A partida

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Tinha chegado o dia.

Fechámos a porta de casa com a chave lá dentro. Não voltaríamos àquele local que tinha sido a nossa morada durante muito tempo.

Nós já éramos o resto… o que sobrava dos muitos que tinham desistido; as paredes essenciais da nossa construção de vida tinham ruído, os amigos tinham partido. Faltava-nos o aconchego de um prato de comida, a segurança de caminhar pelas ruas e o conforto de uma noite bem dormida.

Faltava-nos paz e sobrava-nos tristeza, muita tristeza. Éramos os perdedores, os derrotados, os infelizes, os que partiam de mãos e alma vazias.

Partíamos daquele aeroporto, com todos os nossos haveres resumidos a vinte quilos de bagagem: algumas roupas, alguns discos e alguns livros… nada mais!

Ali despedimo-nos da nossa infância, da nossa adolescência e dos nossos sonhos, para podermos sonhar outros sonhos, viver outras vidas, noutras paragens.

Era difícil acreditar que tínhamos de partir, mas tínhamos.

Avançámos com passos largos, desviando-nos das malas, dos sacos, das pessoas. Tudo estava amontoado… era preciso caminhar como se não víssemos, não sentíssemos, não ouvíssemos… era preciso caminhar e, como “estátuas de sal”, não olhar para trás… porque lá atrás ficavam as nossas memórias, talvez submersas no mar ou sob as areias das praias; talvez nas raízes das árvores, que guardavam os nossos segredos de infância; talvez nas florestas onde colhíamos os frutos selvagens que nunca mais teríamos o prazer de saborear. Tudo tinha que ficar para trás: os fragmentos do nosso primeiro passo, da primeira palavra, da primeira letra, do primeiro amor, do primeiro beijo… enfim, de tantos e tantos primeiros.

Éramos seres nus a quem tinham roubado a alma.

Pairava no ar cheiro de gente, dor, desilusão… Todos refletiam o vazio no olhar… a partida era inevitável, a moeda parecia ter uma só face. Não podíamos escolher, ou será que podíamos?

Sim, éramos jovens e tínhamos mundos à nossa frente. Quais mundos? Mundos desconhecidos que não queríamos conhecer, experiências de vida que não queríamos viver. Nós pertencíamos ali e ali queríamos pertencer.

Mas… todos tinham partido, a família estava dispersa, a vida impossível, o medo instalado, a solidariedade quebrada.

As lágrimas afloraram aos nossos olhos enquanto os nossos corações diziam baixinho: “Adeus, minha terra. Afinal mentiram-me. Tu não eras minha”.

E partimos…

17 Comments

  1. Não sei o que é ter que partir obrigada de um país. Deve ter sido um sofrimento grande mesmo.
    O texto é muito bonito e ao mesmo tempo triste. Vc deveria escrever um livro contando as suas experiências na África. Acho que daria um belo livro não? Pense nisso.
    Bjs.
    De uma amiga daqui do d’além mar da terra brasilis .
    Bertha.

    • Bertha. Obrigada pela sugestão. Realmente há muito que contar, mas não sei se sou capaz. As palavras, os sons, os cheiros e os sabores estão, para sempre, dentro de mim. Fazem parte de um mundo que quero lembrar e esquecer ao mesmo tempo. Todos os dias revivo um episódio… E são tantos. Um beijo deste cantinho do mundo onde vc já tem um pedacinho de terra dentro de mim.

  2. “Adeus, minha terra. Afinal mentiram-me. Tu não eras minha”.
    E partimos…
    Partimos para o desconhecido… um desconhecido que ainda durou alguns anos até nos termos encontrado numa realidade mais calma e tranquila.
    Nesse dia tivemos sentimento idênticos… amiga, mas eu não consigo exprimi-los, tu consegues realmente colocar aqui tudo o que se viveu nesses momentos angustiantes… “grande texto”. Parabéns
    Vininha continuas a escrever muito bem e eu gosto muito de ler os teus textos.
    Beijinhos

  3. Que belo, belo texto. Não vos “conheço” mas depreendo que se trata de abandonar o país, e talvez um continente, África…? Tocante, a dor da partida que não se procurou… Mas queria dizer que home is where you are happy e por isso espero que o possa ser, por cá… E mais rica ainda, porque já foi feliz lá.
    Bj afetuoso 🙂

    • Obrigada pelas palavras carinhosas. Realmente foi abandonar um país, um continente que amava… e o verdadeiro amor é eterno: vivi Angola e só quem a viveu pode saber o que isso significa.
      Temos seguido o seu blog e fizemos várias tentativas para comentar alguns dos seus artigos. Creio que foram infrutíferas… será?
      Gostamos muito da maneira como se exprime e dos variadíssimos temas que aborda. Parabéns e continue sempre, sempre, sempre a escrever. Um beijinho também para si, com toda a nossa admiração.

      • Salvina, obrigada eu. Mas fico surpreendida e até triste com o facto dos vossos comentários nunca terem tido êxito… porque será? Nunca me apareceu nenhum vosso, nem no spam, que vejo, porque às vezes estão lá… Peço desculpa mas realmente ultrapassa-me. 🙁
        Bom domingo *

  4. De início julguei ser uma mais que oportuna referência à situação de tanta gente, actualmente no nosso pais.
    Mas com a leitura dos comentários vim a descobrir factos novos que desconhecia, devido a uma ausência de contactos de tantos anos.
    E realmente, para escrever assim, só o pode fazer quem tenha vivido essa situação.

  5. Truely amazing how we still feel and live the impact on our hearts and souls, as we step thru doors that were shut and climbed thru windows into the unknown journey of life……
    You my sister are the most beautiful talented loving person that I look up to …. A master and role model
    I❤u…… To eternity and beyond

    • Minha mana, Eu não tenho palavras para te responder. Só o meu coração pode conversar com o teu e derramar-se em amor e ternura. Também te amo até à eternidade. O teu nascimento foi o melhor presente que nós recebemos na vida. Com a tua força continuas e continuarás sempre a colorir as nossas existências. Amo-te muito, minha irmã querida.

  6. Como não tendo passado por isso, como eu te entendo! O que sentiste, «o que ainda sentes»
    Quando há uma «revolução» tudo se revoluciona em nosso sentir, em nosso EGO, em nossa alma……

  7. Nossa terra, nossa gente, nossas raízes. Nossa história e nossa vida. Nenhuma tirania política será capaz de extirpar sentimentos tão arraigados, ainda que nos force a partir para horizontes alienígenas. Nesses, mesmo sofrendo, continuaremos a amar, a conservar e a difundir os ideais e princípios que, de tão profundos, são nossa própria essência.

    Adorei o seu texto, Salvina Ribeiro. Expressa o lamento triste das partidas involuntárias. Parabéns uma vez mais. Bjs

    • Você entendeu muito bem este meu texto. Conseguiu ler o que não estava lá. Esta é apenas uma pálida imagem dos sentimentos vividos na altura e revividos agora, acordados por uma fotografia desses tempos idos.
      “O caminho faz-se caminhando”… e eu tenho vindo a fazê-lo. Apesar disso ainda sinto os cheiros, os sabores, os batuques, as noites quentes… não quero apagar memórias… quero conservá-las para sempre. E elas espreitam a minha vida, acompanham-me para onde quer que vá. Eu sou isso!
      Um beijo e muito obrigada por ter entrado na minha vida, pela porta da frente.

  8. Vina, como deve ter doido tanto… Penso, mas de certeza que nem sequer imagino o que todos vós devem ter sofrido. Arrancarem as entranhas do nosso “SER”, as nossas vivencias, recordações, enfim, a nossa vida. Mas o “ser” humano, consegue ter forças que nem percebemos onde vai buscá-las e consegue também criar as suas “defesas” para não sofrer tanto. Mas felizmente conseguiram reestruturar as vossas vidas e foi mais uma página que viraram, como tantas outras que se têm que virar ao longo do nosso caminho. Um beijo e felicito-a por ser uma Mulher de coragem.

    • Eu sinto-me feliz por ter passado por isso, porque até chegar àquele aeroporto, eu vivi numa terra inesquecível. Lá deixei muito de mim e ela deu-me uma infância rica em experiência.

      Antes ter partido do que nunca ter lá chegado.

      Um beijo grande.

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