O JINDUNGUEIRO-MOR

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Os meus jindungueiros têm duas mães: eu e a Isabel.

Ambas temos um carinho muito especial por eles e procuramos que estejam sempre confortáveis e felizes. Falamos com eles. Temos palavras diferentes para dar a cada um: dizemos a um que está crescido; a outro perguntamos o que é que se passa porque o achamos triste; a outro agradecemos as imensas flores que nos dá e ao último perguntamos por que perde quase todas as flores, sem parir frutos… digo quase todas as flores, porque uma delas deu fruto e dos grandes (não sei se foi para compensar os que ficaram pelo caminho).

Mas quero falar do meu jindungueiro maior (presente da Catarina).

Iniciou o verão a medo: um tronco esquelético, esguio, ramoso, mas desfolhado (como se estivesse morto). Timidamente foram nascendo folhas, mas, em simultâneo, vieram as flores… lindas flores, branquinhas e bordadas no centro com listas finas e arroxeadas. Eram tantas as flores como as folhas.

Quando as flores começaram a esmorecer, verifiquei que havia um botãozinho que as expelia devagarinho; as flores, quase murchas, fechadas (como quem sabe que é tempo de dar a vez), mantinham-se teimosamente agarradas ao botão como uma placenta que não quer largar o feto, não quer quebrar a ligação, mas tem que ser.

Todos sabemos que o fruto nasce da flor, mas vê-la brotar é outra coisa, observar de perto o fenómeno é maravilhoso.

E o meu jindungueiro-mor deu-me muitos frutos, negros como breu. Cresceram lindos, alongados, carnudos. Fizeram-se vermelho sangue. Um deles sucumbiu, partiu-se-lhe o pedúnculo e começou a querer secar. Tirei-o e resolvi prová-lo. Afinal era o primeiro da safra (a mãe está cá em casa desde Outubro do ano passado e só neste Verão floresceu). Cortei-lhe um pedacinho com uma faca e pu-lo na pontinha da língua. Nada de picar. Mordi-o… nada de picar. Revirei-o contra o palato… nada de picar. Caramba, isto é jindungo? Espera aí que eu já te conto. Cortei-o ao meio. Sementes de um lado e do outro. Esfreguei-o na língua. Nada de picar. Um segundo depois, desci aos infernos, subi aos píncaros das montanhas, arderam-me os ouvidos, transpirei por todos os poros. Alerta de fogo. Quem me acode? O jindungo agia ao retardador. Enchi a boca de tudo o que me apareceu pela frente. Durante dez minutos a minha língua foi uma labareda, ou melhor, toda eu estava incendiada.

Quando acalmei, fui arrancar os quatro jindungos maduros que ainda estavam na planta. Pu-los num frasco com azeite e um pouquinho de whisky (para consumo caseiro).

Resumindo e concluindo: não devemos “embarcar” na primeira impressão, porque nem tudo o que parece, é!

(Texto dedicado à segunda mãe dos meus jindungueiros, com gratidão. Ter duas mães não é coisa pouca… e não é para todos)
Entenderam?

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