17 de Fevereiro de 2018
by Salvina
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Escreve-me, escrevo-lhe…

Escreve-me. Escrevo-lhe. Não sei quem é: não tem rosto, nem corpo, nem coisa física, só alma. E mesmo essa, só lha adivinho.

Dá-me as suas palavras. Dou-lhe as minhas. Mas o que são as palavras? Podem ser armas de conquista ou de derrota; de vida ou de morte; de realidade ou fantasia; de dor ou de euforia; de amor ou de ódio. Podem ser palavras mortas, ditas, cantadas, escritas, sofridas ou engolidas, vomitadas ou cuspidas, palavras escondidas ou disparatadas, malditas ou abençoadas, palavras humildes ou desavergonhadas.

Se as palavras forem transparentes, podemos ver através delas. São as palavras que nos falam dos outros e que lhes falam de nós. Mas se forem opacas, dúbias, mentirosas, são as palavras que nos traem, desiludem, nos roubam a imaginação que edificámos com elas.

As palavras são só um sopro ou a voz desse sopro; podem querer dizer tudo, mas também podem querer dizer nada; podem ser pedras que nos derrubam, mas também podem ser mãos que nos erguem; podem ser flores que nos enfeitam ou estrelas que nos guiam.

Diz-se que as palavras são como punhais. Algumas já me mataram; outras ressuscitaram-me.

No mundo das palavras é possível encontrar todas as palavras do mundo, todos os significados, todas as fés e heresias, todas as dores e alegrias, todas as luzes e sombras, todas as penumbras e solidões, todas as cores e todas as escuridões.

Escreve-me. Escrevo-lhe. Com as palavras que tenho, com as palavras que tem. Às vezes sinto as palavras como uma gaiola que prende; outras vezes sinto-as como o pensamento que liberta. Nem tudo se explica por palavras, mas as palavras podem explicar-nos, nem que as embrulhemos em silêncios.

Se me escreve e eu lhe escrevo, o que é que existe entre nós, senão o significado das palavras com que nos (d)escrevemos?

As palavras têm som, têm voz, dá-se-lhes entoação para lhes atribuir sentido ou para lhes subverter esse mesmo sentido.

Para mim, as palavras são setas direccionadas a um alvo; às vezes curvam, entram em becos, ressoam e perdem-se no labirinto dos ouvidos; outras vezes ficam gravadas dentro de nós de tal maneira que nunca mais de lá saem.

As palavras são ferramentas, instrumentos, máquinas trituradoras, misturadoras, espremedoras de sumo. Eu visto-me de palavras. Também me dispo com elas. Sou o que as palavras dizem de mim. Há quem diga que palavras “leva-as o vento”, mas eu tenho algumas eternas.

As palavras são como os números: se conjugadas tornam-se infinitas.

Escreve-me. Escrevo-lhe. Não sei quem é: não tem rosto, nem corpo, nem coisa física, só alma.

Vou continuar a escrever-lhe.

14 de Fevereiro de 2018
by Salvina
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O tomateiro

Não tenho terra para fazer uma horta. Moro num terceiro andar e tenho uma varanda onde o vento bate forte e as plantas se enchem de pequenos bichos que não consigo combater. Em vasos plantei roseiras: uma vermelha e outra salmão. Dizem que as roseiras resistem a tudo… e, de facto, sou sempre presenteada com alguns botões que se abrem em pequenas rosas que me alegram os olhos.

No parapeito da cozinha, que é generoso, também coloquei um vaso, que enchi de terra. Comprei sementes de ervas aromáticas (que outras poderiam ser?) para enriquecer cozinhados. Das cinco variedades, salsa, coentros, hortelã, salva e a outra já não sei qual foi, só a salva e a hortelã germinaram. A salva nunca soube o que fazer com ela, mas a hortelã tenho-a utilizado para fazer chá.

De repente, apareceu um intruso. Que erva será esta? – perguntei-me. Não a arranquei para ver no que dava. Percebi que era um tomateiro. De onde tinha vindo?Isso já não sei! Não semeei tomates. Talvez se tenha infiltrado (des)propositadamente na água da rega. Talvez uma sementinha mais assanhada tenha teimado em sobreviver.

Não o arranquei. Deixei-o conviver com a hortelã e a salva. E ele cresceu, cresceu, cresceu. Brindou-me, depois, com algumas frágeis flores amarelas. Deixei-me rir. O tomateiro continuou a crescer e a dar-me mais flores, muitas flores amarelas.

É cheiroso. Quando lhe toco perfuma a cozinha inteira durante alguns longos segundos. Olho para ele todos os dias e penso: de onde terá saído este tomateiro teimoso, sobrevivente de águas desconhecidas? E rio-me do tomateiro; rio-me para o tomateiro.

Qual não é a minha surpresa quando, ao despir duas flores, lhe nasceram dois tomatinhos minúsculos, que se riram para mim. Ri-me com eles. Ri-me para o tomateiro que me oferecia os seus frutos. O tomateiro não pára de crescer, está tão alto, tão alto, que já se verga, para não bater no tecto.

Prometo que, se os tomates vingarem, hei-de comê-los com hortelã 🙂

25 de Julho de 2017
by Salvina
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Esse homem é meu!

Ontem fui a um Restaurante africano com algumas amigas. Havia música ao vivo e, logicamente, dançámos ao ritmo do semba, de música pimba portuguesa e de temas brasileiros.
Em determinado momento, apagaram-se as luzes e cantaram-se os parabéns. Estava na sala uma Senhora que fazia 91 anos e a família festejava esse acontecimento.

Alguém desafiou a Senhora para um pézinho de dança e ela fez-se à pista… e dançou. Teve ainda olhos para “pescar” os poucos homens que lá estavam e fixou-se num Malanjino bonito (não vou dizer o nome). Quando alguma das amigas se aproximava do “dito-cujo”, a Senhora zangava-se e, de modo sério e compenetrado, dizia “esse homem é meu!”… repetiu-o incessantemente… até ser retirada da pista de dança por uma familiar.

Achei muita graça àquela mulher que, apesar da idade, teve agilidade motora para dançar durante cerca de meia hora… e ainda se “atreveu a competir” com as outras mulheres da sala, marcando terreno e dizendo “este homem é meu”.

E não escolheu nada mal…

Parabéns, linda Senhora engatatona

26 de Junho de 2017
by Miguel
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Perdão

Um dia destes dei por mim a revirar gavetas há muito tempo fechadas, a por coisas para o lixo, a reencontrar memórias levemente esquecidas.

No meio de papéis e de pastas de recibos já pagos, coisas que já não têm interesse, encontrei uma pasta que tinha organizado, com  coisas sobre a minha mãe: são cartas de amor trocadas com o meu pai e alguns poemas escritos por ela ao longo da sua vida.

Espanta-me que até tivesse escrito poesia, porque foi uma menina que nunca foi à escola; foi o pai que a ensinou, em casa, a ler e a escrever (foi uma época em que só os rapazes podiam estudar).

Nas cartas de amor, sentia-se amada e desejada, seduzida e abandonada. Tinha a angústia da vida e a surpresa  de a não saber viver, pondo tudo num impulso vital de lágrimas e ansiedades, como se fosse tudo dela e ela fosse a mais triste de todas as mais tristes.

Era uma pessoa… (como se diz)… tinha um limão e não sabia fazer uma limonada.

Escolhi um poema de entre muitos… todos reflectem uma luz que desmaia num fulgor de aurora, um não saber o que ela via ou chorava.

Hoje ponho-me a pensar nas ilusões e nos beijos e risos que nela pus. Fico feliz por ela. Ela é a luz…

PERDÃO

Por muitos e muitos reparti,
Pedaços da minha alma dedicada.
Em troca pouco ou nada recebi.
Dei tudo! Dei tudo… fiquei sem nada.

Que importa não ter visto compensada,
A ânsia de me dar; assim eu vi,
Como era falso o mundo em que nasci,
E cega a humanidade desvairada.

Não estou arrependida nem lamento!
Sou feliz, mesmo até no sofrimento,
Dos ódios que me votam sem razão.

O que dei, foi com fé e com vontade,
Para alguém, e para quem me fere com maldade.
Ainda posso dar o meu perdão.

(Ester Silva Carvalho)

15 de Maio de 2017
by Salvina
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Mãe – Eterno Amor


– eu já sou muito velhinha – dizias para surpreender [eras uma menininha]
– E que idade a senhora tem? -perguntavam-te
– Já tenho oitenta e dois – respondias
– Oitenta e dois, mãezinha? – Observava eu
– Não! Espera aí – e corrigias – já tenho no-ven-ta… noventa e dois.
– Ah! Mas a senhora está muito bem. Nem parece ter a idade que tem [exactamente o que querias ouvir]
– Graças a Deus ainda sou “suficiente”, ainda trato das minhas coisinhas sem dar trabalho a ninguém – dizias orgulhosa.

Muito te “exibias”, minha mãe… muito te orgulhavas de ti.

Mas sabes? Tinhas razão! Muito velhinha [para mim não eras] mas “suficiente” sempre foste e trabalho não deste.
A tua vida finou-se assim, devagarinho, como vela cansada que não espera sopro para se apagar…
Assim, devagarinho, como vento quieto e morno, que nem desarruma folhas secas no chão…
Assim, dentro de um mar prateado de águas mansas que ofuscam olhos…
Partiste nas asas duma maré que não volta.
Contudo, na ausência da tua voz até o silêncio me diz:
– Eu já sou muito velhinha!
[Não eras, não, minha mãe. Eras só o amor. E esse não envelhece, nem morre].

7 de Abril de 2017
by Miguel
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Viagem da Rolha

Ao sair do aconchego da escuridão entrei para a luz prometida . Aí toquei na vida!…
Com mãos pequenas e inseguras quis abrir a garrafa de champanhe para comemorar a minha chegada. As mãos não davam para isso. Mas eu não tinha mãos, era uma rolha!?…
Mas lá saltei, e o vinho espumoso foi uma catadupa de promessas e bons augúrios.
Só que eu dei o salto que tinha que dar!… E… caí no mar, elemento liquido que vai para além do hourizonte.
Sentia-me tão frágil e flutuante, ao sabor das marés, tempestades e calmias. Não sabendo se estava perdida ou encontrada no Mar.
Sem saber se a Terra era redonda ou plana? Se redonda fosse voltaria ao mesmo lugar; se plana for como eu quero que seja…
Então… eu cairei numa cascata de espuma do mar e de champanhe e… deixo-me ir… sem saber se haverá mais mar, mais cascatas e mais champanhe.

15 de Março de 2017
by Salvina
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Brincando com Ninguém

Ninguém brinca comigo e eu brinco com Ninguém.
Eu conheço Ninguém e Ninguém me conhece.
Ninguém entende muita coisa e Ninguém entende nada.
Ninguém sabe tudo e Ninguém sabe nada.
Ninguém conta tudo e Ninguém conta nada.
Ninguém tem poder e Ninguém pode nada.
Ninguém fala comigo e eu falo com Ninguém
Ninguém é tudo e Ninguém é nada
Ninguém ri e eu rio com Ninguém.
Ninguém fica comigo e eu fico com Ninguém.
Ninguém é de Ninguém, Ninguém é meu também e eu sou de Ninguém.
Ninguém gosta de mim e eu gosto de Ninguém.
Ninguém é dono de Ninguém. Ninguém é melhor que Ninguém e Ninguém é igual a Ninguém.

Mas…
Ninguém é sempre alguém, mesmo sem saber quem.

27 de Janeiro de 2017
by Miguel
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Memórias

gaivota-sol

Fotografia de Gisele Magalhães (retirada da Internet)

E tu voltaste
À procura de ti mesmo
Como um menino ao despertar
Em busca dos brinquedos
Que sonhou…

E há na mimha memória
Um passado tão recente
Que eu confundo com um misto de bruma
E nostalgia…
Por testemunha, somente  as ondas  e pinhais
E a nossa força de correr.
Mais uma vez se tinha feito dia
Mais uma vez…
Quando os teus olhos negros
A chama de um novo despertar
Sacudindo do fundo de nós
As cinzas das ilusões mortas.
Nas tuas mãos a esperança
Nos teus cabelos a liberdade
Na mútua entrega dos corpos em delírio
No suspirar a verdade…
E juntos atingimos o extase do amor.
E o Sol não mais se pôs nos nossos corações.
E… de novo aconteceu o sentido da vida
Mesmo quando!…
O profundo do teu silêncio
Se fundia na ternura do abraço
Que tentámos ser eterno
Ou quando uma lágrima
Humedecia  os teus lábios
Que tremiam de emoção
E sabiam os teus beijos a surpresa
E o teu coração era asa presa
Da gaivota que olhava as ondas sem voar.

9 de Janeiro de 2017
by Salvina
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No jardim

img_1092Procuro um banco para me sentar. No primeiro está sentado um casal de namorados que, alheio a tudo o resto, se beijam repenicadamente como dois passarinhos a arrulhar. No próximo estão sentados dois rapazes à conversa. A seguir uma rapariga chinesa, entretida a falar ao telemóvel. Está ali um banco vazio. Vou para lá! Mas… alguém chegou primeiro do que eu… já está ocupado.

Continuo a ronda. Um dos rapazes descalça a bota. Sacode-a. Acho que tinha uma pedrinha lá dentro. O casal levanta-se. Vou para lá! Há uma réstea de sol neste banco. É bom!

Os bancos são corridos. De ripas. Verdes como as árvores. Um pouco estragados. Ao meu lado, na outra ponta, senta-se um rapaz. Pega no telemóvel. Arregaça as mangas.

Olho ao redor. Não há muros. A vedação do jardim é feita com arbustos. Agora reparo que foram podados. Os canteiros estão sem relva. Foram demasiadamente pisados. Bom… há um onde ainda resta alguma ervinha miúda.

Passam dois homens: um com uma enchada ao ombro e outro com uma tábua enorme às costas. São interpelados por uma mulher, provavelmente colega, a quem dizem que estão “a matar o trabalho”. Seguem o seu caminho. Passa um homem forte, vestido de fato e gravata.

Não cantam os pássaros. O sons que oiço são: passos, vozes, roncar de carros e de motas.

Vou-me embora!

12 de Dezembro de 2016
by Margarida Riscado
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The Hunt

The Hunt, realizado magistralmente por Thomas Vinterberg, retrata a história de um professor que vive numa pacata e recatada vila na Dinamarca e que, repentinamente, sem aviso, é confrontado com a acusação de ter perpetrado um crime de abuso sexual a uma menor. A acusação é feita pela criança que alegadamente violentou. A partir daqui, começa uma verdadeira caça ao homem.

A dualidade do protagonista é deveras aterradora. Perseguido por um medo que lhe corrompe a alma e o impede de viver e de ser. Afinal, as crianças também mentem…

Um filme extraordinário que nos deixa uma série de interrogações, inquietações, dúvidas, angústias. Um retrato fiel de uma sociedade enferma e sem cura à vista.

Mads Mikkelsen arrecadou o prémio de melhor actor no Festival de Cannes, em 2013. Um reconhecimento mais que merecido, já que a sua interpretação é absolutamente magnífica.