A idade

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Noventa anos, quase noventa e um.

À cabeceira da sua cama está o seu “altar” onde exibe a sua fé, as fotografias dos momentos que considera importantes e as imagens da família que vive do outro lado do mundo.

O “altar”

Está num “Centro de Dia”… e um Centro de Dia “não é um lar”, como costuma esclarecer quem lhe pergunta como “gasta” o tempo.

Mandou fazer algumas molduras, que pagou com o seu dinheiro, a um “senhor jeitoso” que trabalha com uma espécie de arame revestido de plástico. Ele faz aquilo para matar o tempo, antes que o tempo o mate a ele. Não quer dinheiro, mas ela faz questão de lho dar.

Marca toda a sua roupa interior e faz questão de lavar as peças íntimas, porque não quer que ninguém entre em contacto com as suas intimidades.

Canta praticamente desde que se levanta até que se deita; cantares de outros tempos ou músicas de igreja que vai aprendendo enquanto assiste à missa, ao domingo, através da televisão.

Agora anda a decorar uns versinhos para cantar no Santo António e “azucrina-me” a cabeça com as constantes repetições, para que lhe confirme se “está tudo bem”.

De vez em quando recolhe-se para o seu quarto e dedica-se à “costura”. Ainda consegue enfiar uma agulha e sempre que o faz mostra-a com orgulho. É exímia a cortar mangas de camisas, de casacos e de tantas outras peças que entende “adaptar”.

Às vezes veste-se bem; outras mistura todas as cores e tamanhos. Digo-lhe que parece uma “sem abrigo”, mas não adianta nada, porque é assim que se quer vestir nesse dia. Desculpa-se com o frio ou com outra coisa qualquer.

Quando alguém entra no seu quarto e se depara com “todos os santos” à cabeceira da cama, pergunta-me: “e tu deixas?”. Respondo: “deixo!”.

Se, na adolescência, exibimos nas paredes dos nossos quartos os carros, as motas e os artistas de que gostamos, porque é que na velhice não podemos deixar que mostrem os amores de toda uma vida?

És um cromo, minha mãe ☺.

10 Comments

  1. Adorei!!
    Lindo!
    A mãe e o texto 🙂

    Vininha tens de levar a tua mãe a passar um dia connosco, concordo com o Tiago!

    Beijo grande

  2. Não sei se gostei mais do texto ou da tua mãe 😛 Tens de a levar a passar um dia connosco 🙂

    Beijo grande *

  3. Vina,
    A maneira como descreves a tua mãe é simplesmente fantástica, eu fico sempre muito feliz quando a abraço ela me chama de amor, e me conta as suas histórias, me canta as suas canções e me tenta dizer coisas sobre o seu Deus… para mim que já não tenho a minha querida Mãe….é um privilégio poder desfrutar das coisas de uma velhota linda, engraçada e alegre. Para mim a tua mãe é uma lição de vida fantástica. BRAVO CANDIDINHA.
    Parabéns a ti Vina que escreves tão bem.
    Beijo
    kikas

  4. Que maravilha a sua descrição, Vina… como Maravilhosa é sua Querida Mãe. A minha partiu há quase 20 anos e tinha só 85 . Nessa altura da vida já não era o “cromo” que a sua ainda é hoje com 90. Já não tinha a doçura da Candinha, mas mesmo com toda a sua amargura, era para mim um “AGRI E DOCE”. E ainda hoje me faz falta. Vá sempre aproveitando o “momento para poder “curtir” a sua. Pois quando as perdemos, perdemos o Melhor do Mundo.

  5. Noventa anos, a «minha Candinha» !..
    Digo isto, porque sinto um afecto por ela como filho para mãe.
    O altar dela é o seu mundo, tentando na ilusão esquecer o passado e viver o presente. Como marés de um oceano que vão e voltam todos os dias.
    Quem me dera ter ainda o meu «CROMO»!… Teria agora 103 anos.
    Não sei onde está?
    Mas… sei que está comigo! Dentro de mim, porque ainda sinto o cheiro DELA, que me acalma e me faz voltar a ser criança……

  6. Que coisinha mais linda… estou a ler o teu artigo e a vera Dª Cândida, tua mãezinha, um amor de mãe… com as suas coisinhas da idade. Deus lhe dê ainda muitos aninhos de vida para poderes partilhar esse convívio que é o melhor da vida (entre mãe e filha). Eu já não posso dizer o mesmo… sinto muito a falta “dela”.
    Muito bonito amiga, como sempre escreves muito bem. Beijinhos para ti e para a tua mãezinha.

  7. O “cromo” que tens na tua Mãe, é a consubstanciação duma valiosíssima não desistente, que ao seu modo sonha, e ao seu jeito pinta na tela da vida com os pincéis da sensibilidade que é a sua …
    Nas variações do seu comportamento, e na variedade das suas opções, há os sinais indeléveis de quem ainda sente os dias, e deles se quer sôfregamente apropriar, ciente ela está que tudo isso é verosímil e legítimo. Somos sempre um entre todos, e todos jamais caberiam num só de nós.
    Quando de frente ou de soslaio contemplares o seu “altar”, admite que pelo menos ninguém mais tem (sem ser o teu “cromo”), um “altar” como o dela. E isso, Vina, é também uma exclusividade e uma forma de “rezar” …

  8. Também a minha Mãe está entre os 90 e os 91 e por vezes faz-me inveja com a sua vivacidade.
    Pregou-nos um susto no Outono passado, mas recuperou de uma forma impressionante e hoje parece rejuvenescida.
    Embora ciente que as pessoas não são imortais, longa vida, desde que seja saudável, para as nossas mães.

  9. Lindo!
    São uns cromos que se um dia perdemos a nossa “caderneta” nunca mais vai ser a mesma.
    Aproveitemos tudo!

    Beijos Vina.

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