O crucifixo

| 2 Comments

img_1081Gostavas de tê-lo junto ao teu coração e pregaste-o com um alfinete ao teu sutiã. Mas era grande e pesado. O médico pediu-te que o tirasses. Ralhou-te depois por o não teres feito. A ele e a mim fizeste ouvidos moucos. Um dia inteiro (e às vezes à noite) com uma cruz a pesar-te no corpo (sim, sei que te aconchegava a alma), não era bom para a tua fragilidade e saúde. Sei que não lhe sentias o carrego, nem o tamanho… mas ele estava lá com a dimensão da tua fé.

Um dia, entrei no teu quarto e ele saltou-me aos olhos. Roubei-to. Não deste conta. Dois dias depois… não sei se tiveste alguma aflição (tu não te queixavas)…, percebeste que ele tinha desaparecido. Não me acusaste. Não te passou pela cabeça que tinha sido eu a tirar-to. Ouvi-te dizer: “Não sei do meu crucifixo! Perdi o meu crucifixo… perdi o meu crucifixo”. Choraste. Nem sabes quanto me custou ver-te chorar. O meu pensamento voltou-se para as palavras do médico. Depois, repeti calada: “O médico disse que lhe fazia mal… o médico disse… o médico disse…”. Ainda pensei em ir à minha gaveta das “coisas importantes” buscá-lo e dizer-te que não o tinhas perdido. Calei-me. Sabia que, se to devolvesse, não desistirias de o voltar a pregar no teu sutiã.

“O médico disse… o médico disse…”.

Eu sei que tu sabias que Cristo estava dentro de ti. Que não era o crucifixo que te aproximava d’Ele. E foi isso que te disse, com um nó na garganta. Tu acabaste por te resignar à perda e eu nunca cheguei a denunciar o “roubo”.

Ontem andei a mexer na gaveta das “coisas importantes”. Ele estava lá. Encontrei-o!

O teu crucifixo trouxe-me à memória o teu desgosto e o meu “pecado”. Peguei nele, olhei-o demoradamente, confessei o “crime” e coloquei-o na minha mesinha de cabeceira, em frente ao teu retrato.

Devolvo-to. É teu! Perdoa-me!

 

2 Comments

  1. Quando escreves sobre a «Candinha» a mim toca-me!…
    De tudo o resto eu entendo………………….

  2. 🙂 Sem palavras……..

Deixar uma resposta

Required fields are marked *.