As nossas “tralhas”

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SAMSUNG CAMERA PICTURESComo muitas outras pessoas, coloquei as  “tralhas” no sótão; não eram as que mais significado tinham, essas ficam mais próximas, ficam à vista, à mão ou debaixo de olho. Ainda assim, eram coisas que eu queria manter, eram recordações das várias vivências do meu tempo de escola.

Não sei se por alguma telha mal encaixada, se por chuva a mais e com muito vento, o que é certo é que a água conseguiu entrar no sótão e molhou algumas das minhas coisas.

A caixa de papelão já não se aguentou, quando peguei nela, como estava molhada, rasgou-se logo. Peguei então nas sacas que estavam no seu interior cheias de papéis. Eram os meus trabalhos, apontamentos e exames do tempo de liceu. Chamávamos liceu, mas o nome era Escola Secundária de Mira e foi lá que entrei para fazer o 7.º ano e só saí quando terminei o 12.º.

Comecei a observar com atenção os estragos que a chuva tinha causado nos meus papéis e logo percebi que já pouco podia ser salvo. Os papéis absorveram a água e colaram-se uns aos outros com as tintas a trespassarem as folhas.

Como nesse dia o São Pedro deu uma trégua, peguei nas coisas e fui acender uma fogueira no grande fogareiro lá de casa. À medida que ía queimando os papéis, que tinha que ser feito lentamente porque estavam molhados, fui lendo alguns textos e recordando os momentos em que foram escritos. Dei por mim a recordar-me de professores que já não me lembrava, de momentos em que fiz este ou aquele trabalho, esta ou aquela prova de avaliação, e a impressionar-me ao ler algumas matérias que tive que saber na altura e que agora são “chinês” para mim. E, claro, alegrar-me com alguns trabalhos que gostei de fazer e que, com muita pena, agora não podia mais guardar. E assim me fui despedindo, num misto de emoções, de recordações que já estavam bem longe e que voltaram à lembrança por uns momentos, para seguir novamente para o “fundo” da memória, agora sem estes auxiliares que as possam trazer de volta.

É uma sensação estranha esta de sentir que nos tiraram/destruíram algo que fazia parte de nós, que era parte da nossa vida. E eu apenas perdi algumas lembranças de 6 anos de vida, curiosamente o período da adolescência, inicio da juventude.

Não imagino o que será ter perdido praticamente tudo, como aconteceu às pessoas cujas casas foram destruídas por incêndios, por inundações, por derrocadas ou por vendavais.

 

 

 

2 Comments

  1. Emocionante sem duvida… Eu sinto o mesmo porque pouco a pouco também a minha história foi desaparecendo sem me aperceber, e agora…. bem agora tento recordar mas já não é a mesma coisa. Lembro-me de um dossier de testes, uma capa de trabalhos de desenho… desenhos a guache…. até uma carroça em madeira feita em Trabalhos Manuais… Bem ficam as recordações e pouco mais. Ajudaste-me a recordar novamente. Gostei muito Keta. Beijinho.

    • Obrigada pela tua mensagem. É bom saber que te ajudei a lembrar um pouco da tua história.
      Na vida encontramos algumas pessoas que guardam tudo quanto podem. Para elas tudo é importante manter. Mas também encontramos outras que são selectivas e guardam materialmente apenas o que consideram muito importante. O restante fica nas lembranças, na memória.
      É que um dia quando partirmos, essas nossas lembranças materiais não passam de “tralhas” ou lixo para os que ficam, já que para eles não têm o mesmo significado que têm/tinham para nós.
      Beijinhos.

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