Noventa anos, quase noventa e um.
À cabeceira da sua cama está o seu “altar” onde exibe a sua fé, as fotografias dos momentos que considera importantes e as imagens da família que vive do outro lado do mundo.

O “altar”
Está num “Centro de Dia”… e um Centro de Dia “não é um lar”, como costuma esclarecer quem lhe pergunta como “gasta” o tempo.
Mandou fazer algumas molduras, que pagou com o seu dinheiro, a um “senhor jeitoso” que trabalha com uma espécie de arame revestido de plástico. Ele faz aquilo para matar o tempo, antes que o tempo o mate a ele. Não quer dinheiro, mas ela faz questão de lho dar.
Marca toda a sua roupa interior e faz questão de lavar as peças íntimas, porque não quer que ninguém entre em contacto com as suas intimidades.
Canta praticamente desde que se levanta até que se deita; cantares de outros tempos ou músicas de igreja que vai aprendendo enquanto assiste à missa, ao domingo, através da televisão.
Agora anda a decorar uns versinhos para cantar no Santo António e “azucrina-me” a cabeça com as constantes repetições, para que lhe confirme se “está tudo bem”.
De vez em quando recolhe-se para o seu quarto e dedica-se à “costura”. Ainda consegue enfiar uma agulha e sempre que o faz mostra-a com orgulho. É exímia a cortar mangas de camisas, de casacos e de tantas outras peças que entende “adaptar”.
Às vezes veste-se bem; outras mistura todas as cores e tamanhos. Digo-lhe que parece uma “sem abrigo”, mas não adianta nada, porque é assim que se quer vestir nesse dia. Desculpa-se com o frio ou com outra coisa qualquer.
Quando alguém entra no seu quarto e se depara com “todos os santos” à cabeceira da cama, pergunta-me: “e tu deixas?”. Respondo: “deixo!”.
Se, na adolescência, exibimos nas paredes dos nossos quartos os carros, as motas e os artistas de que gostamos, porque é que na velhice não podemos deixar que mostrem os amores de toda uma vida?
És um cromo, minha mãe ☺.

20 de Julho de 2013 at 10:51 am
Adorei!!
Lindo!
A mãe e o texto 🙂
Vininha tens de levar a tua mãe a passar um dia connosco, concordo com o Tiago!
Beijo grande
20 de Julho de 2013 at 1:41 pm
Ainda bem que gostaste. Limitei-me a descrever a “grade artista” da minha vida 🙂
Beijinho grande e obrigada
27 de Junho de 2013 at 9:15 pm
Não sei se gostei mais do texto ou da tua mãe 😛 Tens de a levar a passar um dia connosco 🙂
Beijo grande *
25 de Junho de 2013 at 1:26 pm
Vina,
A maneira como descreves a tua mãe é simplesmente fantástica, eu fico sempre muito feliz quando a abraço ela me chama de amor, e me conta as suas histórias, me canta as suas canções e me tenta dizer coisas sobre o seu Deus… para mim que já não tenho a minha querida Mãe….é um privilégio poder desfrutar das coisas de uma velhota linda, engraçada e alegre. Para mim a tua mãe é uma lição de vida fantástica. BRAVO CANDIDINHA.
Parabéns a ti Vina que escreves tão bem.
Beijo
kikas
15 de Junho de 2013 at 2:56 pm
Que maravilha a sua descrição, Vina… como Maravilhosa é sua Querida Mãe. A minha partiu há quase 20 anos e tinha só 85 . Nessa altura da vida já não era o “cromo” que a sua ainda é hoje com 90. Já não tinha a doçura da Candinha, mas mesmo com toda a sua amargura, era para mim um “AGRI E DOCE”. E ainda hoje me faz falta. Vá sempre aproveitando o “momento para poder “curtir” a sua. Pois quando as perdemos, perdemos o Melhor do Mundo.
15 de Junho de 2013 at 2:50 pm
Noventa anos, a «minha Candinha» !..
Digo isto, porque sinto um afecto por ela como filho para mãe.
O altar dela é o seu mundo, tentando na ilusão esquecer o passado e viver o presente. Como marés de um oceano que vão e voltam todos os dias.
Quem me dera ter ainda o meu «CROMO»!… Teria agora 103 anos.
Não sei onde está?
Mas… sei que está comigo! Dentro de mim, porque ainda sinto o cheiro DELA, que me acalma e me faz voltar a ser criança……
14 de Junho de 2013 at 9:12 pm
Que coisinha mais linda… estou a ler o teu artigo e a vera Dª Cândida, tua mãezinha, um amor de mãe… com as suas coisinhas da idade. Deus lhe dê ainda muitos aninhos de vida para poderes partilhar esse convívio que é o melhor da vida (entre mãe e filha). Eu já não posso dizer o mesmo… sinto muito a falta “dela”.
Muito bonito amiga, como sempre escreves muito bem. Beijinhos para ti e para a tua mãezinha.
14 de Junho de 2013 at 7:38 pm
O “cromo” que tens na tua Mãe, é a consubstanciação duma valiosíssima não desistente, que ao seu modo sonha, e ao seu jeito pinta na tela da vida com os pincéis da sensibilidade que é a sua …
Nas variações do seu comportamento, e na variedade das suas opções, há os sinais indeléveis de quem ainda sente os dias, e deles se quer sôfregamente apropriar, ciente ela está que tudo isso é verosímil e legítimo. Somos sempre um entre todos, e todos jamais caberiam num só de nós.
Quando de frente ou de soslaio contemplares o seu “altar”, admite que pelo menos ninguém mais tem (sem ser o teu “cromo”), um “altar” como o dela. E isso, Vina, é também uma exclusividade e uma forma de “rezar” …
14 de Junho de 2013 at 1:38 pm
Também a minha Mãe está entre os 90 e os 91 e por vezes faz-me inveja com a sua vivacidade.
Pregou-nos um susto no Outono passado, mas recuperou de uma forma impressionante e hoje parece rejuvenescida.
Embora ciente que as pessoas não são imortais, longa vida, desde que seja saudável, para as nossas mães.
14 de Junho de 2013 at 11:23 am
Lindo!
São uns cromos que se um dia perdemos a nossa “caderneta” nunca mais vai ser a mesma.
Aproveitemos tudo!
Beijos Vina.