Dia do pai

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Era um homem rude, não posso negá-lo. Trabalhou com tractores, carros de praça, camiões. Quando voltava das viagens, o desassossego instalava-se com ele lá em casa. Praticamente não falava connosco, dava ordens. Raramente estava presente nas horas da refeição e, quando estava, comíamos mais depressa porque se instalava um clima de medo, a que ele chamava respeito. O importante para ele era que a comida não faltasse na mesa, mas tínhamos que nos “governar” com aquilo que nos dava.

Não me lembro de um beijo ou de uma doce palavra durante os anos em que vivi na sua casa. Éramos próximos, mas muito distantes. Sempre o conheci, mas nunca soube quem era. Calado, arrogante, homem, senhor único.

Bebia, bebia muito e quando o fazia perdia a noção das palavras que habitualmente estavam caladas dentro de si e vomitava impropérios; agredia quem devia amar e respeitar.

Em Malanje nunca o percebi, excepto quando perdeu as pernas num acidente com 39 anos de idade… Para mim já era velho; hoje reconheço que era jovem demais.

Nessa altura a sua muralha ruiu. Andei com ele ao colo, eu e o meu irmão; eu e a minha mãe. Após curar as feridas, arrastava-se como um bebé que gatinha de rabo no chão. Era confragedor. Doía muito.

Eu quis muito poder abraçá-lo, mas só o fiz uma vez: numa cama de hospital, no Vouga, completamente indefeso, só e sem duas pernas. Só nesse dia o senti como meu pai; o seu modo de me olhar, envergonhado, indefeso, frágil, atirou-me para os seus braços. Chorou… Chorei!

A vida fez dele inválido, mas inválido, na realidade, nunca foi. Nunca aceitou uma esmola, o seu orgulho não lho permitiu; a esmola iria queimar-lhe as mãos, mãos que ainda tinha e que substituiriam os pés quando necessário fosse.

Ele nadou, conduziu, lutou e, com próteses andou, trabalhou, sustentou.

Em Malanje nunca percebi os seus modos. Só quando cheguei à pequena aldeia onde nasceu entendi que todos os homens que ali viviam eram assim; todos se exprimiam da mesma forma, da forma que eu não gostava. Mas percebi que afinal ele não era diferente dos homens daquela terra: eram todos assim.

Cresci, mostrei-me orgulhosamente mulher. Aceitou-me assim, respeitou-me, recorreu a mim. Beijo só na hora da chegada e na hora da partida. Lágrimas sempre.

Não sei se algum dia me amou, mas estou desconfiada que sim. Disse-o a toda a gente. Partiu, antes de mo dizer a mim.

4 Comments

  1. Um texto admirável, Salvina, escrito sem qualquer tipo de artifícios… uma realidade dura e por isso tão esmagadora. Mas, como cantou Frank Sinatra, não tenho dúvidas que o seu pai a amou ” à sua maneira”. Um beijo.

  2. Vina, todos temos as nossas máguas. Os tempos eram outros, as mentalidades também. Naqueles tempos, um homem dar mimo ou colo a um filho, era roubar-lhe a Masculinidade. Temos que afastar esses fantasmas, porque um dia, mesmo com todas essas lembranças, vamos ter saudades deles…
    Um beijinho

  3. Seu nome era Jaime ? Conheci e convivi por vezes com ele após o desastre, que ocorreu nas instalações da “Mobil” em Luanda. Era efectivamente como o descreve e grande opositor aos africanos. Bom ter mudado alguma coisa em fim de vida.

    • Sim, chamava-se Jaime. Não posso afirmar-lhe que tenha sido um homem bom, mas foi meu pai; um pai com muitas falhas e muitas limitações como ser humano. Foi o que tive.

      Muito obrigada pelo seu comentário e continue a escrever os seus belíssimos textos nos nossos Malanjinos.

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