Escreve-me, escrevo-lhe…

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Escreve-me. Escrevo-lhe. Não sei quem é: não tem rosto, nem corpo, nem coisa física, só alma. E mesmo essa, só lha adivinho.

Dá-me as suas palavras. Dou-lhe as minhas. Mas o que são as palavras? Podem ser armas de conquista ou de derrota; de vida ou de morte; de realidade ou fantasia; de dor ou de euforia; de amor ou de ódio. Podem ser palavras mortas, ditas, cantadas, escritas, sofridas ou engolidas, vomitadas ou cuspidas, palavras escondidas ou disparatadas, malditas ou abençoadas, palavras humildes ou desavergonhadas.

Se as palavras forem transparentes, podemos ver através delas. São as palavras que nos falam dos outros e que lhes falam de nós. Mas se forem opacas, dúbias, mentirosas, são as palavras que nos traem, desiludem, nos roubam a imaginação que edificámos com elas.

As palavras são só um sopro ou a voz desse sopro; podem querer dizer tudo, mas também podem querer dizer nada; podem ser pedras que nos derrubam, mas também podem ser mãos que nos erguem; podem ser flores que nos enfeitam ou estrelas que nos guiam.

Diz-se que as palavras são como punhais. Algumas já me mataram; outras ressuscitaram-me.

No mundo das palavras é possível encontrar todas as palavras do mundo, todos os significados, todas as fés e heresias, todas as dores e alegrias, todas as luzes e sombras, todas as penumbras e solidões, todas as cores e todas as escuridões.

Escreve-me. Escrevo-lhe. Com as palavras que tenho, com as palavras que tem. Às vezes sinto as palavras como uma gaiola que prende; outras vezes sinto-as como o pensamento que liberta. Nem tudo se explica por palavras, mas as palavras podem explicar-nos, nem que as embrulhemos em silêncios.

Se me escreve e eu lhe escrevo, o que é que existe entre nós, senão o significado das palavras com que nos (d)escrevemos?

As palavras têm som, têm voz, dá-se-lhes entoação para lhes atribuir sentido ou para lhes subverter esse mesmo sentido.

Para mim, as palavras são setas direccionadas a um alvo; às vezes curvam, entram em becos, ressoam e perdem-se no labirinto dos ouvidos; outras vezes ficam gravadas dentro de nós de tal maneira que nunca mais de lá saem.

As palavras são ferramentas, instrumentos, máquinas trituradoras, misturadoras, espremedoras de sumo. Eu visto-me de palavras. Também me dispo com elas. Sou o que as palavras dizem de mim. Há quem diga que palavras “leva-as o vento”, mas eu tenho algumas eternas.

As palavras são como os números: se conjugadas tornam-se infinitas.

Escreve-me. Escrevo-lhe. Não sei quem é: não tem rosto, nem corpo, nem coisa física, só alma.

Vou continuar a escrever-lhe.

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