Nasceu ou morreu um anjo?

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Falaram um com o outro em surdina e vi-a levar as mãos à cabeça e pôr-se a andar de um lado para o outro, como quem se sente encurralada e não sabe o que fazer. Depois virou-se para mim e disse-me, com um ar muito sério, para eu me vestir, porque tinha que ir a um sítio com o meu pai.

Ela escolheu-me a roupa, ajudou-me a vestir e antes de me ir embora, abraçou-me carinhosamente e disse-me, com a voz embargada, que a minha irmã mais velha tinha morrido. Chorou, abraçada a mim, enquanto me ajeitava a roupa e me dizia que eu era pequenina, mas que tinha que ser forte. Limpou as lágrimas e disse-me: “bem… vai lá embora, vai ter com o teu pai”. Eu não percebi muito bem o que estava a passar-se, mas achei que alguma coisa terrível tinha acontecido. Eu e o meu pai fizemos o caminho em silêncio até à Igreja da Paróquia. No “campus” da Igreja subimos uma escadaria que levava ao “salão de festas”. Aí deparei-me com algumas mulheres vestidas de preto, que apoiavam a minha mãe como se ela não tivesse forças para se manter em pé.

Olhei então para o lado direito e vi uma caixa de madeira em cima de quatro bancos. Lá dentro estava a minha irmã, serena como quem está a dormir, vestida de branco e com alguns ramos de flores em cima.

Aproximei-me, olhei para ela, abanei-a com força e pedi-lhe que acordasse, mas ela não se mexeu. Alguém me veio dizer que ela tinha “ido para o céu”, ao que eu retorqui que queria ir também. Disseram-me que não podia, mas eu, em silêncio, pedi-lhe que me levasse com ela. Vi a sua pele morena (agora mais amarelada), os seus cabelos negros e compridos, o seu “sinal de beleza” no rosto. Houve um momento em que me pareceu ter visto os seus “olhos de azeitona” e fiquei quase sem respirar, mas não… com o tempo fui percebendo que ela não acordaria do seu sono, não abriria mais os olhos. Fui invadida por um turbilhão de pensamentos e senti as lágrimas escorrerem-me pela cara. Acho que percebi que o seu corpo não tinha vida. O choro das carpideiras entrou-me pela cabeça, tapei os ouvidos e, confusa, abandonei a sala.

Senti-me só! Naquele momento queria que todas as vozes se calassem, que o mundo parasse, que alguém entendesse o que eu estava a sentir e me oferecesse um pouco de silêncio. Eu tinha perdido para sempre a minha irmã, minha amiga, minha protetora, minha companheira e quase minha mãe.

Foram horas muito difíceis que nunca mais esquecerei e tenho pena de me lembrar mais dela morta do que viva. Eu tinha 5 anos e ela 11, mas é a parte da minha vida que mais me dói recordar.

Não sei se naquele dia nasceu ou morreu um anjo… só sei que passei a olhar para o céu, como se só ele me pudesse confortar, como se só ele me pudesse dar uma resposta. Não escolhi nenhuma estrela especial, mas todas as estrelas, o universo, o infinito, o inatingível.

Houve uma altura na minha vida em que me senti invencível, em que quase desafiava a morte, não me assustava a sua “carranca”, nem a sua foice, nem nada que viesse dela. Queria travar o duelo: eu e ela… eu venceria sempre, tinha coragem, não me ia matar de qualquer maneira, porque eu era mais forte… lutaria!

Mais tarde tive medo dela, porque não conseguia imaginar-me fechada dentro de um “caixote” com “sete palmos de terra” em cima. Só de pensar no assunto, sentia-me claustrofóbica. Na altura não percebi que me estava a enterrar viva, porque os mortos estão mortos, em princípio não sentem, não sabem, não vivem, não sofrem…

Esse terror impediu-me de viver. Finalmente percebi que “quem tem medo da morte, não vive!”

Hoje não penso no assunto. Sei que vai chegar um dia… mas quero viver antes de morrer. E sei que não adianta ter medo, porque é a única certeza que temos… ainda bem que não sabemos quando, nem como!

Dizem que “é preciso vivermos cada dia da nossa vida, como se fosse o último!”… Acho a ideia óptima, mas se acreditasse verdadeiramente nela, morreria de susto, na véspera!

11 Comments

  1. Falando de perdas!!! sei bem o que isso significa, uma perda horrivel de um dia para o outro, horrivel mesmo, a mim me tirou vontade de continuar, pois a pessoa que partiu era a pessoa que mais amei na vida, MINHA MÃE…depois vem a saudade, uma saudade que não sei descrever!
    Mas como tu dizes e bem é o preço que pagamos por ser humanos.
    Beijo
    kikas

  2. Pois é amiga eu sei mais ou menos como isso é… eu só não tinha 5 anos (nessas alturas tem-se uma dimensão diferente dos acontecimentos). Sem dúvida esse momento deve ter sido bastante sofrido.
    Eu já sabia que tinhas perdido uma irmã mais velha, mas não me lembro do que foi… morreu de que?
    Um abraço forte e um grande beijinho amiga.

  3. Achei «graça» ao (…. morreria de susto na véspera!)
    Será uma forma de a temer, ou uma forma de a enfrentar porque ela é certa??????…….,

  4. Triste, muito triste para uma Menina de cinco anos. Perdi os meus Pais…. Sofri muito e ainda hoje sinto que precisava de muitas vezes os ter perto de mim, mas de uma certa forma aceitei a sua partida, porque é essa e Lei da vida. Os Pais partirem antes de nós. Não falando nos Tios e Avós, queria não tornar a viver esssa emoção, dor e perca. Mas tenho Marido, dois filhos e um irmão. Muitas vezes penso nissso e nem quero imaginar como seria….. como é que eu iria aguentar o “ESTRAGO” que isso iria causar na minha alma. Mas a verdade é que desde o dia em que nascemos, começamos a morrer. Um grande beijinho para a Vina, que tem sido uma Grande Mulher com Forças para enfrentar tantos desaires na sua vida.

  5. Há uns anos que me habituei a pensar como o Epicuro: “o mais espantoso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais”. Tenho-me sentido bastante feliz dessa forma!

    Parabéns pelo blog Salvina. =)

    • Obrigada Pedro.

      A perda e a morte andam sempre de mãos dadas… quem perde sabe o quanto custa… quem parte deixou de sentir… o que dizes aplica-se a esta última situação…

  6. Não sei se é real, se se passou contigo, mas presumo que sim.
    Eu já perdi uma irmã, mas na idade adulta, há três anos e foi penoso.
    Claro que com 5 anos, as coisas se veêm de outra maneira e estão aqui muito bem retratadas; a imagem, mesmo muito antiga permanece inalterada.

    • Escrevi este texto porque senti necessidade de dar um testemunho sobre a perda de um ente querido na infância. Muitas vezes nos perguntamos se as crianças se lembram (ou sentem falta) daqueles que partiram. Há quem pense que as memórias são apagadas com o passar do tempo. Não é verdade. Voltei aos meus cinco anos, revivi os momentos, doeu-me (como se tivesse sido ontem)… e resolvi partilhar. Desculpa ter-te feito lembrar a irmã que perdeste… mas estou certa que não é preciso nenhum texto para que te recordes dela. Um beijo grande para ti!

  7. Curioso teres publicado este artigo hoje porque nem há meia hora estive aqui a fazer contas e cheguei à conclusão que faz hoje 35 anos que tive um dia muito parecido com esse que descreves e em que a minha vida mudou completamente. Tinha 11 anos acabados de fazer e tinha morrido o meu Pai.

    Sei o que te custou escrever sobre este dia e sei também que eu, ainda hoje, não seria capaz de escrever, partilhar e reflectir sobre esse dia em que todos os minutos ficaram gravados na minha memória para sempre!

    Por isso só consigo mandar-te um beijinho, Vina!

    • Sim, um beijo e um daqueles abracinhos que nos aconchegam o coração, é também o que te mando.
      Sei que a tua perda foi irreparável…
      Sei que o “filme” continua a passar na tua cabeça…
      O destino de qualquer ser vivo é a morte… mas só nós, pobres seres humanos, temos essa consciência… o raciocínio, a memória, o pensamento, condenam-nos ao sofrimento… é o preço que pagamos por sermos humanos, por termos alma.

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