Ei-los que partem

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Estava sentada numa esplanada à espera do expresso, próxima de alguns homens que, também ali sentados, conversavam entre si. O tema de conversa surgiu ligado à situação do país, da desgraça económica e social em que nos encontramos.

– No tempo do Salazar é que era bom; éramos pobres mas não tínhamos estes problemas – dizia um.
– Ai era bom no tempo do Salazar? Era tão bom que tiveste que fugir para França! – dizia outro.
– Aqui não conseguia ganhar um conto de reis e lá consegui mandar 400 para cá!
– É o que tentam fazer aqueles coitados que se têm afogado nas viagens dos barcos a tentar fugir do seu país para conseguir melhor sorte.
– Pois, mas eu tive sorte com o meu passador. Ele disse que tratava de tudo e que nós só iríamos pagar no fim. E assim foi. Levou-nos de carro até à fronteira com Espanha, aí separámo-nos: os homens foram por um lado e as mulheres iam com ele, porque conhecia os caminhos. Lá mais à frente, quando ele assobiasse, era para nos juntarmos outra vez. Depois meteu-nos num comboio que nos levou até à fronteira com França. Disse que depois alguém nos iria buscar. E assim foi! Só que o homem que nos apareceu falava francês e nós não percebíamos nada. Um, que ia connosco, é que se lembrou que ele devia querer os nossos BI’s para saber se éramos nós. E era mesmo. Lá continuámos até que nos meteram outra vez num comboio que ia até Paris e depois desse, um outro que nos levou até onde ficámos.
– E tudo isso sem terem pago nada?
– Sim! O combinado era pagar só quando chegássemos. E assim foi. Ele era um bom passador, tratou de tudo e não nos enganou.
– Mas já ias com contrato de trabalho ou não?
– Sim, já estava tudo preparado. Fiquei a trabalhar nas obras durante seis meses e depois, como tinha carta de condução, mudei para outro trabalho melhor.

Pois é, já não há “passadores” como antigamente. Veja-se o caso dos emigrantes, na sua maioria de países africanos, que tentam escapar à fome e à guerra, metendo-se em pequenas barcaças, a preços exorbitantes e que, só com muita sorte, chegam ao seu destino. Choco-me com os milhares de mortos que ficam pelo caminho.

Também penso nos portugueses que, por falta de emprego ou salários justos que possam fazer face às suas despesas, são igualmente forçados a emigrar, nem sempre nas melhores condições.

Um país que gasta milhares de euros a formar os seus jovens, tinha a obrigação de tentar arranjar soluções, que rentabilizassem o dinheiro gasto nas suas formações.

E lembro-me da canção “Ei-los que partem”, de Manuel Freire:

emigrar_1Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutras paragens
noutras aragens
entre outros povos
ei-los que partem
velhos e novos

Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados

Virão um dia
ricos ou não
contando histórias
de lá de longe
onde o suor
se fez em pão
virão um dia
ou não

6 Comments

  1. Lindas palavras, recordações, vidas vividas e quantas muitas mais irão viver nesta incerteza de vida a qual o Português está “metido”. Comparativamente a outras situações, pela mesma razão, outros povos procedem da mesma forma, arriscando vidas para ganhar o pão de cada dia. Infelizmente vivemos também num país que nos rejeita, que desperdiça recursos investidos por todos nós em detrimento de outros interesses, “os nosso credores”! Não falando do factor humano, esse é irreversível! Agradeço Keta as tuas palavras que nos fazem pensar e recordar por quanto o «povo» tem passado ao logo da História. Beijinhos.

    • Fernandes, dizes que “vivemos num País que nos rejeita”. Eu digo mais, elegemos uma equipa para nos governar e eles mandam-nos embora porque não nos conseguem governar. Comparando o governo a Noé, estamos a ver o governo a mandar o pessoal borda fora, que se desenrrasquem na água pois no barco não há lugar para todos.
      Beijinhos.

  2. Olá Ketita este teu tema é uma realidade dos nossos dias, mas tb dos tempos já passados quando o teu anfitrião explicava como tinha chegado a França. Infelizmente estas situações são cíclicas e neste momento estamos a viver uma com a emigração dos nossos jovens… mas como também comentas o pior é mesmo os “emigrantes, na sua maioria de países africanos, que tentam escapar à fome e à guerra, metendo-se em pequenas barcaças, a preços exorbitantes e que, só com muita sorte, chegam ao seu destino. Choco-me com os milhares de mortos que ficam pelo caminho”… e esta amiga é uma das realidades mais cruéis do nosso tempo.
    Gostei muito de ler este te artigo. Beijinhos amiga

    • Segundo notícias recentes, o número de emigrantes portugueses destes últimos anos já atinge níveis idênticos aos da década de 60, altura da ida deste senhor retratado no artigo e de tantos outros que assim fugiam à miséria e à guerra.
      Infelizmente estamos a dividir famílias, a abandonar o País e os amigos, porque quem nos representa (e que tem a obrigação de decidir pelo melhor do País e dos portugueses), está mais preocupado com o capitalismo que com a vida dos portugueses.
      Beijinhos Aldina.

  3. Bonito texto, Mas uma triste realidade.. Os Jovens porque investiram nos seus ideais e têm que partir á procura sabe-se lá de quê??? Os mais velhos, porque já tinham direito a ter sossego, uma velhice tranquila, com o mínimo de conforto e ainda têm que sair do seu cantinho e voltar a trabalhar…. É de lamentar. Obrigada Keta. Parabéns pelas abordagens que faz. Um Beijinho

    • Olá Gracinha,
      Obrigada, desde já, por mais um comentário. Estes temas que escolho tentam espelhar alguma da realidade dos nossos dias. Pena é que a realidade seja tendencialmente mais preocupante do que aquilo que esperamos.
      Beijinhos.

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