O homem que gostava de gatos (II)

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IMG_1029O Zé era doutor, mas não parecia um doutor. Vestia-se com tal simplicidade que o tomavam por um homem sem posses nem profissão. Isso divertia-o. O seu mundo não era o que se via. Ele estava sempre do lado de dentro das pessoas. O exterior era o exterior, a aparência, o que todos podiam ver, mostrar, disfarçar ou esconder. O exterior, para ele, não era significante. O essencial estava no âmago, não era visível. Era nessas águas que gostava de mergulhar. Fazia-o com delicadeza e humildade. Era intuitivo, empático e compreensivo. Ajudava a pensar o não pensado e sentia o outro como se se sentisse a si, compreendia o incompreendido, amava o desamado, via-lhes as feridas, sentia-lhes as dores.

O Zé era firme na palavra e manso na fala. Tinha olhos vivos, espertos, perscrutadores. Olhava de frente. Quando estava nervoso, gaguejava. Durante anos não me apercebi dessa particularidade. Explicou-me que isso acontecia porque pensava mais depressa do que conseguia falar.

No mundo das coisas era desorganizado e trapalhão. No mundo dos afectos todo ele era amor, amor humano. Não cria num Deus, mas acreditava no homem… e gostava de gatos. Teve muitos, a maior parte deles rafeiros. O que mais amou – penso – foi o Sarapico, que lhe morreu e que ele chorou. Nunca falou do Sarapico sem que lhe viessem as lágrimas aos olhos. Considerava-o um companheiro especial, uma das maiores perdas da vida. Não gato animal. Gato transumano. Companheiro.

Quando lhe começaram a morrer os gatos, quase um atrás do outro, assustei-me. Lembrei-me da Idalina que tinha uma caturra (Calopsita) a quem pedia beijos e que ia beber à sua boca. Andava com ela no ombro enquanto fazia as tarefas domésticas. A caturra morreu-lhe e ela também chorou. Sempre me disse que a morte tinha passado lá por casa e que tinha levado o passarinho em vez de levar uma pessoa. Para ela, era um mau presságio. Afigurara-se-lhe que alguém iria morrer. E sim, morreu-lhe o marido que estava doente.

Quando os gatos do Zé começaram a partir, não consegui deixar de pensar na caturra da Idalina. Cada vez que morria um, para mim era um pedaço do Zé que se ia embora. Acompanhou-os a todos, tratou deles, sofreu com eles, lutou com eles, chorou por eles. Só sobreviveu uma menina, uma gata… não sei se foi a “filha” que amamentou.

O homem livre, corajoso e independente adoeceu. Vi-o definhar, cambalear, resistir, suportar. Vi-o cair e levantar-se, sofrer e zangar-se, ferir-se e curar-se. Vi-o prostrado… exausto. Vi-o arrastar-se.

“Não pense que vou morrer” – dizia-me simulando uma pose de força física exibindo os músculos que não tinha, como se os tivesse.

Não esmorecia: teimava. Se não conseguisse andar, rastejava. Não desistia: lutava. Não transparecia: disfarçava. Coragem. Li-lhe coragem. Li-lhe força. Sempre!

Um dia o Zé deixou de se bastar. Embora fraco continuou forte. Forte no querer. Quis sair da gaiola da vida… e saiu!

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