Espírito de Natal

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Lembro-me do espírito de natal da minha infância, quando não se falava no Pai Natal, no Rodolfo, nas cartas a pedir os presentes, que hoje em dia nos entram pela casa dentro através da televisão, dos computadores e de um sem número de tecnologias de comunicação.

Assim que começavam as férias de natal, eu e os meus irmãos (e o meu pai quando eramos mais pequenos) íamos fazer uma “expedição” pelos pinhais (sou da beira litoral e a minha terra está rodeada de pinhais) à procura daquela que seria a nossa árvore de natal e o musgo do nosso presépio.

Era um passeio que poderia levar várias horas até encontrarmos a árvore mais adequada (a eleita de entre tantas, com o tamanho que mais ou menos tínhamos definido e com os braços bem feitinhos para sustentar as luzes, as fitas e as bolas) e o musgo mais bonito, mais macio e verdinho para o nosso presépio.

Quando voltávamos para casa, arranjávamos um vaso para a árvore (como se a replantássemos), colocávamo-la no sítio dela e enfeitávamo-la. Libertávamos a mesa para o presépio (que durante o ano era utilizada para outros fins), colocávamos a casinha de madeira que o meu pai tinha feito para abrigo e cobríamos tudo com o musgo. Dentro da casinha (que parecia um abrigo da natureza assim rodeada pelo musgo), pendurada no tecto, púnhamos uma lampadazinha que servia de luz de presença para o menino Jesus e restante família (e claro, a vaca e o burro).

Havia sempre recomendações relativas à relação entre o nosso comportamento e os presentes do menino Jesus, mas o menino Jesus nunca nos deixou ficar mal.

Na noite natal colocávamos debaixo da chaminé as maiores botas que tínhamos, na ilusão de que quanto maior fossem maior poderia ser o presente (já que o presente aparecia dentro da bota).

Íamos deitar-nos e ficávamos à espera, sempre na esperança de encontrarmos ou o menino Jesus ou, pelo menos, sermos os primeiros a encontrar os presentes para, vitoriosos, chamarmos os irmãos.

Toda a noite a dormir e a acordar, para espreitar as botas e ver se já tinham os presentes. Só anos mais tarde percebemos que, em vez do menino Jesus, era a Maria de Jesus (nossa mãe) a colocar os presentes, por volta das 6h – 7h da manhã.

Já mais crescidos, quando vínhamos da missa do galo, começámos a cantar os parabéns ao menino Jesus, já que o dia de Natal é o seu dia de aniversário.

É interessante, o menino Jesus é o aniversariante e nós é que recebemos os presentes. Talvez por aqui se entenda que o verdadeiro espírito natalício não é a troca destes presentes materiais mas a troca de gestos mais sublimes como a atenção ao próximo, a partilha da alegria, da bondade, da nossa atenção e disponibilidade para com os outros… de partilharmos o que somos e o que temos com quem vive connosco (mesmo aqueles que não conhecemos mas cuja vida se cruzou com a nossa).

One Comment

  1. Não sei se o Natal ainda tem «espirito» ou não!?…
    Descreveste o teu «espirito», mesmo que longínquo…
    Gostei do que escreveste no final do texto, nem precisavas de mais nada, aí está tudo.
    Onde tu dizes; (É interessante o menino Jesus é o aniversariante…..)

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