“Foi assim…”

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Dia 28 de Novembro de 2007 levantei-me, como sempre, a muito custo. As manhãs causam-me um grande incómodo. Detesto levantar-me cedo. Mas, continuando, levantei-me, como sempre, a muito custo, para enfrentar mais um dia rotineiro que me leva, quase sempre, até ao sítio do costume, o Técnico.

Detesto rotinas. Detesto ir sempre para o mesmo sítio. Mas, continuando, levantei-me, como sempre, a muito custo, para enfrentar, mais um dia rotineiro. Mas, algo estava diferente. Algo tinha mudado. Há já uns dias que andava demasiado bem-disposta. Parece que me tinham colado um sorriso na cara e não havia forma de o apagar. Qual seria a razão? Não tinha ainda a certeza, mas pressentia que algo iria abanar radicalmente o meu mundo.

Há já alguns dias que havia trocado olhares envergonhados com aquele que viria a ser, como no filme de Leo McCarey “O grande amor da minha vida”. Não marcámos encontro no topo do Empire State Building, como Cary Grant e Deborah Kerr. Marcámos um jantar no Mezzaluna, em Lisboa.

O grande amor da minha vida, qual Jay Gatsby, insistia num almoço ou não fosse ele um cavalheiro à moda antiga, respeitador dos bons costumes e das moças mais singelas e cândidas da sociedade. Ele não conhecia o meu pavor pelas manhãs; o meu tédio perante essa refeição que tantos desfrutam incomensuravelmente, o almoço. Mas, eu, afoita, arrisquei. E essa não é, seguramente, umas das minhas características. Tenho medo de arriscar. Atirei-me, cheia de coragem, e convidei o grande amor da minha vida para jantar.

Que terá ele pensado de mim? “- Não deve ser coisa séria. Convida-me assim, sem mais nem menos, para jantar? Viu-me duas, três vezes no Técnico.”. Mas disse que sim…e combinámos jantar.

Deliciámo-nos, em amena cavaqueira, com um belo repasto e, assim que o empregado trouxe a conta, gritei desaforadamente: “- Eu pago. Tu pagas o próximo.”. Tinha que ter mais um encontro com o grande amor da minha vida. Não o podia deixar fugir e, por isso, uma vez mais, arrisquei.

Levou-me a casa, conversámos um pouco e subi as escadas com um pressentimento que algo de especial estaria prestes a acontecer. Adormeci, com a canção de Etta james, “At Last” a entoar na minha cabeça, a pensar que o segundo jantar teria que se realizar o mais depressa possível.

Tinha tido alguns encontros e desencontros ao longo dos anos, mas este era diferente. Ainda não tinha percebido porquê (pensava eu). E, por falar em encontros e desencontros, as novas tecnologias (coisa que o grande amor da minha vida é muito atreito) vulgo Apple, porque o resto é puro lixo, provocam muitos mal-entendidos e foram quase responsáveis por um crime passional. Porquê? Porque o convite para o segundo jantar foi feito através dessa coisa nada impessoal chamada “chat”. É uma longa história…

O que realmente importa é o segundo jantar. Nesse teria que fazer, em linguagem pokeriana um “all in”. Era o tudo ou nada! Algo me dizia, que o grande amor da minha vida estaria ali à minha frente.

E lá fui, guiada pelo meu par, ao “Salsa e Coentros”. Conversámos, bebemos, rimos… e seria aquele o derradeiro momento. Teria que lhe roubar um beijo.

E foi assim, roubei-lhe um beijo.

Arrisquei, ousei e, tinha razão! Tinha encontrado o grande amor da minha vida. A partir desse 15 de Dezembro de 2007 nada voltou a ser o que era. Bom, não é bem assim. Continuo a detestar levantar-me cedo, continuo a não gostar das rotinas, mas agora há uma diferença. O grande amor da minha vida estará comigo, como escreveu Vergílio Ferreira, para sempre. Foi assim, há oito anos…

Que importam os defeitos, as virtudes quando existe à nossa volta uma cumplicidade inegável perante toda a humanidade? Que importam as rotinas quando existe unicamente amor à nossa volta? Teremos atingido a perfeição? Não. Seguramente. Não queremos! Jamais! Citando Fernando Pessoa, “Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito.”.

Pela minha parte, quero viver na imperfeição até aos resto dos meus dias. Como escreveu Baudelaire, diz-me Gustavo: “que demónio benévolo é esse que me deixou assim envolta em mistério, em silêncio, em paz e perfumes?”

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