Abacateiro imigrante

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Está ali uma árvore: um abacateiro. Não é árvore desta terra, bem se vê.

Está só. Não tem irmãs nem irmãos, nem qualquer árvore da sua espécie por perto. Vejo-lhe uma visita: um melro, pássaro preto, a cantar num dos seus ramos.

O tronco não é grande; a terra que lhe coube é pouca. Foi plantada num canteiro de jardim de um pátio cimentado. É única.

As folhas, verdes já não são. Estão amarelas, quase acastanhadas. Árvore dos trópicos, não sei como resiste aos invernos. Está cercada de rasteiras plantas. Algumas dão flores; outras, não.

Nunca lhe vi um fruto. Talvez seja infértil, não sei?! Não comunica, não dança com o vento. O pátio está murado. Encerraram-na ali, entre quatro paredes. Nem sei para onde se expandem (expandir-se-ão?) as suas raízes. A terra é escassa. Como sobrevive? Está ali há anos, não sei como nem porquê?! Olho-a como a alienígena que é. “Não és de cá, camarada” – digo-lhe.

Conheço os seus ancestrais: vestem-se de cheiros, de flores, de frutos. Sei que ela precisa de companhia, mas não sei se ainda vai a tempo de a ter. Cresceu pouco, muito envelheceu. Assim, coberta de sépia, parece velha; no corpo fino, no tamanho e na forma do tronco, lê-se-lhe adolescência.

Bem sei que não amou e não se reproduziu. Viveu só. Ninguém teve. Trocou chuvas de verão por regas no Inverno. Lutou para viver. Resistiu.

Admiro-te, árvore, e lamento-te o destino. Plantada num pátio. Na tua terra, naquela terra de quentes e húmidos ares (de onde vieste), romperias um caroço e qualquer pedaço de terra seria teu e crescerias bela, folhosa, frondosa e frutuosa para alimentar filhos disformes de fomes enormes.

One Comment

  1. Espero que o teu abacateiro prisioneiro entre quatro paredes , tenha forças para sobreviver. Como espero também, que a planta de pimenta bode ainda se mantenha viva, e dar pimenteiras, quem sabe???……….,,,,,,,,,,,,,,

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