16 de Novembro de 2018
by Salvina
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Jindungo


Estou a tornar-me uma agricultora, mais propriamente uma jindungueira (cultivadora de jindungo em vasos).

Para quem não sabe, o jindungo, aportuguesamento da palavra jindungu (plural de ndungo na língua quimbundo, uma das mais faladas em Angola) é uma baga pequenina e muito picante, a que erradamente (ou não) se chama: piripiri, malagueta, pimenta, picante, etc.

O meu palato afeiçoou-se ao jindungo em Malanje (a minha terra em África) quando, ainda menina, a minha mãe fazia uma boa e ajindungada moambada com dendém criado, colhido, cozido, espremido e transformado em óleo de palma lá em casa…
ou
assava uma perna de cabrito no fogareiro do quintal, que ia regando com um raminho de salsa mergulhado num molho previamente preparado com jindungo, azeite e mistérios que não sei…
ou assava o frango no churrasco
ou cozia o camarão
ou fazia mão de vaca com grão.

Em tudo, punha-se sempre jindungo madurinho que apanhávamos na nossa horta: os pretos estavam verdes, os amarelos a pintar, os laranjas quase maduros e os vermelhos no ponto.

“O que arde cura” dizia-me a minha mãe quando me despejava álcool sobre uma ferida qualquer.

Agora, arde-me a vida, mãe. Preciso que o teu jindungo me arda na boca, mas me aqueça o coração.

29 de Junho de 2018
by Miguel
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Dias felizes

Imagem retirada do site https://www.frasesdobem.com.br

Quando me levanto, estou cansado de tanto dormir, cansado do dia anterior e de todo o peso dos anos!…

Mas penso (só para mim) que hoje vai ser um dia feliz, agradável e simpático.

Ele, o dia, vai correndo como um rio corre para o Mar. E… fico sem saber se foi feliz ou infeliz.

Cumpre-me agora dizer, que espécie de dias são estes?

Não importa se têm sol ou sombra, nem quaisquer outros pormenores que não me dizem respeito.

Toda a construção que faço de querer dias felizes, vai sendo de hesitação e dúvida. Mas, deito-me numa cama de pensamento, que deve haver dias felizes.

Só tenho que estar lá.

19 de Junho de 2018
by Salvina
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Uma flor…

Uma flor, uma pequena flor, uma única flor, uma flor…

Olá, branca flor. Esperava-te, mas não sabia se virias. Afinal, esperamos tanta coisa que não vem…

Mas vieste.

Sabias que és linda e que quando os meus olhos te viram logo se riram para ti? Não tinha terra, daquela arejada e livre, beijada pelo sol, pelo vento, pela chuva… e onde debicam os passarinhos; daquela que vive nas hortas, nos terrenos, nos jardins ou nos quintais… daquela que vive, apesar do lixo que lhe despejam em cima; daquela que, embora maltratada, sobrevive e um dia, sem mais nem porquê, deixa-se atravessar por uma planta, uma erva, uma flor, uma árvore.

Não tinha nada disso para te oferecer (e bem gostava de ter), mas tinha um vaso e um parapeito para ti. Não te deixei só: dei-te três irmãs. São todas fêmeas… e sabes porquê? Porque as fêmeas têm o dom de se reproduzirem, de florir, de se abrirem ao mundo, apesar de todos os pesares. E tu, flor, primeira flor, pequena flor, única flor, branca flor, vieste. No teu centro tens um filho… já se lhe vê qualquer coisa. Qualquer coisa, não. É o teu fruto. Vais despir-te de pétalas; ele brotará do teu ventre [como todos os filhos] e tu, que és flor, metamorfosear-te-ás em fruto. Vermelho, vermelho vivo, vermelho sangue, vermelho vida, vermelho porque será vermelho [se amadurecer]. A tua existência, flor, será efémera [todas as vidas o são], mas ainda que efémera seja, já te dei o meu amor.

Obs: Reparem no pormenor (lado esquerdo da fotografia): está um homem (talvez jardineiro) a cuidar da terra.

24 de Maio de 2018
by Salvina
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Imigrante

Está ali uma árvore: um abacateiro. Não é árvore desta terra, bem se vê.

Está só. Não tem irmãs nem irmãos, nem qualquer árvore da sua espécie por perto. Vejo-lhe uma visita: um melro, pássaro preto, a cantar num dos seus ramos.

O tronco não é grande; a terra que lhe coube é pouca. Foi plantada num canteiro de jardim de um pátio cimentado. É única.

As folhas, verdes já não são. Estão amarelas, quase acastanhadas. Árvore dos trópicos, não sei como resiste aos invernos. Está cercada de rasteiras plantas. Algumas dão flores; outras, não.

Nunca lhe vi um fruto. Talvez seja infértil, não sei?! Não comunica, não dança com o vento. O pátio está murado. Encerraram-na ali, entre quatro paredes. Nem sei para onde se expandem (expandir-se-ão?) as suas raízes. A terra é escassa. Como sobrevive? Está ali há anos, não sei como nem porquê?! Olho-a como a alienígena que é. “Não és de cá, camarada” – digo-lhe.

Conheço os seus ancestrais: vestem-se de cheiros, de flores, de frutos. Sei que ela precisa de companhia, mas não sei se ainda vai a tempo de a ter. Cresceu pouco, muito envelheceu. Assim, coberta de sépia, parece velha; no corpo fino, no tamanho e na forma do tronco, lê-se-lhe adolescência.

Bem sei que não amou e não se reproduziu. Viveu só. Ninguém teve. Trocou chuvas de verão por regas no Inverno. Lutou para viver. Resistiu.

Admiro-te, árvore, e lamento-te o destino. Plantada num pátio. Na tua terra, naquela terra de quentes e húmidos ares (de onde vieste), romperias um caroço e qualquer pedaço de terra seria teu e crescerias bela, folhosa, frondosa e frutuosa para alimentar filhos disformes de fomes enormes.

………

Caroço plantado. Quem te plantou?
Foi qualquer pessoa, que por aqui passou

És abacateiro, num pátio fechado?
Vivo num canteiro, estou muito apertado.

Vais morrer aí, velho imigrante
Volta à tua terra, à terra distante
Vai lá ser feliz, vai ser diamante

Não posso voltar, já fui transplantado
Tenho que morrer, já cá deste lado
Sem amar ninguém, sem nenhum pecado
Sou árvore morta num espaço fechado.
As minhas raízes não foram profundas
Não frutifiquei e estão moribundas.
Adeus, minha gente, não vos volto a ver
Aqui nesta vida estou quase a morrer.

7 de Maio de 2018
by Salvina
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Pardais em Lisboa

Aguarela de Paulo Baptista Silva

Ontem, ao final da tarde, senti o pulsar de Lisboa numa esplanada da Rua dos Bacalhoeiros, junto à Casa dos Bicos (Fundação José Saramago), a beber coca-cola e a ouvir o chilrear dos pardais.

Pardais em Lisboa? Há-os aos montes. São citadinos, pois claro!

Poisam nos beirais, nos parapeitos das janelas, escondem-se em buracos e alimentam-se de migalhas. Dizem que “o primeiro milho é dos pardais”, mas olhem que não! Os sem abrigo (sejam pardais ou não) comem do que “desenrascam”, do que lhes dão, do que lhes calha (ou não) ou de migalhas de pão.

[Chilreiam os pardalitos no chão, chilreiam os pardalitos no ar, sobrevoam as mesas, poisam e voltam a voar].

Turistas vão, turistas vêm, turistas ficam, turistas falam, turistas riem, turistas comem, turistas… trânsito, tuque-tuques, motorizadas, bicicletas… engarrafamento… e os pardalitos.

Debica aqui [não há minhocas]; debica ali [não há sementes]; debica, debica [não há nada]; voa, poisa, procura, mexe, remexe, voa, poisa, procura…

Eram dois. Eu bem os vi, ouvi e compreendi: quem luta para sobreviver não dá atenção a mais nada. Sabem porquê? A fome mata… e não só pardais.

Depois de ter escrito estes pensamentos fui para a inauguração da primeira exposição de aguarelas do meu amigo Paulo Baptista. Só vos digo: valeu a pena. Parabéns, Paulo.

12 de Abril de 2018
by Salvina
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Será que vai ser mãe?

Todos os sábados (ou quase todos) desloco-me ao mercado de Benfica para comprar frutas e legumes para a semana.

Um dia, chamou-me a atenção uma loja de produtos africanos (onde existe África, existo eu). Entrei para ver o que por lá havia. Descobri, então, que a lojinha vendia uma mistura de óleo de palma, arroz, farinha torrada, fuba, mas também paçoquinha, polvilho… e alguns produtos asiáticos que desconheço.

Reparei que na montra do balcão estavam alinhadas várias garrafinhas com jindungo (como se diz na minha terra). Algumas estavam cheias de bolinhas vermelhas (nunca tinha visto), outras de formato oblongo, umas amarelas e outras vermelhas. Encheram-me os olhos.

Comprei uma garrafinha de “Pimenta bode” (era assim que se chamavam as bolinhas vermelhas) e fui experimentar-lhe o sabor. Delícia. Comprei mais e mais e mais. Não sei se fui eu que acabei com o stock, mas o que é facto é que a pimenta bode esgotou e durante uns tempos não lhe pus os olhos em cima. Quando voltou, o preço tinha aumentado substancialmente e deixei de a comprar.

Quem conhece o mercado de Benfica, sabe que é uma estrutura redonda contornada interiormente por talhos, lojas de vestuário, padarias, floristas, cafés, etc.

Numa das floristas deparei com uma planta de pimenta bode. Bem, não seria mesmo pimenta bode, porque, embora fosse redonda, tinha um biquinho. Comprei-a. Trouxe-a para casa e coloquei-a no parapeito da janela da cozinha, para que tivesse ar e sol.

As folhas foram caindo, caindo e eu fui desesperando, desesperando. A planta estava a murchar.

Fui de férias e entreguei-a, em estado comatoso, aos cuidados de uma “flower sitter” (a minha amiga Isabel), que tem uma marquise soalheira. Ela tratou-a com um carinho especial, mantendo-a em “cuidados intensivos” e conseguiu que ela lhe oferecesse três ou quatro folhinhas. Embora frágil (mas viva) a minha plantinha voltou para casa. Ficou sob observação, mas não havia meio de deixar aquele estado de “quem está ligada à máquina”. Começou a definhar e eu a entristecer.

Quando vieram os grandes ventos e as chuvadas, tive medo de que a ventania a levasse e resolvi pô-la do lado de cá do vidro da janela, ou seja, dentro da cozinha.
Comecei a chamá-la de “minha menina” e a pedir-lhe que fosse corajosa e que se aguentasse, que sobrevivesse a todas as “agruras”. Todos os dias, várias vezes por dia, dava-lhe o meu olhar e a minha voz (a mais doce de que fui capaz). Ela começou a medrar: um dia, mais uma folha; outro dia, mais outra folha e assim sucessivamente. Tornou-se linda e acho que até já “engordou”.

Continuo com medo de que murche, mas insisto na dose diária de vitaminas de olhares e palavras.

Estou à espera do seu primeiro fruto… e de todos os que vierem.

É Primavera.

Será que a “minha menina” vai ser mãe?

15 de Março de 2018
by Miguel
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Amanheci

Imagem retirada do site pixabay.com

Imagem retirada do site pixabay.com

Amanheci!… Como sempre em todos os dias. Com um torpor, uma preguiça, sem vontade de recomeçar.

Sentei-me numa cadeira mais ou menos confortável, junto à janela do meu quarto, como se o Mundo me estivesse a amparar em suas mãos.

Olhei a janela!… O dia está cinzento de Inverno, tendo uns tons alaranjados de um Sol que quer entrar. As cores não sei se as há!? ou se as sinto numa exposição de uma força de terramoto ou relâmpago que me dá luz ao dia.

Eem que a minha alma ajoelhada vai pedindo a longos tragos, mais um dia telúrico e brilhante como o diamante em bruto, que tento lapidar no tempo e com o tempo…

Dia a dia vou brilhando…

3 de Março de 2018
by Salvina
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Pó de borboleta

borboleta

Imagem retirada do site www.donde-vivem.com

Os miúdos gostam de campo, não gostam de prédios. De prédios só gostam de elevadores, que são os carros dos prédios, para andar para cima e para baixo.

As crianças precisam de espaço para gozar de pequenas liberdades: chapinhar nas poças de água da chuva; seguir o carreirinho das formigas, comê-las, esmagá-las com as mãos ou com os pés, desorientá-las, destruir o formigueiro, apanhar gafanhotos, lagartas e lagartixas, correr e saltar só pelo prazer de correr e saltar. E, também, a liberdade de perseguir borboletas.

Quando era pequena entrava no prédio do Vitorino só para andar de elevador e gostava de correr atrás das  borboletas.

As borboletas não voam como os pássaros; têm o seu ritmo, flutuam suavemente como as fadas. Nunca andam lá no alto, a não ser que haja montanhas. Acho que elas preferem manter-se pertinho do chão.

Queria que as borboletas me pousassem em cima, para lhes ver as cores, os modelos, os traços, as bolas, os riscos. Nunca o faziam. Escolhiam pousar sobre outras fragilidades: pousavam no capim, numa erva, num arbusto, numa trepadeira, numa folha, num galho seco, numa finura de verde. Mas também pousavam nas plantas do jardim da Dona Micas ou da Dona Alice, a mãe da Zezinha, para reterem nas delicadas patas o néctar das mais belas flores…. e as flores voavam com elas à procura de outras flores.

Eu caçava borboletas. Não tinha rede para as apanhar no ar. Deixava-as pousar e, com muito cuidado, sorrateiramente, prendia-lhes as asas entre os meus dedos polegar e indicador. Apanhava-as para lhes  compreender a fragilidade, a beleza, o colorido, a leveza. Agarrava-as pelas asas e as asas que andavam num vaivém como os elevadores, ficavam paradinhas, imobilizadas entre os meus dedos. Virava-as de cima para baixo, de baixo para cima, de lado, do outro lado, de frente, só para as ver melhor.

[Não sei com que tintas, cores ou pincéis se pintam as borboletas].

Asas de vários tamanhos e padrões, coloridas, sedosas, de veludo, arte pura em movimento, que pequeninas mãos impediam de voar, para com elas se encantar… arte roubada, entre dedos aprisionada.

Libertava as asas, mas ficava com pó nos dedos: pó de borboleta! Roubei-lhe as cores? Não! As cores só me ficavam nos olhos; nas mãos, não. Nem restos de azul, nem sobejos de amarelo, nem um fio de cor de laranja, uma réstia de vermelho ou de dourado ou de preto ou de qualquer outra cor. O pó era fino e aveludado, mas era só pó: pó de borboleta. Prender-lhes as asas, era desfazê-las em pó.

[Nunca consegui pintar os dedos com cores de borboletas. Nunca.]

Soltava-as e ficava a observar o seu voo ligeiro, gracioso, acetinado e colorido. Eram livres de voar, poisar, voar, poisar, voar…

[Não se pode aprisionar as cores de uma borboleta.]

17 de Fevereiro de 2018
by Salvina
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Escreve-me, escrevo-lhe…

Escreve-me. Escrevo-lhe. Não sei quem é: não tem rosto, nem corpo, nem coisa física, só alma. E mesmo essa, só lha adivinho.

Dá-me as suas palavras. Dou-lhe as minhas. Mas o que são as palavras? Podem ser armas de conquista ou de derrota; de vida ou de morte; de realidade ou fantasia; de dor ou de euforia; de amor ou de ódio. Podem ser palavras mortas, ditas, cantadas, escritas, sofridas ou engolidas, vomitadas ou cuspidas, palavras escondidas ou disparatadas, malditas ou abençoadas, palavras humildes ou desavergonhadas.

Se as palavras forem transparentes, podemos ver através delas. São as palavras que nos falam dos outros e que lhes falam de nós. Mas se forem opacas, dúbias, mentirosas, são as palavras que nos traem, desiludem, nos roubam a imaginação que edificámos com elas.

As palavras são só um sopro ou a voz desse sopro; podem querer dizer tudo, mas também podem querer dizer nada; podem ser pedras que nos derrubam, mas também podem ser mãos que nos erguem; podem ser flores que nos enfeitam ou estrelas que nos guiam.

Diz-se que as palavras são como punhais. Algumas já me mataram; outras ressuscitaram-me.

No mundo das palavras é possível encontrar todas as palavras do mundo, todos os significados, todas as fés e heresias, todas as dores e alegrias, todas as luzes e sombras, todas as penumbras e solidões, todas as cores e todas as escuridões.

Escreve-me. Escrevo-lhe. Com as palavras que tenho, com as palavras que tem. Às vezes sinto as palavras como uma gaiola que prende; outras vezes sinto-as como o pensamento que liberta. Nem tudo se explica por palavras, mas as palavras podem explicar-nos, nem que as embrulhemos em silêncios.

Se me escreve e eu lhe escrevo, o que é que existe entre nós, senão o significado das palavras com que nos (d)escrevemos?

As palavras têm som, têm voz, dá-se-lhes entoação para lhes atribuir sentido ou para lhes subverter esse mesmo sentido.

Para mim, as palavras são setas direccionadas a um alvo; às vezes curvam, entram em becos, ressoam e perdem-se no labirinto dos ouvidos; outras vezes ficam gravadas dentro de nós de tal maneira que nunca mais de lá saem.

As palavras são ferramentas, instrumentos, máquinas trituradoras, misturadoras, espremedoras de sumo. Eu visto-me de palavras. Também me dispo com elas. Sou o que as palavras dizem de mim. Há quem diga que palavras “leva-as o vento”, mas eu tenho algumas eternas.

As palavras são como os números: se conjugadas tornam-se infinitas.

Escreve-me. Escrevo-lhe. Não sei quem é: não tem rosto, nem corpo, nem coisa física, só alma.

Vou continuar a escrever-lhe.

14 de Fevereiro de 2018
by Salvina
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O tomateiro

Não tenho terra para fazer uma horta. Moro num terceiro andar e tenho uma varanda onde o vento bate forte e as plantas se enchem de pequenos bichos que não consigo combater. Em vasos plantei roseiras: uma vermelha e outra salmão. Dizem que as roseiras resistem a tudo… e, de facto, sou sempre presenteada com alguns botões que se abrem em pequenas rosas que me alegram os olhos.

No parapeito da cozinha, que é generoso, também coloquei um vaso, que enchi de terra. Comprei sementes de ervas aromáticas (que outras poderiam ser?) para enriquecer cozinhados. Das cinco variedades, salsa, coentros, hortelã, salva e a outra já não sei qual foi, só a salva e a hortelã germinaram. A salva nunca soube o que fazer com ela, mas a hortelã tenho-a utilizado para fazer chá.

De repente, apareceu um intruso. Que erva será esta? – perguntei-me. Não a arranquei para ver no que dava. Percebi que era um tomateiro. De onde tinha vindo?Isso já não sei! Não semeei tomates. Talvez se tenha infiltrado (des)propositadamente na água da rega. Talvez uma sementinha mais assanhada tenha teimado em sobreviver.

Não o arranquei. Deixei-o conviver com a hortelã e a salva. E ele cresceu, cresceu, cresceu. Brindou-me, depois, com algumas frágeis flores amarelas. Deixei-me rir. O tomateiro continuou a crescer e a dar-me mais flores, muitas flores amarelas.

É cheiroso. Quando lhe toco perfuma a cozinha inteira durante alguns longos segundos. Olho para ele todos os dias e penso: de onde terá saído este tomateiro teimoso, sobrevivente de águas desconhecidas? E rio-me do tomateiro; rio-me para o tomateiro.

Qual não é a minha surpresa quando, ao despir duas flores, lhe nasceram dois tomatinhos minúsculos, que se riram para mim. Ri-me com eles. Ri-me para o tomateiro que me oferecia os seus frutos. O tomateiro não pára de crescer, está tão alto, tão alto, que já se verga, para não bater no tecto.

Prometo que, se os tomates vingarem, hei-de comê-los com hortelã ?