Um homem diferente

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pedras-na-maoConheci-o quando morava em Luanda. Ele ocupava os anexos da casa onde eu vivia.

Chamava-se Sérgio. Eu chamava-lhe Senhor Sérgio.

Quando o vi pela primeira vez, senti um arrepio a percorrer-me a espinha. Era um homem pequeno, cujos braços lhe caíam muito abaixo dos joelhos. Tinha os ombros projectados para a frente e a parte superior da coluna mostrava uma corcunda assimétrica que pendia para o lado direito. Os seus pés e mãos eram enormes para a sua estatura. O andar era torto (coxeava um pouco) e os olhos estavam permanentemente voltados para o chão. O rosto não lhe iluminava o corpo, nem o corpo lhe arejava as feições. Não me atrevo a dizer que era uma fraca figura. Antes pelo contrário, era uma figura marcante, arrepiante.

Apesar da sua aparência, alguém o amou o suficiente para casar com ele e lhe dar dois filhos, um rapaz e uma rapariga, ambos de boa compleição física… e bonitos.

Todas as manhãs se levantava cedo para ir trabalhar. Regressava para almoçar e voltava a sair para o emprego, de onde só revinha à noite . Cruzávamo-nos quase diariamente e passei a vê-lo como uma pessoa amistosa, respeitável, afável até. A sua fisionomia deixou de me interessar. Passou a ser um amigo. E um amigo é um amigo, qualquer que seja a sua exterioridade.

Um dia fui ao Hospital Maria Pia visitar uma amiga que estava doente e num dos corredores dei de caras com o Senhor Sérgio. Parei e perguntei-lhe:

  • O que é que está aqui a fazer?
  • Eu trabalho aqui – respondeu-me orgulhoso
  • Que surpresa. Não fazia ideia.
  • E a menina? O que faz por estas bandas?
  • Vim visitar uma amiga…
  • Precisa de ajuda?
  • Não, obrigada…
  • Então… até logo!

E afastou-se com desenvoltura, uma desenvoltura que nunca lhe tinha visto. Jamais lhe tinha perguntado o que fazia, nem onde trabalhava, nem nada dessas coisas. Seguramente estava a fazer o que gostava, dada a sua expressão de orgulho e contentamento. Deixou-me a pensar.

Nessa noite conversámos sobre a sua vida e profissão. Fiquei a saber que tinha nascido com uma malformação congénita e que tinha desistido de estudar, porque na escola os meninos fugiam dele. Mal tinha aprendido a ler e a escrever. As crianças tinham sido os seus carrascos, não lhe tinham perdoado o facto de ter nascido diferente. Monstro marreco, aberração, corcunda… era o que lhe chamavam. Teve vontade de morrer. Um dia foi para a linha dos caminhos-de-ferro para se lançar para debaixo do comboio, mas, à última da hora, teve medo e desistiu.

Depois fechou-se em casa. Passou dias e dias, meses, anos, a estudar sozinho. A aprender a viver sem amigos.

Percebeu cedo que o mundo dos vivos não o aceitava e, por isso, escolheu viver entre os mortos. Trabalhava na casa mortuária do Hospital.

  • E não tem medo? – perguntei-lhe horrorizada
  • Medo de quê? Os mortos não me vêem, não me insultam, não me rejeitam e não me fazem mal. E dá-me prazer poder ser útil, lavá-los e pô-los bonitos para a família os poder velar. As famílias e os amigos dos mortos não reparam em mim… estão demasiadamente preocupados com as suas dores. Aqui ninguém me atira pedras.
  • Mas alguém lhe atira pedras?…
  • Pois! Quando comecei a vir para aqui tinha que passar por uma escola… e olhe que era uma escola secundária. Os miúdos, que já eram uns homenzinhos, punham-se a gritar e a atirar-me pedras. Às vezes até me magoavam. Chegaram mesmo a partir-me a cabeça. Foi assim que conheci a minha mulher, ela revoltou-se quando os viu a apedrejar-me e foi em meu auxílio. Vai daí eu fiquei-lhe muito grato. Começámos a encontrar-nos e acabei por me apaixonar por ela e ela por mim. O que faz o amor, veja lá. Agora posso dizer que sou um monstro feliz.
  • O Senhor não é nenhum monstro, Senhor Sérgio. Monstros são os que o maltratam. O Senhor é apenas um homem diferente… tão diferente quanto bom.

O mundo sempre foi um lugar cruel para quem nasceu d(eficiente).

3 Comments

  1. Uma mensagem poderosa que me toca pessoalmente. Adorei a história. Boa para muitos reflectirem e se lembrarem antes de atirarem pedras. Por detrás de cada ser humano, entre parecenças e diferenças bate em todos eles um coração humano e é esse que importa acima de tudo.

  2. Tudo o que é diferente da norma estabelecida, é rejeitado pela sociedade.
    Pode ser o apuramento da espécie?…
    Ou o obscurantismo em que ser humano ainda vive?…..

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