Velha ou criança?

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miro

joan miro

Um dia olhei e vi.

Eu já não era a criança que corria descalça em terras de terra vermelha. Eu já não era a menina que tinha crescido com largos horizontes. Eu já não era a adolescente a sonhar com um futuro de esperanças, nem a mulher que queria afirmar-se num mundo de homens.

Perdi-me no tempo e encontrei-me velha. O tempo que era tão longo está a tornar-se cada vez mais curto e ainda não aprendi a lidar com esta “nova” condição. Dentro de mim continuo a correr descalça em terras de terra vermelha, lá longe, onde o horizonte se estende para lá do próprio horizonte. Continuo a subir ao mamoeiro da minha infância cruzando as pernas magras em torno do seu tronco fino e escorregadio que dança ao sabor do vento. Continuo a colher goiabas verdes, aquelas ainda imberbes, mas “a pintar”, porque não estando maduras me dão o seu sumo primeiro.

Não sei se ainda sou capaz de correr desenfreadamente sem medo de cair. Não conheço os meus limites, com medo de ter limites.

Velha ou criança?

É tudo uma questão de perspectiva!

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  1. Citando Fernando Pessoa: “Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.”. O tempo é carrasco! É imperativo desfrutar em pleno todas as aventuras e desventuras e sonhar até à exaustão! “Velha ou Criança?”. Criança… para sempre! Está-lhe no sangue, Salvina! Belíssimo e comovente texto. Obrigada!

    • Obrigada pelo comentário, Margarida. Na verdade não queria ter crescido… ser adulto dá muito trabalho e rouba-nos a ingenuidade (que é tão linda), atribui-nos responsabilidades, saberes, comportamentos e uma série de outras coisas. Sim, nunca perdi a rebeldia, nem a fantasia, nem o sonho, nem a crença, nem os medos de criança. O que hei-de eu fazer? Envelhecer criança, com certeza. Um beijo

  2. É verdade Vina… É tudo uma questão de perspetiva. Por vezes sentimo-nos velhas e chegamos a ter medo da Morte, outras porém somos crianças, apetece-nos correr, pular brincar (se formos capazes).Creio que é a criança que todos temos dentro de nós. E nesses momentos, o tempo para nós pára naquela época. Mas é bom recordarmos essa infância, para nós tão cheia de alegria e felicidade, é bom sentirmo-nos “Meninas” novamente, nem que seja apenas por um instante. Parabéns pelos Lindos textos que divides connosco. Um beijo grande.

    • Obrigada Gracinha pelo comentário. Feliz (ou infelizmente) eu não me sinto criança só de vez em quando. Todos os dias há uma criança dentro de mim, que teima em permanecer indiferente ao tempo. Tempo (idade) é um conceito que só existe cá fora, no meio dos outros. A minha criança (eu) só sai à rua de vez em quando, porque vive lá no seu cantinho especial que só ela conhece. Um beijinho grande.

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