Quantas mães tive?

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A mulher que me deu vida era uma jovem aldeã que me lavava as fraldas no rio e as passava a ferro num dispositivo pesado alimentado a carvão.

O berço que me embalava já tinha “ninado” mais dois.

A minha primeira mãe, foi uma “mãe galinha” que ia para o trabalho de campo com os filhos agarrados às suas saias. Não gostava de os entregar à guarda de ninguém, pois só ela sabia cuidar deles… queria-os sempre “debaixo das suas asas”. O caminho para a horta era longo e a minha mãe fazia-o comigo ao colo e com os meus irmãos “escarranchados” em cima de um burrico. Entre a enxada e o ancinho, limpava o nariz a um, lavava as mãos a outro e mudava-me a fralda quando estava molhada ou dava-me de mamar à sombra de um castanheiro quando eu estava com fome. Amanhava a terra como quem faz a cama de lavado para nela se deitar; colhia as couves para a sopa como quem prepara um manjar, aconchegava a terra às batatas como quem acredita no “fruto” que a há-de sustentar.

Orgulhava-se dos filhos, que “não metiam nojo a ninguém”, porque andavam sempre “limpinhos e engomados”…

Desta mãe não me lembro eu, mas lembro-me da segunda.

A minha segunda mãe foi a “mãe curativo”, que sarava todas as minhas feridas com um beijinho no “dói-dói”, ou com a frase-calmante “a mãe está aqui”. O conforto, a segurança que me transmitia e a certeza absoluta de que eu estava protegida por ela, acompanharam-me durante muitos anos… e quantas vezes, em momentos de aflição, me ouvi dizer “ajuda-me, mãezinha”, como se ela pudesse surgir entre as nuvens, qual anjo da guarda, para me socorrer.

A minha terceira mãe foi uma “mãe-triste”, que perdeu a sua primeira filha numa cubata em Angola, mordida por uma tarântula.

Vestiu-se de negro (por dentro e por fora), deixou de nos contar histórias da aldeia (as únicas que sabia) e passou de inocente a culpada num esfregar de olhos. Culpada por não ter protegido a sua cria, por lhe ter “espalhado o veneno” quando, para a socorrer, a friccionou  com álcool. Tornou-se quase um fantasma que vagueava, chorando, pelos cantos da casa. Nunca recuperou da perda, embora aparentemente o tenha feito.

Não sei quando surgiu a “mãe repressora”… a mãe que, quando éramos convidados para lanchar em casa de alguém, nos controlava os impulsos para atacar os doces que acompanhavam o chá ou qualquer outra bebida que nos ofereciam. O primeiro pedaço da guloseima era sempre retirado como se se tratasse de um pedacinho de vidro: devagar! Degustar devagarinho era a regra, para não darmos a ideia de “lambões” ou de meninos mal educados. Normalmente não resistíamos a mais um e outro pedaço. Olhávamos de soslaio para a nossa mãe: se ela fechasse os olhos sabíamos que podíamos comer mais um bocadinho; se nos abrisse os olhos, nem com a insistência dos nossos anfitriões nos atrevíamos a retirar nem mais um bolinho.

Mais tarde surgiu a “mãe cúmplice”, aquela que, na adolescência, me protegia quando, literalmente, saltava a janela do meu quarto para ir a um baile sem o consentimento do meu pai.

Depois a “mãe tardia”, que aos 44 anos nos presenteou com uma menina loira, de vivos olhos azuis, que comia terra e ria com tanta vontade que “quase se ficava no riso”…

A “mãe coragem” revelou-se quando recheou a despensa com comida, em tempos de guerra, e albergou em sua casa famílias inteiras que tinham fugido dos arredores para se protegerem dos saques e assassinatos que se tinham tornado frequentes naquelas circunstâncias. Esta “mãe coragem” esteve mais de nove dias sob fogo cruzado, de noite e de dia, a andar de gatas (para não ser atingida pelas balas) e a dividir víveres com os restantes barricados.

Foi resgatada da sua própria casa pela tropa portuguesa e passou a ser a “mãe aquartelada e doente”, depois transportada, em coluna militar, para uma cidade do sul, onde a segurança era maior.

Para mim tornou-se, então, a “mãe desaparecida”, que constituiu a busca maior da minha vida. Encontrá-la, vê-la, falar-lhe, abraçá-la ou apenas “saber dela”, tornou-se o objectivo principal da minha vida.

Entretanto ,a minha “mãe desaparecida” atravessava o deserto do Namibe, numa  caravana de automóveis. Levava consigo os parcos haveres que conseguira reunir e dirigia-se a um campo de refugiados a poucos quilómetros de Joanesburgo, acompanhada do meu irmão mais velho e da minha irmã mais nova.

Foi resgatada por qualquer um empregador que precisava de mão de obra especializada e que contratou o meu irmão que pode, finalmente, sair do campo e dar-lhe um novo lar e uma nova família para cuidar.

Quando a voltei a ver (em férias), tinha-se transformado em avó extremosa, que tratava de toda a logística doméstica em casa do meu irmão.

Alguns anos depois regressou a Portugal e passou de “mãe avó protectora” para “mãe desalojada”. Como eu não tinha casa, disse-me um dia que, provavelmente, teria que “ir dormir para debaixo da ponte”. Respondi-lhe: “se tu fores, eu também vou!”. Felizmente não foi preciso. Tornou-se “mãe ambulante”.

De há uns anos a esta parte a minha mãe caiu-me nos braços como “mãe filha”. À medida que vai envelhecendo torna-se cada vez mais frágil, mais pequena, mais criança, mas sempre lúcida. Não raras vezes vejo-a mirar-se ao espelho e dizer para si mesma: “como tu eras e como te tornaste”… mantém uma memória melhor do que a minha, mas tem as pernas frágeis e o coração cansado.

Aos 90 anos ainda tem “jeitos” de mãe. Contudo, quando quer fazer alguma coisa que sabe que eu desaprovo, fá-la às escondidas. Quando sai à rua, levo-a pela mão, não vá cair. Tenho todos os cuidados com ela como se fosse uma menina pequena que precisa de protecção.

Quando caiu e foi para o hospital, segurei-lhe na mão enquanto era intervencionada e confessou-me mais tarde que, quando eu cheguei, todas as suas dores tinham desaparecido, porque eu estava lá e nada mais tinha importância… não queria era morrer sem me ver.

No essencial é ainda uma mulher independente, mas às vezes tenho dificuldade em lidar com as suas “fraquezas”.

Escrevi este texto para que nunca me esqueça de todas as mães que tive, condensadas numa só mãe…

E o que são as suas fraquezas perante tanta grandeza?

Eu amo a minha mãe!

24 Comments

  1. Salvina, não há como conter as lágrimas que brotaram ao ler este texto tão lindo que escreveste sobre vossa mãe, e minha tia tão querida… Veio-me à mente como um filme toda a trajetória de nossa família, os encontros, desencontros, lutas, tombos, idas, vindas, voltas por cima, e também a saudade que a distância tras, mas o melhor de tudo, a certeza viva, de que apesar de todos os atropelos, tudo valeu a pena…Um grande beijo.

    • Obrigada, Mário. Sei que encontraste neste texto muitas imagens que nunca tiveste oportunidade de ver. Também sei que “só se vê bem com o coração” e esse, tenho a certeza, esteve presente na tua leitura. Obrigada, meu primo. Tenho muito amor e respeito por ti. Um beijo do tamanho do oceano que nos separa.

  2. Cara Salvina:
    Comentava eu com a minha mãe o que tinhas tu escrito sobre a D. Cândida, quando ela com o rosto coberto de lágrimas, me lembrou que não se esquece que quando a minha irmâ Zezinha faleceu, foi em vossa casa que foi o velório.
    Obrigada.
    beijos às duas.

  3. Este texto aconchegou-me a alma e fez-me agradecer o facto de ter tido o privilégio de contar com o seu carinho durante estes anos todos…

    Obrigado tia!

  4. Minha amiga de tantos anos….eu te agradeço esta bela Homenagem que fazes a tua Mãe, e como ja não tenho a minha Mãe, muitas vezes quando beijo a tua sinto que estou a abraçar a minha. Ao ler a tua Homenagem a esta GRANDE SENHORA que é a CANDIDINHA tua Mãe as lagrimas saltam.
    Parabens Vina.
    Beijo kikas

  5. A tua mãe é um docinho… lindo. Amo muito ela.

  6. Amiga li este teu artigo e por incrível que pareça… foi como se estivesse vivendo estes momentos de mãe e filha, até porque vivi alguns momentos “desses” e sei o que foram. Muito bonito…. lindo mesmo e comovente, continua escrevendo assim amiga.

  7. Um belo texto sobre uma Mãe que se divide em muitas mães, sem deixar de ser uma única Mãe.
    A minha Mãe faz na próxima sexta feira 90 anos e é com muita alegria que irei passar com ela esse dia.
    Felicidades para ti e para a Senhora tua Mãe.

  8. Obrigada a todos os amigos que tiveram a amabilidade de comentar os artigos. Estou muito grata pelas vossas palavras.

  9. Momentos, palavras, coragem para descrever como se fosse hoje os acontecimentos difíceis da vida… Resumidamente de uma forma simples, as palavras dizem tudo. Que grande coragem! Parabéns à Tua Mãe, a Ti e em especial este dia que é teu… Muitas felicidades, saúde, amor e que continues com esta força dentro de ti. Assim a vida tornar-se-á mais fácil.
    Bjs
    Fernandes

  10. Linda homenagem feita à sua mãe.
    Todos nós, desatentos, filhos ingratos, preocupados com o próprio umbigo, deveríamos ter tido essa atitude de, ainda em vida, agradecermos e homenagearmos a nossa própria mãe, o que acontece raramente.
    Eu pecador me confesso, nunca tive, para além dos telefonemas e postais do dia de anos e dia da Mãe, uma atenção assim para com a minha mãe que Deus tem. E agora é tarde…

  11. Quando se escreve com o coração as palavras adquirem uma pureza, beleza e sinceridade tão grandes que quem tem o privilégio de as ler sente-se tocado de uma forma indescritivel!!!

  12. Quantas Mães tive
    Hoje de manhã, passei por aqui, e fiquei completamente arrasada com o que li. Que História (veridica, claro) maravilhosa que a Vina nos confidencia. Que privilegiada deve ter sido com uma Mãe Coragem como tem. Obrigada por nos ter mostrado o lado dos seus afetos familiares. Tenho que confessar que não consegui evitar que umas lagriminhas teimosas rolassem no meu rosto. Que Deus a conserve assim como está que para vós Filhos é um conforto muito grande poder ter-se Mãe com as suas doces 90 primaveras.

  13. É na familia que se criam os maiores laços de amor mas ter tido uma mão assim é um grande privilégio…

  14. A nossa Candidinha “retratada” como só tu o sabes fazer, de uma forma simples mas demolidora!…
    É um orgulho ser tua irmã!
    Toda a mãe ambiciona ter uma filha como TU!!

  15. Estou sem palavras.
    Como é que disfarço esta(s) lágrima(s) ao canto do olhos(s)?

    Brutal!

  16. Revi neste teu texto as memórias que tenho da minha mãe… Obrigada por partilhares a experiência de teres vivido e sido criada por uma grande Mulher, que te tornou no que és hoje, e que dela cuidas com tanto Amor. Bem Hajam as duas!

  17. Faltam-me as palavras…

  18. Intensa, profunda, terna, doce e apaixonante!

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