O cão-guia

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Um destes dias, estava no café, quando entrou uma senhora invisual, que mora num prédio ali perto, acompanhada do seu cão-guia. Dirigia-se para a mesa onde eu estava sentada, pois não me via. O senhor que estava na mesa em frente à minha, de óculos escuros, mas que via, disse-lhe: “Estou aqui, na mesa mais à frente”. Entretanto, já o cão estava a cheirar-me a perna, talvez a tentar perceber o que é que eu estava a fazer no lugar deles. A dona, de imediato, puxou-o e dirigiram-se à outra mesa.

Sentaram-se: a senhora na cadeira e o cão no chão, aos seus pés. Nessa altura e enquanto acariciava o cão, ouvi-a dizer: “que cheirinho! Tu não sabes o que é isto, mas é tão bom”. Não sei o que o cão entendeu, mas eu, confesso, não percebi se ela se estava a referir ao café ou às torradas que estavam em cima da mesa, até mesmo porque ela acabou por comer as duas coisas. Percebi o quanto ela gosta do cão e é com muito carinho que lhe faz festas, que lhe fala, que o trata.

É uma pessoa com quem já me cruzei várias vezes, quer na rua, quer no comboio. E que pena  tive no dia em que o comboio estava cheio de gente e ela não teve lugar sentada. No meio de tantas pessoas em pé, quem circulava no comboio não via o cão. Provavelmente – e como estávamos todos como sardinhas em lata – não se deram conta da presença do cão e pisaram-no várias vezes. Até a mim me doeu. O cão encolhia-se e gania, quando o sofrimento era maior.

Claro que a senhora, como não via, não o podia defender das pisadelas, mas não nos passa pela ideia que o cão tenha ficado irritado por não ter sido protegido pela sua companheira de todos os dias.

Entre eles há uma relação de amor, de dádiva, de cumplicidade, de proteção, que nos custa a encontrar entre os seres humanos. Porquê?

Porque é que nos damos tão bem com os animais? Porque eles não reclamam? Não se chateiam? Porque são fieis? Porque são dedicados? Porque não são rancorosos? Ou simplesmente porque nos defendem, às vezes até às últimas consequências?

Quanto a mim, um animal é sempre uma boa companhia, que deve ser amada e respeitada por todos nós.

2 Comments

  1. Ao ler a tua mensagem, que gostei muito claro, o meu pensamento focou-se a imaginar como seriam tão diferentes as relações entre os Homens, se fossem tão companheiros como os invisuais e os seus cães guia. Com certeza que não haveriam grandes discussões, nem mal entendidos, nem violência, nem divórcios, nem mortes como têm surgido nas noticias. Era tudo tão diferente… Tão melhor.
    Obrigada. Fizeste-me sonhar com um mundo bem melhor.

  2. Observação, sensibilidade e capacidade em colocar em cima da mesa questões das quais o senso comum não está preparado culturalmente para se debruçar. Tudo o que passa aos nossos pés torna-se indiferente aos olhos de muitas pessoas. É necessário estar atento aos mais necessitados, aos mais fracos… Neste teu caso, realças de uma forma muito marcante a relação do cão e o seu companheiro de todos os dias, eles formam uma dupla inseparável… Era assim que gostaria de ver a relação com todos os Homens, também ao nivel da compreensão no nosso dia a dia, para uma sociedade mais fraterna e participante. É bom pensar nas tuas palavras… Obrigada Keta. Um beijo.

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