Pó de borboleta

| 2 Comments

borboleta

Imagem retirada do site www.donde-vivem.com

Os miúdos gostam de campo, não gostam de prédios. De prédios só gostam de elevadores, que são os carros dos prédios, para andar para cima e para baixo.

As crianças precisam de espaço para gozar de pequenas liberdades: chapinhar nas poças de água da chuva; seguir o carreirinho das formigas, comê-las, esmagá-las com as mãos ou com os pés, desorientá-las, destruir o formigueiro, apanhar gafanhotos, lagartas e lagartixas, correr e saltar só pelo prazer de correr e saltar. E, também, a liberdade de perseguir borboletas.

Quando era pequena entrava no prédio do Vitorino só para andar de elevador e gostava de correr atrás das  borboletas.

As borboletas não voam como os pássaros; têm o seu ritmo, flutuam suavemente como as fadas. Nunca andam lá no alto, a não ser que haja montanhas. Acho que elas preferem manter-se pertinho do chão.

Queria que as borboletas me pousassem em cima, para lhes ver as cores, os modelos, os traços, as bolas, os riscos. Nunca o faziam. Escolhiam pousar sobre outras fragilidades: pousavam no capim, numa erva, num arbusto, numa trepadeira, numa folha, num galho seco, numa finura de verde. Mas também pousavam nas plantas do jardim da Dona Micas ou da Dona Alice, a mãe da Zezinha, para reterem nas delicadas patas o néctar das mais belas flores…. e as flores voavam com elas à procura de outras flores.

Eu caçava borboletas. Não tinha rede para as apanhar no ar. Deixava-as pousar e, com muito cuidado, sorrateiramente, prendia-lhes as asas entre os meus dedos polegar e indicador. Apanhava-as para lhes  compreender a fragilidade, a beleza, o colorido, a leveza. Agarrava-as pelas asas e as asas que andavam num vaivém como os elevadores, ficavam paradinhas, imobilizadas entre os meus dedos. Virava-as de cima para baixo, de baixo para cima, de lado, do outro lado, de frente, só para as ver melhor.

[Não sei com que tintas, cores ou pincéis se pintam as borboletas].

Asas de vários tamanhos e padrões, coloridas, sedosas, de veludo, arte pura em movimento, que pequeninas mãos impediam de voar, para com elas se encantar… arte roubada, entre dedos aprisionada.

Libertava as asas, mas ficava com pó nos dedos: pó de borboleta! Roubei-lhe as cores? Não! As cores só me ficavam nos olhos; nas mãos, não. Nem restos de azul, nem sobejos de amarelo, nem um fio de cor de laranja, uma réstia de vermelho ou de dourado ou de preto ou de qualquer outra cor. O pó era fino e aveludado, mas era só pó: pó de borboleta. Prender-lhes as asas, era desfazê-las em pó.

[Nunca consegui pintar os dedos com cores de borboletas. Nunca.]

Soltava-as e ficava a observar o seu voo ligeiro, gracioso, acetinado e colorido. Eram livres de voar, poisar, voar, poisar, voar…

[Não se pode aprisionar as cores de uma borboleta.]

2 Comments

  1. Como tão diferentes podem ser as crianças!…
    Enquanto criança, sempre vivi em harmonia com a natureza. Só que nunca comi formigas, (só uma para saber o sabor) nem as esmaguei com as mãos e os pés. Só «destruí o formigueiro» por curiosidade e descoberta de como tão frágeis e poderosas viveriam as formigas.
    Pó de borboleta, fiquei muitas vezes com ele entre os dedos. Para depois poder imaginar ou querendo pintar mais borboletas voando em meu redor, ficando só o sonho e a imaginação de que se não deve pisar nem prender a natureza.

    • As crianças são todas mais ou menos iguais: gostam de experimentar tudo… e comer formigas não é nada de especial, já vi comer coisas piores 🙂
      Um beijinho, Miguel e obrigada por comentares.

Deixe uma resposta

Required fields are marked *.