O ano do meu descontentamento

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Os seres humanos revelam o que há de pior quando confrontados com a vida alheia. Nas suas vidas vazias, adoram conspirar contra os seus semelhantes. Existe algo mais excitante que espreitar a vida dos outros?

Houve alturas, nesta minha já longa existência, em que gostaria de ter exposto todos os canalhas que comigo se cruzaram. Nunca consegui. É uma das minhas grandes fraquezas. Não tenho a força dos audazes que enfrentam todos os perigos sem hesitações.

Assim, sofro em silêncio, deprimo-me até às últimas e renasço novamente. Infelizmente, nunca regresso mais forte. É intrínseco. Não lamento ser assim porque no final o que importa é sentir. E aí sou invencível. Sei também que não sou a única. Valha-nos isso!

Nunca me considerei piegas! Sou, acima de tudo, uma pessoa demasiado emotiva. E tantas vezes penso que não me encaixo neste mundo!

Roubando o título a um livro de John Steinbech, com as devidas adaptações, 2013 foi o ano do meu descontentamento.

O caminho até à sala de cirurgia foi longo. Ouvia vozes à minha volta em surdina; outros vociferavam e davam instruções; era um autêntico corrupio. Enfrentei o derradeiro momento com a lucidez que caracteriza os inconscientes. Haverá outra forma de o fazer? Pois, que não sei. Para os outros que, diariamente, praticam o seu ofício com mestria, era apenas mais uma intervenção. E assim foi… mais uma intervenção. Pela minha parte, desse longo processo, ficou a memória de tempos sofridos, ficaram as minhas pessoas e ficou a certeza que algo mudou para sempre.

O mais difícil foi o facto de passar meses num exílio forçado e sentir que andavam por aí uns seres miseráveis, com mentes sórdidas, que vomitavam comentários jocosos sem qualquer tipo de pejo ou misericórdia! E, por isso, sofri, uma vez mais, em silêncio, por causa desses carrascos que julgam e “matam” com uma ligeireza que arrepia!

Um dos piores anos da minha vida foi brindado com a euforia desses seres repelentes, mesquinhos, pequeninos. Não posso afirmar que não é duro. É de uma crueza assustadora e, por isso, tantas vezes, sucumbi por causa desses ataques vis.

Desejo que sejam felizes e que tenham uma vida próspera. Nunca saberão o quanto as suas vidas são estreitas.

Mas, como existe o reverso da medalha, posso afirmar, de uma forma inequívoca, que tenho algo que esses patifes jamais irão experimentar. A arte em todas as suas manifestações; os pequenos grandes prazeres; o amor incondicional daqueles que estarão, para sempre, ao meu lado! E no final, é isso que importa.

 

photo © Mario Steigerwald

photo © Mario Steigerwald

 

2 Comments

  1. Existe sempre um reverso da «medalha»
    É preciso vira-la sem dor e sem mácula, mesmo não sendo o que querias.
    Inventa outra medalha!….

  2. Há sempre gente que rejubila com as nossas quedas. São os pobres de espírito, que se alimentam das larvas das nossas feridas. Deixa lá, não são felizes. O importante é que conseguiste ultrapassar as tuas dificuldades, apesar do sofrimento. Essa é a tua glória e não precisaste que essa gente te desse a mão, porque tiveste outras mãos para segurar e outros corpos para abraçar. Usa a arma da indiferença para combater as más-línguas. Um beijo.

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