Existem anjos na terra

| 11 Comments

Ao longo das nossas vidas, vamos colecionando natais; uns mais felizes, outros nem por isso!

Nesta época do ano todos nós acordamos memórias e não é por acaso  que, enquanto há gente que se atarefa com a compra dos presentes, outros há que se deprimem… a época natalícia, quer queiramos, quer não, é um dos períodos mais difíceis do ano. Os nossos pensamentos estão, normalmente, virados para os mais novos e os nossos medos para os mais velhos…

É nesta altura que os mortos “ressuscitam” e que os “nascidos” são os mais importantes.

Já passaram por mim muitos natais. Quando era criança cheguei a acreditar que o menino Jesus iria a minha casa, enquanto eu dormia, para me deixar um presente (qualquer que fosse) no sapatinho que nem sequer tinha coragem de deixar na chaminé.

Todos os anos, invariavelmente, acontecia a mesma coisa: nada! Os meus sapatos estavam sempre vazios…

No dia de Natal, depois do almoço, os meninos da minha rua exibiam orgulhosamente os seus presentes. Eu – e os meus irmãos – não tínhamos nada para mostrar. Cheguei a perguntar-me muitas vezes porque é que o menino Jesus dava tanto a uns e nada a outros.

Quantos meninos ainda pensarão assim hoje? Quantos meninos se sentem discriminados por essa entidade que entra pela chaminé das casas dos seus amigos, com um saco enorme de brinquedos para distribuir, mas não deixa nenhum nas suas casas? Quantos se perguntam se se portaram bem durante o ano? Quantos se sentem injustiçados? Quantas lágrimas chorei por causa disso?

Houve um Natal em que a minha mãe nos incentivou a deixarmos os sapatos junto ao fogão da cozinha… e nós deixámos. No dia seguinte tínhamos um saquinho de rebuçados que na véspera o meu avô tinha deixado… depois vimos os presentes dos nossos amigos: bonecas, carrinhos e outros brinquedos que nunca seriam nossos.

Apesar disso, na noite da consoada, a minha mãe, cumprindo a tradição da aldeia transmontana onde nasceu, todos os anos cozia um polvo enorme (o polvo era vendido seco e demolhava-se como o bacalhau) com o qual se fazia um arroz, que era acompanhado por polvo frito, depois de devidamente temperado e passado por ovo. Lembro-me que no dia 24 de Dezembro, era habitual as mulheres saírem de casa com tabuleiros à cabeça para irem assar os leitões ou cabritos à padaria do bairro. A minha mãe não era excepção e, no dia de Natal, havia sobre a mesa um desses animais, tostadinho e delicioso para comermos. Seguia-se um ou outro bolo, não mais do que isso, algumas passas, nozes e pinhões.

Estou a lembrar-me especialmente de um Natal, precisamente quando eu tinha 15 anos. O meu pai tinha tido um acidente em Agosto (onde tinha perdido as duas pernas) e nós tínhamos sido prendados com uma menina loura de olhos cor de mar, quatro dias antes desse acidente.

Com uma mãe doente, um pai ausente, uma criança nos braços e nada na mesa, nesse Natal, não havia natal!

O meu avô tinha-nos deixado havia quase dois anos, vítima de um acidente de mota. O Natal anterior já não tinha sido bom, mas este estava a ser muito pior. Vimo-nos todos à volta de uma mesa sem ceia, perdidos e sem o mínimo de alegria. Estávamos a sobreviver com parte do ordenado do meu pai, que era entregue à minha mãe, todos os meses, pelo patrão.

De repente, alguém bateu à porta. Era uma senhora, que mal conhecíamos, que decidiu partilhar a noite da consoada connosco, trazendo um cabaz de Natal como nunca tínhamos tido. Entrou como se estivesse em sua casa, estendeu uma toalha de Natal em cima da nossa mesa e daquele cabaz começaram a sair todas as iguarias (e mais algumas) próprias daquela época festiva. Decidida não deixou que a conversa resvalasse para a tristeza e acabámos por ter uma noite calma, na companhia de uma pessoa que não escolhemos, mas que nos escolheu para compartilhar aquela noite. Foi um gesto bonito demais para poder ser esquecido.

Neste Natal, só quero pedir que um anjo terreno abra a porta da casa daqueles que estão sós, ou tristes, ou com fome e, tal como aconteceu connosco, lhes ofereça uma ceia de Natal…

Eu sei que existem anjos na terra!

11 Comments

  1. Pois é amiga… não há palavras para descrever o que de tão emocionante foi escrito neste teu artigo… de repente voltei tb aos meus Natais da infância que foram mais ou menos idênticos e por momentos lembrei-os com nostalgia. Foram Natais muito difíceis, mas graças a Deus e aos nossos esforços hoje já se pode ter um dia melhor, independentemente da tristeza dos entes queridos terem partido nesse dia (no meu caso a minha mãezinha que muito amava).
    Amiga ainda falo contigo mas desde já desejo que este Natal seja bom na companhia da tua família… Beijinhos grandes

    • Obrigada pelas tuas palavras, que me são sempre tão gratas. Também te desejo um bom Natal (o melhor possível) e que tenhas contigo, não só todos os “anjos e arcanjos”, mas os teus entes mais queridos. Um beijo grande também para ti.

  2. Neste: (Teu) «anjos na terra». Fez-me recordar alguns Natais. Em que eu tinha algumas coisas, (não muitas, mas tinha).
    E… distribuía para os outros meninos que não tiveram nada.
    Minha mãe ralhava comigo; que não devia ser tão “bonzinho” assim».
    Nunca me bateu por isso, tal como eu, que nunca me arrependi por isso.

  3. Ainda há, mas estão em vias de extinção…

  4. Lindo…. !
    Saber escrever desta maneira o que nos vai na alma, decididamente que não é para todos! Portanto… és especial!!
    De lágrima no canto do olho, digo-te que é mesmo assim, porque o verdadeiro espirito natalício deveria ser na realidade o espirito da partilha, partilhar o que tivermos, quer seja tempo ou coisas ou comida, seja o que for… com os que, às vezes apenas carecem de um momento da nossa atenção…!!

    Um Feliz Natal para ti e um grande beijo,
    Patrícia

  5. Minha querida Vina, que descrição tão perfeita, mas tão triste que faz desses seus Natais. Não consegui ler tudo sem que as lágrima me turvassem a visão e a voz se me embargasse. Realmente, para uma criança mesmo da nossa época (que era bem diferente da de hoje) era triste, muito triste essa realidade. A Vina é de certeza uma GRANDE MULHER, porque o sofrimento na infância, faz-nos crescer mais depressa e tornamo-nos pessoas “MAIORES” e bem formadas. Abençoada Senhora, que naquela NOITE, resolveu jantar com vocês. Não existem palavras para descrever a sua bondade, altruismo e o tamanho do seu coração.Mas tenho a certeza, que tudo foi mudando e hoje é bem mais diferente. Aproveito para deixar aqui, os meus votos de um Santo e Feliz Natal para vós. Muita Paz, Amor e Saude. Um beijinho

    • Gracinha,
      Obrigada por todas as palavras. É bom saber que nos lê com atenção e que comenta os nossos artigos. Os seus comentários deixam-nos sempre comovidos, porque nos falam de si e das suas vivências. Afinal aqui partilhamos pedaços das nossas vidas, dos nossos sentimentos, de nós.
      Feliz Natal também para si, com muita amizade.

Deixe uma resposta

Required fields are marked *.