A Mafalda

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No dia 09 de Abril, depois de dois dias a dar sinal que estava para breve, a minha sobrinha Mafalda nasceu.

Não é que tivesse muita pressa, parecia sentir-se confortável dentro da barriga da mãe, mas o líquido amniótico resolveu “pôr-se a andar” e precipitar todo o processo. Resultado: a primeira grande participação da Mafalda na vida não foi programada com a calma e a serenidade que um bebé precisa para preparar a sua posição de saída, os seus olhos para ver o mundo, a boca e os pulmões para o primeiro choro, o seu aparelho digestivo para outra comida, processada de forma diferente, etc.

Não é justo exigir a uma bebé, prestes a enfrentar o completo desconhecido, que apronte tudo assim tão depressa quando, na verdade, ainda tinha mais 15 dias de bem-estar nas águas quentes onde passara quase nove meses de vida uterina.

Como é que seria connosco? Estamos na nossa vida, no bem bom, sabendo que ainda temos 15 dias antes de mudarmos completamente o nosso mundo  e, de repente, apressam-nos a dizer “Bora! Tens que ir. Despacha-te, que já estão à tua espera!”

Provavelmente parávamos aterrorizados a pensar: “Já? Mas não era agora. Não estou preparada!… E, quem são essas pessoas? Como é esse novo mundo?…”

Para a Mafalda, entre o medo e o desejo de ir ou de ficar, começaram os movimentos, a pressão, as pessoas a falar e o coração da mãe a bater apressado…

Depois de muito esforço e horas de sofrimento da mãe, também a Mafalda estava cansada e desconfortável… afinal havia um cordão entre as duas.

– Coitadinha da minha mãe, parece que não está a ser fácil para ela. E eu não sei o que fazer. Fico ou deixo-me ir?  Eu queria ficar mais um pouquinho, mas estão a puxar-me para sair… Bem… cá vou eu, seja o que Deus quiser…

Na verdade, os pais da Mafalda são católicos e a criança, dentro da barriga da mãe, já assistiu a várias missas e talvez já faça preces à sua maneira.

– Uah, uah,… Quem são vocês? Onde é que eu estou?… Quero a minha mãe!… Mãe! Tenho medo… Mãe, onde estás?…

Depois de passar por algumas mãos, de a virarem de cima para baixo, de baixo para cima, de um lado para o outro, de a limparem, de a picarem,.. a Mafalda lá sossegou ao sentir novamente a sua mãe:

– Oh! Estou a ouvir outra vez o coração da minha mãe a bater sossegadinho. Mãezinha, que bom estar contigo!

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  1. Momentos, momentos da vida. Este… este na realidade um dos primeiros momentos, sem duvida o mais importante da vida. Dar à luz, a separação umbilical da mãe, a vida! Keta, retratas de uma forma singular o nascimento da sobrinha, os primeiros suspiros, a luz o ar… tudo isto num mundo desconhecido para a Mafalda mas para os pais um momento que jamais esquecerão. Este momento será eterno fazendo parte da necessidade de ir mais além. Ato este que dará aos pais uma outra força que só, e por quem passa por ela, a poderá sentir e viver. Foste singular nas palavras mas corajosa e ao mesmo tempo com esperança… articulando muito bem a forma, as palavras e os acontecimentos de uma forma tão natural e realista, com sentido humano. Sei que queres ir mais além… Tu vais conseguir! Muitas Felicidades para a Mafalda, pais, avós, tias(os) e restantes familiares, e para ti Um beijo. Fernandes.

    • Obrigada, Fernandes, por mais um comentário encorajador que partilhas connosco. Esta foi uma interpretação livre do que eventualmente se pode passar na cabeça de uma criança.
      Beijinhos e bem-vindo de volta 😉

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