Perdão

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Um dia destes dei por mim a revirar gavetas há muito tempo fechadas, a por coisas para o lixo, a reencontrar memórias levemente esquecidas.

No meio de papéis e de pastas de recibos já pagos, coisas que já não têm interesse, encontrei uma pasta que tinha organizado, com  coisas sobre a minha mãe: são cartas de amor trocadas com o meu pai e alguns poemas escritos por ela ao longo da sua vida.

Espanta-me que até tivesse escrito poesia, porque foi uma menina que nunca foi à escola; foi o pai que a ensinou, em casa, a ler e a escrever (foi uma época em que só os rapazes podiam estudar).

Nas cartas de amor, sentia-se amada e desejada, seduzida e abandonada. Tinha a angústia da vida e a surpresa  de a não saber viver, pondo tudo num impulso vital de lágrimas e ansiedades, como se fosse tudo dela e ela fosse a mais triste de todas as mais tristes.

Era uma pessoa… (como se diz)… tinha um limão e não sabia fazer uma limonada.

Escolhi um poema de entre muitos… todos reflectem uma luz que desmaia num fulgor de aurora, um não saber o que ela via ou chorava.

Hoje ponho-me a pensar nas ilusões e nos beijos e risos que nela pus. Fico feliz por ela. Ela é a luz…

PERDÃO

Por muitos e muitos reparti,
Pedaços da minha alma dedicada.
Em troca pouco ou nada recebi.
Dei tudo! Dei tudo… fiquei sem nada.

Que importa não ter visto compensada,
A ânsia de me dar; assim eu vi,
Como era falso o mundo em que nasci,
E cega a humanidade desvairada.

Não estou arrependida nem lamento!
Sou feliz, mesmo até no sofrimento,
Dos ódios que me votam sem razão.

O que dei, foi com fé e com vontade,
Para alguém, e para quem me fere com maldade.
Ainda posso dar o meu perdão.

(Ester Silva Carvalho)

2 Comments

  1. Obrigado por comentares, este blog já precisava de um pouco de movimento.

  2. Muito genuíno o teu texto. Retrata na perfeição o “estado de alma” em que a nossa Mãe vivia. Sempre triste, sempre infeliz. A única coisa que a fazia prosseguir era o amor e o enlevo dos seus dois Filhinhos (como Ela dizia), pois de resto, a sua vida foi chorar e morte do seu “Menino” que partiu com apenas três anos, e lamentar a vida que levava ao lado do seu único Amor que tocou a sua vida, mas que tanto sofreu com Ele. Sempre achei UMA ESTRANHA FORMA DE AMAR …

    O Poema que ela escreveu, é lindo, encaixa perfeitamente naquilo que foi a sua vida.

    Obrigada por o teres mostrado.

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