Nem quero que me lembre…

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neuroniosOuviu uma buzina a tocar insistentemente, mas não se assomou à janela. Depois o seu nome foi gritado com aflição.

— Ó Cândida… Ó Cândida…

A medo espreitou por uma frecha, apenas uma frecha da janela, para ver quem era. Era o Américo, a mulher e os dois filhos. Apressou-se a abrir a porta.

— Viemos a Malanje buscar mantimentos para a loja, mas já não nos deixaram regressar. Chegámos ao cimo do Hospital, está lá a tropa e não deixa ninguém sair da cidade. Tivemos que voltar para trás. Agora não sabemos para onde ir. Isto está tudo a ferro e fogo. Se nos pudesses abrigar…

— Entrai, entrai.

A mulher e os filhos do Américo correram imediatamente para a porta, enquanto ele entrou pelo portão do quintal com a camioneta, que estacionou debaixo da mangueira, nas traseiras da casa.

Até então, a minha mãe só tinha por companhia o medo e a filha mais nova, com 9 anos de idade. De duas pessoas, passaram logo a ser seis.

— O que nos vale é que temos a camioneta carregada de mercearia. Tínhamos vindo abastecer-nos. Para comer não nos há-de faltar. Vamos trazer tudo para dentro de casa, porque não sabemos se poderemos voltar ao quintal tão cedo.

— Ó Américo eu também tenho alguma coisa. Andei a aviar-me de conservas e pão para podermos comer se não pudéssemos sair à rua.

Atarefados transportaram tudo o que puderam para a despensa da casa. Depois sentaram-se no chão e desataram a chorar.

— Coitado do Sr. João da Casa Sul. Apareceram lá uns malandros e o homem só queria que não lhe partissem a montra. Podiam levar tudo o que quisessem, mas que não lhe partissem a montra. Tiraram-no de lá para fora, mataram-no à frente de toda a gente e depois deitaram-lhe fogo – desabafou a minha mãe com susto na voz. Depois acrescentou: a tropa andou hoje a avisar que não devemos andar em pé dentro de casa. Temos que andar todos de rojo e junto às paredes.

Aquilo era o inferno: tiros por todo o lado, rajadas de metralhadoras, morteiros, bazucas e sei lá que mais. Tapavam-se os ouvidos, fechavam-se os olhos, soltavam-se as lágrimas.

— Estou com tanto medo, Américo. O meu marido já foi para Portugal, o meu filho foi para Nova Lisboa, as minhas filhas estão em Luanda e eu aqui sozinha com a miúda, que ainda tem mais medo do que eu. Ao menos um homem em casa, embora não adiante muito, sempre nos dá mais segurança. Ajudamo-nos uns aos outros.

— Ó Cândida. Segurança não temos em lado algum, mas enquanto tivermos umas paredes para nos abrigarmos já é alguma coisa. Na rua é que não podíamos ficar. Nem sabes quantos mortos já vimos até aqui chegar.

— Que desgraça, Américo, o que nos havia de acontecer. Quem diria que estávamos guardados para isto, sem fazermos mal a ninguém. Mas seja o que Deus quiser.

Bateram à porta com batidas de aflição. No meio dos disparos das armas, foi difícil ouvir aquele pedido de socorro. Era a tia Guiomar e o marido, a Matilde e o marido, a dona Perpétua, o Sr. António, a Dona Maria, a Dona Cecília, o Sr. Silva, a Dona Judite e o Sr. Salvador.

Entre o barulhar da guerra, o Sr. Pinto Minhungo, que ia a caminho de casa, que ficava mesmo ali ao lado, não teve tempo de lá chegar e irrompeu pela casa adentro, juntando-se ao grupo. Eram dezoito pessoas entre paredes, espalhadas pelo chão e pelos cantos da casa. Ali comiam, ali dormiam (vestidas), ali tremiam, ali (des)viviam. Tudo era precário, mas essencialmente a vida.

Durante nove dias e nove noites, não houve descanso. Tudo o que mexia na cidade foi morto… e até mesmo as árvores se renderam. A mangueira, a enorme mangueira, ficou toda esfarrapada; as balas atravessavam as paredes como se fossem transparentes, como se não existissem.

O grupo manteve-se unido, como se fosse família. Não havia fracos nem fortes, todos eram a imagem do terror e ninguém teve receio de mostrar fraqueza, de chorar, de comer sem cerimónia. Os ares da casa misturavam o cheiro de pólvora, com os cheiros de gente e os cheiros de gente com cheiro de comida enlatada. O lixo era isolado na cozinha. As condições de higiene iam-se degradando de dia para dia. Aquela casa, mesmo em frente ao Bispado de Malanje, albergava humanos, quase bichos, a lutar pela sobrevivência.

Três dias sem água. A água tinha deixado de correr nas torneiras e o calor abrasava. O que lhes valeu foram algumas laranjadas e água engarrafada. Era preciso racionar os líquidos, se não depressa sucumbiriam à sede. Os alimentos também já escasseavam. Até quando poderiam resistir?

Terror, pânico, desespero, sede, desilusão, tristeza, abandono… uma mistura ácida de sentimentos.

Ao nono dia as armas calaram-se. O silêncio escutou-se. Nunca o silêncio lhes soubera tão bem. O rio de lágrimas parou de correr. Lá fora as vozes de comando mandavam-nos sair. Eram as tréguas para evacuação dos sobreviventes. Eles tinham sobrevivido. Os outros estavam espalhados no chão, pendurados nas varandas dos prédios, esventrados ao sol, suspensos nas árvores, derramados no asfalto quente das ruas.

(Isto contou-me a minha mãe. Depois tapou os olhos com as mãos para espantar os demónios e disse: “nem quero que me lembre, nem quero que me lembre, minha filha”).

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  1. Escrita intensa que descreve uma história de horror. Parabéns Salvina, por nos dares um relato tão autêntico em que se sente o medo, o pânico e o alívio no final da leitura e nos transporta para a vivência aterradora destas pessoas. Uma escrita sentida. Beijinhos

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