15 de Março de 2017
by Salvina
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Brincando com Ninguém

Ninguém brinca comigo
e eu brinco com Ninguém.
Eu conheço Ninguém
e Ninguém me conhece.
Ninguém entende muita coisa
e Ninguém entende nada.
Ninguém sabe tudo
e Ninguém sabe nada
Ninguém conta tudo
e Ninguém conta nada.
Ninguém tem poder
e Ninguém pode nada.
Ninguém fala comigo,
e eu falo com Ninguém
Ninguém é tudo
e Ninguém é nada
Ninguém ri
e eu rio com Ninguém.
Ninguém fica comigo,
e eu fico com Ninguém.
Ninguém é de Ninguém
Ninguém é meu também
e eu sou de Ninguém.
Ninguém gosta de mim
e eu gosto de Ninguém.
Ninguém é dono de Ninguém.
Ninguém é melhor que Ninguém.
Ninguém é igual a Ninguém.

Mas…
Ninguém é sempre alguém
Mesmo sem saber quem.

27 de Janeiro de 2017
by Miguel
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Memórias

gaivota-sol

Fotografia de Gisele Magalhães (retirada da Internet)

E tu voltaste
À procura de ti mesmo
Como um menino ao despertar
Em busca dos brinquedos
Que sonhou…

E há na mimha memória
Um passado tão recente
Que eu confundo com um misto de bruma
E nostalgia…
Por testemunha, somente  as ondas  e pinhais
E a nossa força de correr.
Mais uma vez se tinha feito dia
Mais uma vez…
Quando os teus olhos negros
A chama de um novo despertar
Sacudindo do fundo de nós
As cinzas das ilusões mortas.
Nas tuas mãos a esperança
Nos teus cabelos a liberdade
Na mútua entrega dos corpos em delírio
No suspirar a verdade…
E juntos atingimos o extase do amor.
E o Sol não mais se pôs nos nossos corações.
E… de novo aconteceu o sentido da vida
Mesmo quando!…
O profundo do teu silêncio
Se fundia na ternura do abraço
Que tentámos ser eterno
Ou quando uma lágrima
Humedecia  os teus lábios
Que tremiam de emoção
E sabiam os teus beijos a surpresa
E o teu coração era asa presa
Da gaivota que olhava as ondas sem voar.

9 de Janeiro de 2017
by Salvina
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No jardim

img_1092Procuro um banco para me sentar. No primeiro está sentado um casal de namorados que, alheio a tudo o resto, se beijam repenicadamente como dois passarinhos a arrulhar. No próximo estão sentados dois rapazes à conversa. A seguir uma rapariga chinesa, entretida a falar ao telemóvel. Está ali um banco vazio. Vou para lá! Mas… alguém chegou primeiro do que eu… já está ocupado.

Continuo a ronda. Um dos rapazes descalça a bota. Sacode-a. Acho que tinha uma pedrinha lá dentro. O casal levanta-se. Vou para lá! Há uma réstea de sol neste banco. É bom!

Os bancos são corridos. De ripas. Verdes como as árvores. Um pouco estragados. Ao meu lado, na outra ponta, senta-se um rapaz. Pega no telemóvel. Arregaça as mangas.

Olho ao redor. Não há muros. A vedação do jardim é feita com arbustos. Agora reparo que foram podados. Os canteiros estão sem relva. Foram demasiadamente pisados. Bom… há um onde ainda resta alguma ervinha miúda.

Passam dois homens: um com uma enchada ao ombro e outro com uma tábua enorme às costas. São interpelados por uma mulher, provavelmente colega, a quem dizem que estão “a matar o trabalho”. Seguem o seu caminho. Passa um homem forte, vestido de fato e gravata.

Não cantam os pássaros. O sons que oiço são: passos, vozes, roncar de carros e de motas.

Vou-me embora!

12 de Dezembro de 2016
by Margarida Riscado
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The Hunt

The Hunt, realizado magistralmente por Thomas Vinterberg, retrata a história de um professor que vive numa pacata e recatada vila na Dinamarca e que, repentinamente, sem aviso, é confrontado com a acusação de ter perpetrado um crime de abuso sexual a uma menor. A acusação é feita pela criança que alegadamente violentou. A partir daqui, começa uma verdadeira caça ao homem.

A dualidade do protagonista é deveras aterradora. Perseguido por um medo que lhe corrompe a alma e o impede de viver e de ser. Afinal, as crianças também mentem…

Um filme extraordinário que nos deixa uma série de interrogações, inquietações, dúvidas, angústias. Um retrato fiel de uma sociedade enferma e sem cura à vista.

Mads Mikkelsen arrecadou o prémio de melhor actor no Festival de Cannes, em 2013. Um reconhecimento mais que merecido, já que a sua interpretação é absolutamente magnífica.

 

21 de Novembro de 2016
by Miguel
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Recado

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Monte Alentejano com Papoilas (2006) – Oleo sobre tela de linho – Salvacao Barreto

Quando eu morrer…
Quero pedir à única pessoa que tenho em vida
Que por min não chore nem um lamento, nem a ausência, que lhe possa causar a partida.
Quero apenas que me lembre como um grande mar.
Sendo meus sonhos como caravelas a naufragar.

Rasga todos os meus poemas que retratam minhas dores, angústias e mágoas, alegrias e júbilos
Como sendo apenas flores.
Espalha-os numa planície Alentejana repleta de malmequeres brancos e amarelos, súbitos.
Como se aí fosse o seu lugar.
Deixa bailar a poesia com a luz do Sol e cheiro a maresia
Como estrelas caídas de um céu onde quero encontrar todos os que amei.
Sendo assim uma chama ardente na Terra
Para poder sentir!… Que também aquí fiquei
Quíçá, um jardim de rosas brancas, sem lamentos nem ais
Ou apenas penas sublimes caídas
Das asas de um anjo que amou demais.

10 de Novembro de 2016
by Salvina
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O crucifixo

img_1081Gostavas de tê-lo junto ao teu coração e pregaste-o com um alfinete ao teu sutiã. Mas era grande e pesado. O médico pediu-te que o tirasses. Ralhou-te depois por o não teres feito. A ele e a mim fizeste ouvidos moucos. Um dia inteiro (e às vezes à noite) com uma cruz a pesar-te no corpo (sim, sei que te aconchegava a alma), não era bom para a tua fragilidade e saúde. Sei que não lhe sentias o carrego, nem o tamanho… mas ele estava lá com a dimensão da tua fé.

Um dia, entrei no teu quarto e ele saltou-me aos olhos. Roubei-to. Não deste conta. Dois dias depois… não sei se tiveste alguma aflição (tu não te queixavas)…, percebeste que ele tinha desaparecido. Não me acusaste. Não te passou pela cabeça que tinha sido eu a tirar-to. Ouvi-te dizer: “Não sei do meu crucifixo! Perdi o meu crucifixo… perdi o meu crucifixo”. Choraste. Nem sabes quanto me custou ver-te chorar. O meu pensamento voltou-se para as palavras do médico. Depois, repeti calada: “O médico disse que lhe fazia mal… o médico disse… o médico disse…”. Ainda pensei em ir à minha gaveta das “coisas importantes” buscá-lo e dizer-te que não o tinhas perdido. Calei-me. Sabia que, se to devolvesse, não desistirias de o voltar a pregar no teu sutiã.

“O médico disse… o médico disse…”.

Eu sei que tu sabias que Cristo estava dentro de ti. Que não era o crucifixo que te aproximava d’Ele. E foi isso que te disse, com um nó na garganta. Tu acabaste por te resignar à perda e eu nunca cheguei a denunciar o “roubo”.

Ontem andei a mexer na gaveta das “coisas importantes”. Ele estava lá. Encontrei-o!

O teu crucifixo trouxe-me à memória o teu desgosto e o meu “pecado”. Peguei nele, olhei-o demoradamente, confessei o “crime” e coloquei-o na minha mesinha de cabeceira, em frente ao teu retrato.

Devolvo-to. É teu! Perdoa-me!

 

28 de Outubro de 2016
by Margarida Riscado
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Tempo de incerteza

Houve um tempo em que precisou de colo. Procurava em todos os lugares mas só existia um vazio imenso, sem nada, nem ninguém que pudesse acalentar o seu desassossego.

Houve um tempo em que tudo à sua volta irrompia em cantos de felicidade e, sem saber, achava que era um engano. Era uma realidade desconhecida, por isso todos fingiam como o poeta.

Houve um tempo para lembrar que era preciso esquecer o tempo dos abraços. Passavam como o vento que atravessa o corpo e eram ignorados, invisíveis.

Foi um tempo de incerteza. Não voltes tempo! Deixa-te ficar quieto e escuta apenas as palavras que teimas em não ouvir.

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10 de Outubro de 2016
by Miguel
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Esquecimento

tristezaNesta tristeza que trago,
Dentro do meu coração
Te chamo irmã amiga e filha.
Na boca um sabor amargo,
Um sabor a ingratidão,
Como no mar uma ilha.

Esquecer o que já lá vai…
São dores que doem no tempo,
Tempo que não tenho mais,
Com gritos mudos  e ais.
Só quero p’ra ti o momento,
Nas pedras frias do cais.

Quero esquecer o que é mau
Agora neste momento,
Nem que tudo fique em vão?…
Neste fado do esquecimento.

27 de Setembro de 2016
by Salvina
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Um homem diferente

pedras-na-maoConheci-o quando morava em Luanda. Ele ocupava os anexos da casa onde eu vivia.

Chamava-se Sérgio. Eu chamava-lhe Senhor Sérgio.

Quando o vi pela primeira vez, senti um arrepio a percorrer-me a espinha. Era um homem pequeno, cujos braços lhe caíam muito abaixo dos joelhos. Tinha os ombros projectados para a frente e a parte superior da coluna mostrava uma corcunda assimétrica que pendia para o lado direito. Os seus pés e mãos eram enormes para a sua estatura. O andar era torto (coxeava um pouco) e os olhos estavam permanentemente voltados para o chão. O rosto não lhe iluminava o corpo, nem o corpo lhe arejava as feições. Não me atrevo a dizer que era uma fraca figura. Antes pelo contrário, era uma figura marcante, arrepiante.

Apesar da sua aparência, alguém o amou o suficiente para casar com ele e lhe dar dois filhos, um rapaz e uma rapariga, ambos de boa compleição física… e bonitos.

Todas as manhãs se levantava cedo para ir trabalhar. Regressava para almoçar e voltava a sair para o emprego, de onde só revinha à noite . Cruzávamo-nos quase diariamente e passei a vê-lo como uma pessoa amistosa, respeitável, afável até. A sua fisionomia deixou de me interessar. Passou a ser um amigo. E um amigo é um amigo, qualquer que seja a sua exterioridade.

Um dia fui ao Hospital Maria Pia visitar uma amiga que estava doente e num dos corredores dei de caras com o Senhor Sérgio. Parei e perguntei-lhe:

  • O que é que está aqui a fazer?
  • Eu trabalho aqui – respondeu-me orgulhoso
  • Que surpresa. Não fazia ideia.
  • E a menina? O que faz por estas bandas?
  • Vim visitar uma amiga…
  • Precisa de ajuda?
  • Não, obrigada…
  • Então… até logo!

E afastou-se com desenvoltura, uma desenvoltura que nunca lhe tinha visto. Jamais lhe tinha perguntado o que fazia, nem onde trabalhava, nem nada dessas coisas. Seguramente estava a fazer o que gostava, dada a sua expressão de orgulho e contentamento. Deixou-me a pensar.

Nessa noite conversámos sobre a sua vida e profissão. Fiquei a saber que tinha nascido com uma malformação congénita e que tinha desistido de estudar, porque na escola os meninos fugiam dele. Mal tinha aprendido a ler e a escrever. As crianças tinham sido os seus carrascos, não lhe tinham perdoado o facto de ter nascido diferente. Monstro marreco, aberração, corcunda… era o que lhe chamavam. Teve vontade de morrer. Um dia foi para a linha dos caminhos-de-ferro para se lançar para debaixo do comboio, mas, à última da hora, teve medo e desistiu.

Depois fechou-se em casa. Passou dias e dias, meses, anos, a estudar sozinho. A aprender a viver sem amigos.

Percebeu cedo que o mundo dos vivos não o aceitava e, por isso, escolheu viver entre os mortos. Trabalhava na casa mortuária do Hospital.

  • E não tem medo? – perguntei-lhe horrorizada
  • Medo de quê? Os mortos não me vêem, não me insultam, não me rejeitam e não me fazem mal. E dá-me prazer poder ser útil, lavá-los e pô-los bonitos para a família os poder velar. As famílias e os amigos dos mortos não reparam em mim… estão demasiadamente preocupados com as suas dores. Aqui ninguém me atira pedras.
  • Mas alguém lhe atira pedras?…
  • Pois! Quando comecei a vir para aqui tinha que passar por uma escola… e olhe que era uma escola secundária. Os miúdos, que já eram uns homenzinhos, punham-se a gritar e a atirar-me pedras. Às vezes até me magoavam. Chegaram mesmo a partir-me a cabeça. Foi assim que conheci a minha mulher, ela revoltou-se quando os viu a apedrejar-me e foi em meu auxílio. Vai daí eu fiquei-lhe muito grato. Começámos a encontrar-nos e acabei por me apaixonar por ela e ela por mim. O que faz o amor, veja lá. Agora posso dizer que sou um monstro feliz.
  • O Senhor não é nenhum monstro, Senhor Sérgio. Monstros são os que o maltratam. O Senhor é apenas um homem diferente… tão diferente quanto bom.

O mundo sempre foi um lugar cruel para quem nasceu d(eficiente).

10 de Agosto de 2016
by Margarida Riscado
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American Beauty

American Beauty é o primeiro filme da obra cinematográfica de Sam Mendes com uma estreia em grande no universo da sétima arte. A forma como transforma uma história vulgar numa obra-prima é simplesmente magistral. Não é para todos!

A narrativa centra-se numa família típica da classe média (um casal com uma filha adolescente) em busca do tão apetecido sonho americano. Mas rapidamente o espectador se apercebe que esta realidade não passa de uma ilusão, desconstruída de uma forma sublime por Mendes que é certeiro na forma como aniquila o jogo de aparências que prolifera numa sociedade cínica, onde o que mais importa é parecer em detrimento do ser.

E é através desta panóplia de elementos que surge uma família que será o tema central do filme através do casal Lester Burnham (Kevin Spacey) e Carolyn (Annette Benning) e, por último, a filha, Jane (Thora Birch). A câmara vai acompanhando, sob o olhar astucioso de Mendes, as primeiras palavras de Lester enquanto narrador desta trágica história:

“My name is Lester Burnham. This is my neighborhood; this is my street; this is my life. I am 42 years old; in less than a year I will be dead. Of course I don’t know that yet, and in a way, I am dead already. Look at me, jerking off in the shower… This will be the high point of my day; it’s all downhill from here.”

Este início indicia, de imediato, que estamos prestes a mergulhar num mundo perverso, com grandes contornos de malvadez, com os nossos níveis de ansiedade a revelarem-se elevados, uma vez que percebemos esta será uma narrativa envolta em mistério, traição, perfídia, à semelhança de uma obra digna de Maquiavel.

Lester é um homem de meia-idade, com um emprego vulgar numa seguradora, sem qualquer tipo de ambição profissional, desprezado pela mulher e pela filha. Por seu lado, Carolyn, vendedora imobiliária, é a encarnação pura e dura da mulher fútil, sem escrúpulos que se deixa seduzir facilmente pelo dinheiro e pelo poder, num eterno jogo de vaidades, não olhando a meios para obter tudo o que deseja a qualquer preço. A filha, Jane, sai completamente fora dos padrões da normalidade, utilizando todas as armas que tem ao seu alcance, numa espécie de combate sem tréguas à vista, com um único objectivo: destruir os bons costumes e ideais de beleza que os pais aspiraram para a sua vida. O ódio da adolescente pelos pais é uma constante na sua existência.

Os seus vizinhos, os Fitt, são peças fundamentais nesta trama. O pai, o coronel Fitts (Chris Cooper), é um militar na verdadeira acepção da palavra. Oriundo da antiga escola americana conservadora é um homem austero, inflexível, severo e homofóbico. Barbara (Alison Janney), a sua mulher, cuja característica central reside na sua obsessão em arrumações e Ricky (Wes Bentley), o filho do casal, um ser esquivo, com um estilo de vida acima da média, uma vez que trafica droga. Obervamo-lo a filmar Jane grande parte da narrativa. Mais uma família em que nada é o que parece ser… as aparências a levarem, também neste caso, a primazia.

American Beauty, como referi, é uma obra-prima. Uma sátira ao estilo de vida americano numa crítica mordaz e inteligente com um elenco absolutamente notável.

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