Antes que me esqueça

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Sempre tive medo que a minha mãe perdesse a memória. Parece-me que levaria consigo um pedaço de mim. Para me sossegar, quero acreditar que o seu amor por mim faria parte de um registo inacessível, mas estaria lá.

(Dedico este texto a todas as minhas amigas e amigos cujos familiares sofrem (ou sofreram) de Alzheimer).

—x—

Antes que me esqueça…

Acho que estou a perder a memória. Não me lembro do que jantei ontem, nem se ontem é perto de hoje. Por vezes tenho dificuldade em lembrar-me de quem sou; o meu raciocínio está-me a falhar e tenho o cérebro desordenado.

Não sei porquê, mas acho que alguém faz anos hoje. Será? Mas quem? Vou perguntar!

Já perguntei e já me esqueci! O que se passa comigo? Em que mês estou? Quando é que isto começou? Esforço-me por encontrar respostas no emaranhado dos meus pensamentos… mas não consigo.

Quero fazer-te o almoço, mas não sei se sou capaz! Leva-me muito tempo e não sei se me esqueço da panela ao lume. .. reajo lentamente e até parece que já não sei fazer nada… estou a tornar-me apenas uma sombra de mim.

Que dia é hoje? Porque será tão difícil lembrar-me? Que rato me roeu a compreensão? Acho que perdi a noção das datas, das estações do ano e da passagem do tempo. Tenho dificuldade em perceber o que me dizem…

Acho que me lembro de ter saído de casa (há quanto tempo?) e de me ter esquecido de onde estava ou como chegara ali… se não me tivessem ido buscar acho que não saberia identificar o caminho de volta. Assustaste-te, não foi? Sabes? Tive “ganas” de sair, mas senti-me confusa, ansiosa, deprimida e com medo… já nem a nossa casa me confortava…

Estou a esquecer-me das cores, confundo o verde com o amarelo e o vermelho com o azul… já não sei falar de mim nem de ti… sei que interrompo uma conversa e que perco “o fio à meada”. Sei que me repito, mas esqueço-me sempre de que me repeti… e volto a repetir-me.

Às vezes troco o teu nome, o nome das coisas e das pessoas, mas não o faço por mal. Na verdade, dentro de mim, tudo se mistura como uma argamassa sem rosto… Não sei como sair desta prisão, nem sei se alguém me pode libertar destas grilhetas… creio que não!

Dou comigo a pôr o relógio no congelador como se quisesse congelar o tempo. Não sei onde ponho as coisas e às vezes acuso-te injustamente de mas teres roubado… desculpa… são momentos de “loucura” que não consigo evitar.

Já não sei cuidar de mim e nem sempre a minha higiene é das melhores, mas não consigo tratar do corpo quando me sinto “fraca de mente”. Tenho mudanças de humor, é verdade, tão depressa me rio como choro, mas penso que me entendes… às vezes até te ris.

Não sei se já fechei (ou se vou fechar) as minhas memórias num cofre a que ninguém pode aceder. Sei que estes serão (ou foram) momentos de angústia para ti… parece que te roubei o passado… o nosso passado. Mas não… se conseguisses abrir esse cofre, encontrar-te-ias dormindo numa caminha de algodão onde guardo todas as recordações que perdi e que não consigo encontrar… mas o registo está lá!

No cofre sem chave onde tu estás, permanecerás sempre, com o amor que te tive (e que te tenho) embora não me dê conta. As minhas lembranças são fugazes, mas de vez em quando ainda existem…

É num desses momentos que te escrevo, antes que me esqueça. Então, quero dizer-te que te amo, que sempre te amarei, mas parti para outro mundo, onde não há raízes, nem árvores, nem pântanos, nem mar… parti para onde, infelizmente, não podes chegar…

Mas…. apesar disso, enquanto existires, eu existirei dentro de ti.

8 Comments

  1. É uma situação que, felizmente, não conheço de perto, mas imagino quão penosa possa ser, até mais para a família do que para o próprio paciente.

  2. Vina
    Esta tua crónica deixou-me muito emocionada…fez-me lembrar a minha mãe que partiu numa situação igual e que nos deixa muitas saudades.
    Amiga tu és fantástica… escreves de uma maneira que cativa a nossa atenção e ficamos com vontade de ler mais e mais… Este artigo está lindíssimo e muito real do problema de quem sofre desta maldita doença.
    Um beijinho grande para ti amiga.

  3. Já te tinha escutado, este texto; (falado ou declamado) por ti, quanta emoção tu conseguiste por em «viva voz».
    Emocionei-me mas contive-me……
    Que bom uma mãe é ter uma filha como TU (pararabéns para as 2)

  4. Sal, adoro te ler. Beijo gordo e barulhento! Rita

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