O homem que gostava de gatos (I)

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O Zé era um homem bom. Dedicava-se a ajudar pessoas e sentia-se grato por isso. Só tinha um lamento: “Faço o que gosto e ainda me pagam”. Quis sempre ser o que foi. A sua profissão só podia ser aquela. Sabia-o desde criança. Para mim as suas palavras tinham a força de todas as palavras. Soavam únicas e sábias. As mais importantes. As mais significantes. As que abriam portas. As que acordavam memórias que encerravam histórias. Conhecia os atalhos da mente, mas não se antecipava à descoberta do ainda não revelado. Questionava-se e questionava. Retirava culpas, aliviava fardos e via caminhos para além da estrada. Atravessava labirintos e desbravava florestas para encontrar a árvore. Dos trajectos dos outros fazia o seu próprio trajecto. Vivia as dificuldades, reparava os destroços, tapava os buracos, sentia as dores, lambia as feridas, soprava as nuvens e destapava o sol. O Zé coleccionava memórias alheias e guardava passados. Mesmo ausente fazia-se presente. Estava dentro e por dentro seguia pistas nunca antes pensadas, não ditas, não mostradas. Varria as ruas íntimas do ser e dava sentido ao sentir. Plantava amor. Foi homem-guia, homem-luz, pai e mãe, irmão e amigo. Nele se depositava o sabor dos dias, as tristezas e as alegrias, as desilusões, os sonhos e as paixões. O Zé removia escombros e reciclava vidas.

Dizia que tínhamos nascido para ser felizes, mas era um homem triste. Sempre o tinha sido e confessara-mo. Nunca lhe ouvi uma gargalhada. Tinha um riso interrompido, aos arranques, às sacudidelas curtas.

O Zé gostava de gatos. Para ele os gatos eram pessoas. Amava-os como pessoas. Dizia-lhes coisas. Para lhes falar segurava-os pelas patas dianteiras e posicionava-os à altura dos olhos. Com voz adocicada, olhos nos olhos (como iguais) fazia-se entender. Eles miavam-lhe um miar mimado, prolongado, humanizado. O Zé entendia a sua linguagem corporal e traduzia as suas vocalizações. Beijava-os como quem beija crianças. Acariciava-os. Eles seguiam-lhe o andar, roçando-lhe as pernas, derretendo-lhe os olhos. Os gatos eram seres especiais que espalhavam magia pelos cantos da casa. Com eles partilhava espaço e dividia vida.

Um dia encontrou uma gatinha precocemente entregue à rua. Deu-lhe um lar. Reconheceu nela a mesma fragilidade de uma criança abandonada. Sabia bem que os gatos não têm pais, só têm mães. E ele fez-se mãe, porto seguro, âncora. Dava-lhe biberão, dava-lhe amor, amor, amor. Sabia da sua insegurança, do seu isolamento e agressividade, das suas dificuldades de aproximação, dos seus medos. Tornou-se mãe substituta, mãe humana que dava marradinhas de gata. Ela adoptou-o. Ele integrou-a na família.

One Comment

  1. Um texto absolutamente delicioso e de uma ternura infindável. Amor tem que ser a palavra de ordem, apesar de tantas vezes ser esquecido… houvesse mais “Zés” e “Salvinas” e talvez a Humanidade tivesse ainda salvação. Um beijo

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