Seu Abel

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Seu Abel tinha oitenta anos quando cruzou o Atlântico para o lado de cá.

Nasceu numa pequena aldeia portuguesa, mas cedo partiu para o  Brasil em busca de melhor vida e nunca mais voltou. Ao saber que um amigo vinha passar férias a Portugal, decidiu fazer-lhe companhia e veio!

Porque o seu amigo era meu familiar, hospedei-os na minha casa. Como não tinha muito espaço, tiveram de compartilhar o mesmo quarto.

Na primeira noite que cá passaram, ouvi comboios, trotinetes, assobios e outros sons a que não consigo dar nome. Como está bom de perceber, aqueles barulhos não me deixaram dormir. Perguntava-me qual deles era o dono daquele “ronco” e escolhi o Seu Abel, por ser o mais velho. Enganei-me redondamente: o Seu Abel na manhã seguinte fez questão de clarificar a situação.

– Pô! Esse cara não me deixou dormir, caramba! Vai “roncar” desse jeito para a pqp! (tudo explicadinho em bom português).

O Seu Abel era muito bem disposto. Quando lhe dizíamos algum termo que lhe parecia estranho, rapidamente ripostava: “tu es-tás a brin-car co-mi-go”, daquela maneira lenta que não pode ser escrita, só dita.

Fomos mostrar-lhe as maravilhas do País. Ao avistarmos a placa de “Penacova”, o meu familiar mostrou interesse em ir visitar um amigo que lá morava. Seu Abel apressou-se a dizer:

– Pé na cova? Ali eu não vou, não! Cruz credo! Deus qui mi livre… Não vou não!

E não fomos!

Visitámos algumas aldeias históricas e, como não podia deixar de ser, fomos a Monsanto, a chamada “aldeia mais portuguesa de Portugal”. Surpreendi-me com a ligeireza com que subiu ao Castelo e quem conhece aquelas paragens sabe que não é fácil lá chegar, mais a mais com temperaturas muito acima dos trinta graus centígrados. Eu não subi, porque estava toda “esbodegada” e fiquei-me pelas ruínas da Igreja, tentando proteger-me debaixo duma pequena sombra das suas paredes.

Andava ligeiro o Seu Abel. Parece que a idade não lhe pesava!

Nas várias paragens que fizemos ao longo da viagem – e ainda por causa do “ronco” – umas vezes comprávamos adesivos para o nariz de um, outras vezes comprávamos tampões para os ouvidos do outro, mas nada funcionava.

– Fazer o quê? – dizia encolhendo os ombros – Até que já estou me acostumando…

Uma tarde, acabados de chegar ao Gerês e já cansados, retirámo-nos para “dormir a sesta”. Repentinamente bateram levemente à porta do nosso quarto. Quando abri, o Seu Abel estava na minha frente dizendo: “Pega ele no flagra! Filma ele! Tá roncando que nem um porco. Vai! Pega ele no ronco”.

Preparei a máquina de filmar e com “pézinhos de lã” dirigi-me ao quarto onde o amigo ressonava tão alto que quase se ouvia em todo o Hotel. A televisão estava ligada, a minha máquina também. Só que, quando entrei no quarto para a filmagem, o som que a “vítima” emitiu para a filmagem foi: “Tou vendo Martinho da Vila na televisão”.

– Cê tá vendo nada, pô! Cê tava roncando que nem um porco, caramba! – respondeu o Seu Abel

Hoje lembrei-me dele! Saudade de Seu Abel 🙂

 

 

5 Comments

  1. Que história maravilhosa, sendo verídica, ainda é mais doce. Como é bom lembrarmos aqueles que entraram na nossa vida pela porta da frente. Como é bom serem lembrados com saudade e ainda por cima por motivos tão genuínos e que nos fizeram viver momentos tão Felizes… Não conheci o teu Seu Abel, mas de certeza que era aquilo a que chamamos “Um velhote Castiço” Mas tive a sorte de ter conhecido “OUTROS” que me deixaram muita saudade. Obrigada Vina. Adoro as tuas Histórias. Vai-nos dando esse gosto de podermos conhece-las. Um beijinho para ti.

  2. Penso que seja uma história verídica.
    E pelo final, penso também que o “senhor Abel” já não estará entre nós.

  3. Essa viagem vai ficar na minha memória para sempre por diversas razões .. Seu Abel é uma delas!! Nunca hei-de esquecer “vocês querem mi levá em Pé na Cova? Vixe Maria!! Não vou, não!” Ehehe, e não foi mesmo! Como um sotaque diferente pode mudar as palavras a que estamos tão habituados e nos são tão familiares! Saudade de Seu Abel mesmo!

    • Obrigada amiga pelo teu contributo. Sabes bem do que falo, porque estavas lá. O que nós nos divertimos, quantas gargalhadas demos, como desistimos (pelo cansaço) a algumas subidas a castelos, etc., etc. Nunca esquecerei 🙂

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