Amigos de infância

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Durante mais de quarenta anos não tive amigos de infância.

Quem me ouvir dizer isto, assim, a frio, poderá pensar que, em criança, não brinquei com outras crianças, não cultivei amizades, não me liguei a ninguém.

Na verdade, todos os meus amigos se foram, todos se dispersaram numa debandada total Partiram, não porque tenhamos deixado de nos amar, mas porque a guerra é cruel, não tem sentimentos, não respeita pessoas, não tem piedade, não é feita de amor… a guerra mata!

Quebraram-se ligações com a cidade, com os lugares, com a família, com os amigos e conhecidos, com a rotina; interrompeu-se tudo e até a vida se sentiu interrompida!

Ficámos sem nada, mas o pior é que nos despimos de nós; tivemos que reconstruir-nos, seguir para paragens desconhecidas; uns adaptaram-se, outros não; sobreviveram alguns, morreram e mataram-se outros.

Em certas alturas resistimos como autómatos: comer porque sim, beber porque era necessário, dormir para não enlouquecer, viver para não morrer.

Muitos de nós se sentiram sós, se sentiram perdidos, se deprimiram; outros dividiram-se em vidas paralelas: a perdida e a encontrada, porque a perdida não era esquecida e a encontrada não era vivida.

Agora, ao fim de quarenta anos (ou mais) recuperei alguns amigos de infância e perdi, pela segunda vez – e definitivamente – outros, cuja partida desconhecia; refaço mentalmente os caminho que percorremos juntos e faço agora o luto que deveria ter feito antes.

As pessoas podem fazer-nos falta, ou não; podemos lembrar-nos delas, ou não, mas quando a nossa memória é estimulada, são acordadas recordações guardadas algures num filme antigo, gasto pelo tempo, mas completamente recuperado pela força das lembranças que nem sabíamos ter.

Hoje quero sentir-me feliz porque, na escuridão, ainda brilham algumas luzes!

16 Comments

  1. Vina,
    Comentarios para quê, perfeito, sentido, belo, magnifico!!! me faz bem ler o que escreves.
    Beijo
    kikas

  2. Que bonito Vina, e que bom ter a felicidade de voltar a contatar com Amigos de Infância , dos quais nunca mais tinha tido notícias. Fico muito feliz por todos vós. Não se percam mais….

  3. Salvina, acho que nao nos conhecemos mas tambem sovu de Malanje. Tive. Sorte de sair de Angola , com os meus pais e irmao, 4 ou 5 anos antes da independencia pois por sorte ou nao… O meu pai teve a visao que as coisas iam piorar e resolveu sair de la , para os EUA . Foi uma altura muito dificil para mim… Aos 17 anos de idade senti me roubada de tudo que tinha…principalmente os meus amigos. Pois nesse seu texto de amigos de infancia… E com todo seu respeito faco das suas palavras minhas! Foi com imensa emocao e alegria quando encontrei a pagina do Malanjinos no FB. E adoro ler os seus textos.

    • Olá Ana,
      Obrigada pelo comentário. Ainda bem que conseguiu sair de Angola bem antes da tragédia que nos assolou a todos. Esse facto evitou-lhe, com certeza, algum sofrimento. Também sou capaz de entender que aos 17 anos, quando os sonhos são todos nossos, perder de vista os nossos amigos, não deve ser fácil. Apesar disso, tem-se uma vida pela frente e com o apoio dos pais, sobrevive-se. Efectivamente as novas tecnologias e, em especial, o Facebook, proporcionaram-nos este reencontro com as nossas raizes…
      Eu tenho vindo a despertar memórias e a partilhá-las com aqueles que, tal como eu, as viveram.
      Beijinho grande

  4. Obrigada Salvina … parece que todas as mãos se juntaram e escreveram estas palavras … Malanje está onde cada um de nós está, pois está sempre no nosso <3 . Grande beijinho.

  5. Magnífico! Na nossa memória, a história de nós mesmos, a constante presença daqueles com quem convivemos, sua significância, ainda que as lembranças sejam resgatadas aos poucos! Lindo, lindo!

  6. Amigos de infância… tento recordar mas tb não me lembro de nenhum, é triste… é, mas devido a tudo o que se viveu o meu cérebro não o faz recordar. Tenho apenas alguns deslumbres de momentos que vivi mas não consigo ver o momento… foram momentos muito maus que se viveram e por isso aminha infância está “muito apagada”.
    Mas agradeço a Deus ter-te conhecido na minha já “maior idade” e ser hoje ainda tua amiga.
    Um grande beijo amiga.

  7. Salvina, parece tua mão segurou a minha e ambas escreveram o k eu sinto ( tens razão, há mais de 40 anos ) Sinto-me perdida no tempo e perdida no espaço. Tu ainda te mantiveste praticamente em Malanje mas eu não. Devido a várias circunstâncias ( o meu pai trabalhar nos correios e ser transferido para onde o mandavam e mais tarde a minha profissão e agora a idade), fizeram com que eu me sinta “desenquadrada”. Por um lado foi bom, conheci muito desta Angola que amo mas… às vezes pergunto-me: quem foram as pessoas que passaram pela minha vida? E agora… nem a memória me ajuda. Por isso fiquei muito feliz com o último encontro dos malanginos. Encontrei alguns, soube que outros já tinham partido e principalmente soube de algumas colegas que comigo fizemos a derradeira viajem antes de, forçadamente, sermos obrigadas a sair de Malange—–as minhas colegas do Magistério Primário. Obrigada Salvina

    • Olá Arllete, fiquei muito sensibilizada com as tuas palavras. Quem foram as pessoas que passaram pela tua vida? Só foram aquelas que te deixaram rasto! Infelizmente sentimo-nos quase todos desenquadrados: nunca escrevi sobre estas coisas, porque me doía demais. Hoje posso recordá-las com um sorriso nos lábios e por isso falo delas. O tempo vai suavizando as nossas feridas, mas as mais profundas viverão sempre connosco.
      Fecharam-se caminhos, mas abriram-se outros e é preciso continuarmos a percorrè-los. Ainda temos momentos. Vamos aproveitá-los. Um beijo grande e obrigada pelo teu testemunho.

  8. Eu tive a sorte de não perder de vista alguns, outros nunca mais os vi. Esse luto constante é pesado, sim, e às vezes até tenho medo de perguntar a algum amigo re-encontrado: – E este? E aquela?
    Naquela época, sem internet nem telemóveis, o Rossio é que servia de ponto de encontro.
    Sabes, quando estive no Brasil, uma amiga disse-me no Itamarati que tu também estavas no Brasil, mas claro que era impossível encontrar-te. E foi assim com tantos e tantos amigos.
    Mais um retalhinho… Beijos

    • Belinha, eu infelizmente perdi-me da família. Estive dois anos no Brasil, mais propriamente em São Paulo, mas não consegui aguentar-me. Nada tinha a beleza de Angola, nada me cheirava a África, nada me enchia a alma. Lá também tive perdas e estava só, sem esperança. Resolvi regressar num tempo em que já não havia apoio, mas sobrevivi. Derrubei barreiras, fragilizei-me tanto que me fiz forte. Agora, com a Internet, vamos sabendo uns dos outros e avivando as nossas memórias. Foi (é) muito bom encontrar-te. Um beijo também para ti.

      • Cada um com o seu percurso complicado, e o pior é que a história que vivemos se está a repetir pelo mundo inteiro, e todos os dias.
        Um dia vamos sentar lado a lado numa esteira qualquer e vamos contar-nos… 🙂 Beijinhos

        • Como diz a Aldina…. (…. tento recordar apenas alguns deslumbres de momentos que vivi…).
          Tenta também apagar essas mágoas que te corroem por dentro. Sente apenas os momentos BONS!…
          Eu… também as tenho, mesmo que as consiga apagar. Mas… fica sempre uma coisa à qual não sei dar um nome.

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