Praia de Mira

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PMira

Num destes dias estava a descer umas escadinhas de um dos bairros típicos de Lisboa – Alfama – quando me cheirou a sardinha assada. Estamos em março e eu já sinto o cheiro da sardinha assada! Apreciadora, como sou, da sardinha, as minhas papilas gustativas começaram a salivar e o pensamento levou-me de volta à minha infância, quando aos domingos (no verão) ia com a família para a praia de Mira almoçar com o meu avô.

O meu avô passava temporadas na praia com os bois, para puxar as redes de peixe. A arte xávega, que hoje substituiu os bois por tratores e os remos por motores, era um espetáculo bonito de se ver. Todo aquele esforço de braços e de bois, primeiro para lançar o barco ao mar e depois para o trazer para terra juntamente com as redes, exigia muita coordenação e muita força física. Depois, quando chegava a rede com o peixe, era vê-lo a saltar, as pessoas a aproximarem-se para observar e ver se levavam algum para casa.

Os “homens da companha” (o grupo de pescadores e afins) faziam um círculo em volta da rede e começavam a escolher o peixe: cavalas para um cesto, sardinhas para outro, carapaus para outro, petingas para outro ainda, etc., etc., etc.

Viam-se também as gaivotas a circundar, à espera da sua refeição, pois havia sempre algum peixe que não era aproveitado ou porque tinha ficado moído, tinha sido pisado, era pequeno demais ou por qualquer outro motivo. O que é facto é que os pescadores o lançavam ao mar e as gaivotas, em voo picado e rápido, apressavam-se a apanhá-lo.

Enquanto se fazia a seleção do peixe, já havia gente a rematá-lo e, logo ali, fazia-se o leilão; o pescador dava o preço, se houvesse interessados, levavam-no; caso contrário alguém oferecia um pouco menos, prontificando-se a ficar com ele; se o pescador aceitasse, o peixe era dele.

Os dias de domingo eram assim: tomar banhos no mar, correr pela praia, subir as dunas (eram bem altas na altura) e descê-las a rebolar, comer peixe fresquinho, acabado de pescar e dormir a sesta no palheiro do meu avô.

Que saudades desse tempo.

4 Comments

  1. É tão bom recordarmos a nossa doce e feliz INFÃNCIA…….

  2. Que bom escrever assim! Escrever sentindo as palavras de tempos passados como se “tivessem” acontecido há dias… Os tempos de criança, a família mais completa, a pequenez num ambiente em que tudo parecia maior… Na minha terra o mar não existe… apenas as montanhas onde por aqueles vales os ribeiros são acolhidos pelo “Côa” e onde nesse mesmo rio eu pescava trutas… era um feito quando levava uma truta para casa! o mar… esse ficava distante, mas foi precisamente na praia de Mira que pela primeira vez molhei os pés na água salgada… Também estou a recordar e ao mesmo tempo, Keta, me fazes caminhar no sonho que é a vida. Obrigada, beijo.

    • Que engraçado ter sido nesta praia que molhaste os pés na água do mar pela primeira vez. 🙂
      As tuas pescarias de trutas também devem ser belas recordações de infância. É sempre bom lembrar de situações em que fomos felizes.
      Beijinhos e obrigada pelo comentário.

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