conhece o mercado de Benfica, sabe que é uma estrutura redonda contornada interiormente por talhos, lojas de vestuário, padarias, floristas, cafés, etc.

Numa das floristas deparei com uma planta de pimenta bode. Bem, não seria mesmo pimenta bode, porque, embora fosse redonda, tinha um biquinho. Comprei-a. Trouxe-a para casa e coloquei-a no parapeito da janela da cozinha, para que tivesse ar e sol.

As folhas foram caindo, caindo e eu fui desesperando, desesperando. A planta estava a murchar.

Fui de férias e entreguei-a, em estado comatoso, aos cuidados de uma “flower sitter” (a minha amiga Isabel), que tem uma marquise soalheira. Ela tratou-a com um carinho especial, mantendo-a em “cuidados intensivos” e conseguiu que ela lhe oferecesse três ou quatro folhinhas. Embora frágil (mas viva) a minha plantinha voltou para casa. Ficou sob observação, mas não havia meio de deixar aquele estado de “quem está ligada à máquina”. Começou a definhar e eu a entristecer.

Quando vieram os grandes ventos e as chuvadas, tive medo de que a ventania a levasse e resolvi pô-la do lado de cá do vidro da janela, ou seja, dentro da cozinha.
Comecei a chamá-la de “minha menina” e a pedir-lhe que fosse corajosa e que se aguentasse, que sobrevivesse a todas as “agruras”. Todos os dias, várias vezes por dia, dava-lhe o meu olhar e a minha voz (a mais doce de que fui capaz). Ela começou a medrar: um dia, mais uma folha; outro dia, mais outra folha e assim sucessivamente. Tornou-se linda e acho que até já “engordou”.

Continuo com medo de que murche, mas insisto na dose diária de vitaminas de olhares e palavras.

Estou à espera do seu primeiro fruto… e de todos os que vierem.

É Primavera.

Será que a “minha menina” vai ser mãe?

15 de Março de 2018
by Miguel
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Amanheci

Imagem retirada do site pixabay.com

Imagem retirada do site pixabay.com

Amanheci!… Como sempre em todos os dias. Com um torpor, uma preguiça, sem vontade de recomeçar.

Sentei-me numa cadeira mais ou menos confortável, junto à janela do meu quarto, como se o Mundo me estivesse a amparar em suas mãos.

Olhei a janela!… O dia está cinzento de Inverno, tendo uns tons alaranjados de um Sol que quer entrar. As cores não sei se as há!? ou se as sinto numa exposição de uma força de terramoto ou relâmpago que me dá luz ao dia.

Eem que a minha alma ajoelhada vai pedindo a longos tragos, mais um dia telúrico e brilhante como o diamante em bruto, que tento lapidar no tempo e com o tempo…

Dia a dia vou brilhando…

3 de Março de 2018
by Salvina
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Pó de borboleta

borboleta

Imagem retirada do site www.donde-vivem.com

Os miúdos gostam de campo, não gostam de prédios. De prédios só gostam de elevadores, que são os carros dos prédios, para andar para cima e para baixo.

As crianças precisam de espaço para gozar de pequenas liberdades: chapinhar nas poças de água da chuva; seguir o carreirinho das formigas, comê-las, esmagá-las com as mãos ou com os pés, desorientá-las, destruir o formigueiro, apanhar gafanhotos, lagartas e lagartixas, correr e saltar só pelo prazer de correr e saltar. E, também, a liberdade de perseguir borboletas.

Quando era pequena entrava no prédio do Vitorino só para andar de elevador e gostava de correr atrás das  borboletas.

As borboletas não voam como os pássaros; têm o seu ritmo, flutuam suavemente como as fadas. Nunca andam lá no alto, a não ser que haja montanhas. Acho que elas preferem manter-se pertinho do chão.

Queria que as borboletas me pousassem em cima, para lhes ver as cores, os modelos, os traços, as bolas, os riscos. Nunca o faziam. Escolhiam pousar sobre outras fragilidades: pousavam no capim, numa erva, num arbusto, numa trepadeira, numa folha, num galho seco, numa finura de verde. Mas também pousavam nas plantas do jardim da Dona Micas ou da Dona Alice, a mãe da Zezinha, para reterem nas delicadas patas o néctar das mais belas flores…. e as flores voavam com elas à procura de outras flores.

Eu caçava borboletas. Não tinha rede para as apanhar no ar. Deixava-as pousar e, com muito cuidado, sorrateiramente, prendia-lhes as asas entre os meus dedos polegar e indicador. Apanhava-as para lhes  compreender a fragilidade, a beleza, o colorido, a leveza. Agarrava-as pelas asas e as asas que andavam num vaivém como os elevadores, ficavam paradinhas, imobilizadas entre os meus dedos. Virava-as de cima para baixo, de baixo para cima, de lado, do outro lado, de frente, só para as ver melhor.

[Não sei com que tintas, cores ou pincéis se pintam as borboletas].

Asas de vários tamanhos e padrões, coloridas, sedosas, de veludo, arte pura em movimento, que pequeninas mãos impediam de voar, para com elas se encantar… arte roubada, entre dedos aprisionada.

Libertava as asas, mas ficava com pó nos dedos: pó de borboleta! Roubei-lhe as cores? Não! As cores só me ficavam nos olhos; nas mãos, não. Nem restos de azul, nem sobejos de amarelo, nem um fio de cor de laranja, uma réstia de vermelho ou de dourado ou de preto ou de qualquer outra cor. O pó era fino e aveludado, mas era só pó: pó de borboleta. Prender-lhes as asas, era desfazê-las em pó.

[Nunca consegui pintar os dedos com cores de borboletas. Nunca.]

Soltava-as e ficava a observar o seu voo ligeiro, gracioso, acetinado e colorido. Eram livres de voar, poisar, voar, poisar, voar…

[Não se pode aprisionar as cores de uma borboleta.]