O indigente

| 8 Comments

Quem é o indigente? Que termo é este? Não teve vida? Não teve amigos? Ninguém o amou?

Sim, eu conheci o indigente. Era um homem com profissão. Profissão que dava dinheiro e amigos. Tinha estatuto e boa vida. A sua casa estava sempre cheia de festa, de almoços fartos, de jantares prolongados.

Veio de outro país. Da família só lhe restava um irmão quase indiferente, ou indiferente mesmo.

Tinha um ar sereno e porte digno. Vestia com elegância. Inteligente, leitor de muitas leituras; os seus livros eram matéria prima para alimentar conhecimento em várias áreas do saber.

Estava sempre rodeado de gente, em casa, no trabalho, na vida.

Tropeçou na caminhada e tudo mudou. Com a idade veio-lhe a solidão. Já não tinha tecto e os amigos foram-se. Só um prevaleceu. Apenas um entre tantos.

A sua parca reforma não lhe permitiu sobreviver e o seu destino foi um Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia. Só um, apenas um amigo o visitou. Foi perdendo a mobilidade e a memória…

Um telefonema deu conta da sua morte. E o corpo? Morreu no Hospital. E o corpo? Ninguém o reclamou… Só um amigo quis saber… mas amigo não é família. Ninguém o informou.

Indigente! Sem direito a campa… sem direito a nada.

Que é feito do homem? Cadáver? Objecto de estudo? Destino de pobre? Vala comum? Que importa? Nem a terra era a sua.

Quando morre um indigente, morre a sua história? Quando o fim chega, torna-se apenas um indigente… um ser nu, despido de tudo, um incógnito, um indiferente.

Dá que pensar!

8 Comments

  1. Parabéns Vina, pela forma maravilhosa com que consegues abordar os factos, sem tocar a Ferida. Quem conheceu, saba bem de quem falas. Foi um Amigo que sempre admirei, pela seu porte de Cavalheiro, pela sua bondade e pelo respeito e Amor que sempre teve pela minha pessoa, pelo meu Marido e sobre tudo por sempre ter adorado os meus Filhos. Há cerca de 3 ou 4 anos tive uma conversa com Ele e com outros Amigos, muito especial. Mas tu sabes, Vina que para mim o meu Irmão e os meus Filhos estão à frente de tudo. Tive que tomar uma atitude que bastante me custou. Mas ficámos Amigos na mesma. Ele entendeu e sempre que eu me deslocava aí , era +ponto de honra, ir visita-lo ao LAR, onde se encontrava. Lamento e choro o seu triste fim. Mas o ser Humano é muitas vezes cruel e desumano. Se Ele tivesse um Irmão como eu tenho!?. O seu fim de certo teria sido outro…

    • Tenho a certeza disso que dizes, Gracinha. Efectivamente se ele tivesse uma irmã como tu o seu fim não seria este. O que me preocupa muito é que, às vezes, as pessoas apostam no “cavalo errado”, ou seja, as pessoas iludem-se com os que os rodeiam. Os verdadeiros amigos não são aqueles que vêm a nossa casa para conviver e beber uns copos, mas sim aqueles que estão presentes nas nossas dificuldades. Eu quero acreditar que ainda há gente boa, que se rege por valores humanitários e que não olha para o dinheiro que tens na carteira. Enfim… precisamos de construir uma sociedade melhor, porque esta indiferença que se está a instalar nas nossas vidas só pode dar maus resultados. Um beijo grande.

  2. Muito oportuno, na altura certa em falar desta “criatura”. Muito bem delineado na descrição e no enredo em que tu jogas as palavras… dá que pensar em muita coisa nos dias de hoje e na sociedade atual. “Indigente”, lembra-me a classe politica… “coitados” sem recursos suficientes, e suscetíveis de receber auxílios e até reduções fiscais… até são “eles” que fazem as leis à sua medida. E os outros? os verdadeiros indigentes? Aqueles, os solitários e os desprotegidos? Será que alguém se lembra? Gostei muito Vina. Beijinhos.

    • Penso que estas situações acontecem porque os seres humanos são egoístas e não se preocupam com os outros. Se fossemos todos um pouco mais solidários, isto não acontecia. É assim que se fabricam “indigentes”… abandonando-os nas horas difíceis. Que mundo 🙁
      Beijinho e obrigada por comentares.

  3. Foi para ti, o único amigo, que o acompanhou, que escrevi este texto. E para que todos aqueles que têm “amigos de copos” se lembrem que esses amigos não valem nada. Um beijo, meu querido.

  4. Sim Vina, eu entendi! Comoveste-me às lágrimas!….
    (obrigado pelo indigente)

Deixe uma resposta

Required fields are marked *.