Abacateiro imigrante

| 2 Comments

Está ali uma árvore: um abacateiro. Não é árvore desta terra, bem se vê.

Está só. Não tem irmãs nem irmãos, nem qualquer árvore da sua espécie por perto. Vejo-lhe uma visita: um melro, pássaro preto, a cantar num dos seus ramos.

O tronco não é grande; a terra que lhe coube é pouca. Foi plantada num canteiro de jardim de um pátio cimentado. É única.

As folhas, verdes já não são. Estão amarelas, quase acastanhadas. Árvore dos trópicos, não sei como resiste aos invernos. Está cercada de rasteiras plantas. Algumas dão flores; outras, não.

Nunca lhe vi um fruto. Talvez seja infértil, não sei?! Não comunica, não dança com o vento. O pátio está murado. Encerraram-na ali, entre quatro paredes. Nem sei para onde se expandem (expandir-se-ão?) as suas raízes. A terra é escassa. Como sobrevive? Está ali há anos, não sei como nem porquê?! Olho-a como a alienígena que é. “Não és de cá, camarada” – digo-lhe.

Conheço os seus ancestrais: vestem-se de cheiros, de flores, de frutos. Sei que ela precisa de companhia, mas não sei se ainda vai a tempo de a ter. Cresceu pouco, muito envelheceu. Assim, coberta de sépia, parece velha; no corpo fino, no tamanho e na forma do tronco, lê-se-lhe adolescência.

Bem sei que não amou e não se reproduziu. Viveu só. Ninguém teve. Trocou chuvas de verão por regas no Inverno. Lutou para viver. Resistiu.

Admiro-te, árvore, e lamento-te o destino. Plantada num pátio. Na tua terra, naquela terra de quentes e húmidos ares (de onde vieste), romperias um caroço e qualquer pedaço de terra seria teu e crescerias bela, folhosa, frondosa e frutuosa para alimentar filhos disformes de fomes enormes.

………

Caroço plantado. Quem te plantou?
Foi qualquer pessoa, que por aqui passou

És abacateiro, num pátio fechado?
Vivo num canteiro, estou muito apertado.

Vais morrer aí, velho imigrante
Volta à tua terra, à terra distante
Vai lá ser feliz, vai ser diamante

Não posso voltar, já fui transplantado
Tenho que morrer, já cá deste lado
Sem amar ninguém, sem nenhum pecado
Sou árvore morta num espaço fechado.
As minhas raízes não foram profundas
Não frutifiquei e estão moribundas.
Adeus, minha gente, não vos volto a ver
Aqui nesta vida estou quase a morrer.

2 Comments

  1. Espero que o teu abacateiro prisioneiro entre quatro paredes , tenha forças para sobreviver. Como espero também, que a planta de pimenta bode ainda se mantenha viva, e dar pimenteiras, quem sabe???……….,,,,,,,,,,,,,,

    • O abacateiro está ali há, pelo menos, 30 anos. Já não vai a tempo de procriar (penso eu). A pimenta bode está com muitas folhas, mas não há meio de dar flor, nem fruto. Continuo à espera. Obrigada pelo teu comentário… e vê lá se voltas. Sinto a falta dos teus textos. Beijinho.

Deixe uma resposta

Required fields are marked *.