Vou trocar de almofada

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AlmofadaEla tem a forma da minha cabeça… todos os dias me recebe como se lhe pertencesse, como se tivesse sono para me dar. Já houve tempos em que não viajava sem a minha almofada. Tinha que ser aquela, porque conhecia os meus pensamentos nocturnos, os meus segredos mais íntimos, os meus desabafos, os meus sonhos e pesadelos. Eu e almofada éramos inseparáveis: onde eu ia, ela ia também. Não queria uma estranha a dormir na minha cama e era a ela que confiava a missão de um sono tranquilo. Só não a levava em viagens de avião, porque, enfim, ela exigia um espaço na mala que eu não podia ceder-lhe. Mas longe, onde eu estivesse, tinha sempre saudades da almofada.

Agora deve estar velha. Continua fofinha, mas deve ter perdido alguns neurónios. Repete-se muito, enche-me a cabeça com textos que nunca serão escritos, porque só nela tenho inspiração para os escrever. Quando acordo de manhã, tenho a cabeça vazia, mas quando me deito à noite vou com ela cheia; acho que “despejo” tudo na almofada.

Abraço-a muitas vezes; não sei se é para a aconchegar a ela ou se é para ela me aconchegar a mim; viro-a porque tenho calor e do outro lado deve estar mais fresco; volto a virá-la porque deste lado também já aqueceu. Dou voltas e voltas à almofada. Se não durmo, dou-lhe uns “tabefes” para a ajeitar melhor, para que me cante silenciosamente uma canção de ninar.

Há dias em que me arrasto até à cama convencida de que logo que a minha cabeça repouse na almofada, o sono virá tão depressa que nem terei tempo de “gozar” os seus prazeres. Ilusão minha. Deixa-me em paz cinco ou seis minutos, depois acorda-me com conversas que não quero ter, como se eu tivesse todo o tempo do mundo para ela. Convencida! Não tenho tempo para ela, não! O que eu quero mesmo é dormir!

Raios partam a almofada…  tão conversadora que é!

4 Comments

  1. Salvina, não nos conhecemos, mas só pelo facto de ser amiga de amigos meus, até parace que a conheço.
    Nunca me atrevi a comentar os seus artigos mas hoje não resisto.
    Este texto diz tudo aquilo que penso da minha almofada, só que eu não tenho o dom de colocar no papel como a Salvina o faz, tão bem, tão magistralmente, com tanta simplicidade.
    Parabéns pela sua escrita e continue a presentear-nos com tão belos textos. Cumprimentos

    • Olá Mitó,

      A maior recompensa que alguém que escreve pode ter é saber que os seus textos são lidos. Por isso muito obrigada pelo seu comentário.

      Sim, as minhas conversas com a almofada podiam produzir muitos, muitos textos… invariavelmente todas as noites se põe a “debitar” informação como se fosse gente… a descarada! 🙂

      Talvez tenha andado na mesma escola que a sua… bem gostaría de lhe “cortar o pio”, mas amo aquela malandra que me dá voltas à cabeça e não deixo de a abraçar todas as noites… faz-me falta!

      Boas conversas com a sua almofada e vamos ver se um dia destes elas conversam entre si em vez de conversarem connosco. Um beijinho grande e, mais uma vez, obrigada.

  2. Simplesmente “bestial”.
    Adorei!

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