Ainda sobre a almofada…

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  • Já te disse que te vou trocar, não disse? – Perguntei
  • Sim, disseste! – respondeu quase com indiferença
  • E sabes que és muito fofinha?
  • Ai, ai… que conversa é essa? Cá para mim estás a querer dizer-me qualquer coisa.
  • Estás com medo que eu te troque?
  • Algum!… sei que estou mais velhota, tenho menos enchimento… estou mais molinha…
  • Mas, olha, não é por isso. É só porque ultimamente não tens cumprido o teu dever.
  • Não? Porquê?
  • Porque o teu dever é embalares-me, fazeres-me dormir… e não o tens feito!
  • Tu vens deitar-te de cabeça cheia!
  • Enganas-te! eu deito-me de cabeça vazia. Ao fim de pouco tempo de estar contigo, os pensamentos são tantos, tantos, que não consigo adormecer.
  • E de quem é a culpa?
  • A culpa é tua, claro! Tu tens obrigações de almofada, que não estás a cumprir.
  • Estou inocente, juro! a culpa é tua! da tua cabeça! Tu queres é que eu seja o “bode espiatório”!
  • Já te disse que são quase sempre os inocentes que “pagam as favas”? Ou querias safar-te porque és só a almofada? Claro que tu é que és a responsável pela minha falta de sono.
  • Ora essa! Eu acolho a tua cabeça, mas quem traz os problemas és tu… quem pensa és tu.
  • Tu tens obrigações de almofada. – Gritei – e uma almofada serve para nos confortar, para nos embalar. Como isso não está a acontecer, quer dizer que não estás a fazer o teu trabalho.
  • Não te agites! Sempre fiz o meu trabalho; sempre te aconcheguei; dediquei-te a minha vida. Tu e eu éramos companheiras. Quando te deitavas éramos uma só. Ninguém teve mais intimidade contigo do que eu, absorvi as tuas lágrimas, afaguei os teus cabelos, velei o teu sono, fui tua cúmplice nas noites de amor e desamor, ouvi os teus desabafos, conheço os teus segredos…
  • Pronto, pronto… já chega!…
  • E agora queres deitar-me fora como se fosse nada. Queres trocar-me por outra?
  • Por uma que não me faça pensar e que cumpra a sua função.
  • Vais arrepender-te! mas depois será tarde.
  • Estás a fazer chantagem. Isso chama-se chantagem, ouviste? Chantagem emocional.
  • Estou só a dizer-te a verdade…
  • A verdade quem a sabe sou eu…
  • Eu também sei alguma. Também sei que estou inocente. Culpas-me dos teus pensamentos, das tuas insónias, dos teus devaneios nocturnos, das tuas frustrações? Queres atribuir-me responsabilidades que são tuas e não minhas?
  • Cala-te almofada! Daqui a pouco espeto-te contra a parede
  • Pois não me calo. Ficas a saber que o problema não é meu. É teu! E agora, se ainda quiseres trocar-me, põe-me fora da cama, mas fica ciente de que a próxima almofada que vier não te vai dar mais conforto do que eu.
  • Pronto. Já me estragaste a noite…
  • És tu que estragas as tuas noites. Viras-me, reviras-me, pões-me por baixo e por cima da cabeça, dás-me murros e bofetadas, amassas-me e endireitas-me… e eu é que estrago as tuas noites? Tu não dormes e quem paga as favas sou eu?
  • Já te disse que há muitos inocentes que são considerados culpados.
  • e desta vez sou eu… uma simples almofada, não é? Ingrata!
  • Tagarela

3 Comments

  1. Ai, ai… descobri mais uma irmã das vossas almofadas.

  2. Parece-me que estamos perante umas almofadas trigémeas 😉

  3. Acho que a minha almofada, é irmã gémea da tua!?….

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