Foi aqui que tudo começou

(Num Agosto quente do século passado)

Ela, jovem de 17 anos, cheia de sonhos e juventude para viver em toda a sua plenitude, de acordo com o conservadorismo daquela época. Mas que as circunstâncias da vida a tornaram mulher precocemente.

Ele, jovem também, com 23 anos, acabado de chegar da Guerra Colonial e que, nessa altura, estava a iniciar a sua vida profissional.

A jovem caminhava à beira mar, pisando a areia molhada, mas firme. Ele, acompanhado de um amigo, contemplava o mar e ouvia a conversa do companheiro que, afinal, conhecia os dois jovens, e mostrou um pequeno gesto para uma apresentação de ambos. “Um bom dia!! Muito gosto em conhecê-la” e apenas uma troca de olhares. Ela continuou caminhando ao longo da praia, Ele ficou. Seguiu-a com o olhar até perdê-la na multidão, que teimava em molhar os pés naquela água gelada.

Passaram uns dias e, no mesmo lugar, voltaram a encontrar-se. Conversa de circunstância e um olhar vazio para as ondas que a maré vazante trazia e levava e lhes acariciava os pés, quando morria na areia, ali juntinho a eles.

Os dias passaram. Não mais se viram. Ela tinha ido àquele lugar pela primeira vez, mas somente de férias, naquele Agosto quente. Depois teve que regressar ao seu quotidiano. Mas ele não mais a esqueceu. Procurou-a até conseguir encontrá-la de novo. E isso aconteceu!

O certo é que, passados três meses, a vida encarregou-se de a levar, por motivos profissionais, para o lugar onde ambos começaram a viver e a trabalhar naquela Vila, a 12 km da praia onde se conheceram. Era uma Vila tão triste, tão vazia e solitária, tão cheia de nada, de carências para uma menina chegada de uma cidade capital de Distrito e com apenas 17 anos. Mas o encantamento falou mais alto, E aí, ele tentava a sua sorte… e numa conversa inocente, disse-lhe que gostava dela, queria dizer-lhe, mas muito envergonhado, disse que não sabia por onde começar…

Ela, mais espevitada e mais dada à brincadeira respondeu-lhe: “Acho que o melhor será começar pelo princípio” e, no meio de sorrisos, aconteceu. E ali, já quase a cair nos 24 anos dele e os 18 dela, começaram a namorar. O pai dela era um Senhor muito respeitado e muito conservador, em tudo o que, de qualquer modo, pudesse afectar a “menina dos seus olhos”. E, então, a ordem foi dada: “Namorar, só à janela”.

Naquela época, esse tipo de namoro já não era muito usual e eles não gostaram muito. Então, a menina ficou noiva, após três meses desse namoro. Dessa forma, como noivo, o rapaz já teria ordem de entrar na casa dos pais. Teve um pedido de casamento – como se dizia na época . com direito a um almoço com os pais do noivo, foi pedida por eles, para que o seu pai comsentisse que a sua filha casasse com o filho deles. Recebey um anel de noivado e esteve, assim, na qualidade de noiva, mais onze meses.

Casaram num Setembro soalheiro, dois anos depois de se terem conhecido naquela praia. Ficaram a viver longe da família, a 180 km de distância, naquela Vila tão cheia de nada! Marcaram um rumo, o seu caminho. E, passados onze meses, já eram três. Tinha chegado o seu primeiro bebé. Era um menino lindo, lindo como o sol, o sol das suas vidas. O caminho que traçaram foi uma estrada não muito larga, nem muito estreita, pois se fosse estreita, teriam que caminhar um atrás do outro. Como nunca tiveram sonhos de caminhos largos de exageros, a média bastava-lhes para que caminhassem sempre lado a lado. Passaram nove anos e eis que chegou a sua menina. Linda! Ela vinha dar ainda mais luz às suas vidas.

Mas, num casamento, nem tudo é lindo e cor-de-rosa. Tiveram altos e baixos como em todos. Tiveram que ultrapassar caminhos muito tortuosos , cheios de pedras grandes e pesadas. Foram muitos anos maus, muito, muito maus. Nenhum desistiu, porque os filhos não podiam ser deixados para trás. Mas, “aquilo que não os matou tornou-os ainda mais fortes”.

Não há muito tempo ela desabafou com uma amiga, amiga daquelas que hoje já não se fazem. São amigas há já sessenta anos (desde a Escola Primária). E ela respondeu-lhe: “Querida, tu é uma mulher forte. Tens caminhado por cima de muitas pedras, é verdade. Mas tu conseguiste ir guardando as pedras e fizeste com elas um castelo”. Ela pensou nas palavras da amiga e acreditou que ela tinha razão. Pensou e disse: “Ela tem mesmo razão. Eu sou uma mulher forte, mesmo muito forte. Ai de mim se não o fosse. Acreditou que foi com as pedras que guardou que construiu um castelo para nele guardar todas as mágoas, as angústias, os tempos maus e o amor que sempre teve pela sua família.

Os filhos cresceram, seguiram o seu rumo, aquele que quiseram. Os menino deu-lhe três netinhos; a menina ainda não pensou nisso.

Hoje encontram-se a sós, os dois, pois a vida tem o seu querer. Há uma frase (que eu considero um “chavão”) que diz: “Não voltes nunca ao lugar onde foste feliz”. Mas eles voltaram, voltaram sempre, todos os anos. As suas férias eram passadas ali naquela praia. Primeiro com os seus meninos pela mão, descendo a ladeira íngreme, que os leva até lá. Com as suas inocentes gargalhadas, os seus baldinhos de plástico, as pás, as forminhas para fazerem castelos na areia, as toalhas, a sombrinha, as cadeiras. E os amigos todos os anos os esperavam. Era uma grande alegria!! E passavam o ano inteiro a aguardar aqueles quinze dias (por vezes um mês) para irem para a praia. Como se era feliz com tão pouco!

Hoje continuam a voltar lá todos os anos, mas já vão sozinhos. Já não ouvem as gargalhadas dos seus meninos, mas têm saudade. Agora são eles que descem a ladeira de mão dada. E ele muito cuidadoso e com muito carinho, que lhe vai dizendo: “Amor, vê lá não caias. Agarra-te a mim. Olha aqui uma pedra, olha outra ali”. Mas voltam todos os anos. Mesmo que o sol não brilhe, ficam sentados na areia a ver o céu, as rochas, o vai e vem das ondas e a ouvir o murmúrio do mar. Aquele mar é especial, tem qualquer coisa de magia. Traz-lhes à lembrança toda uma vida vivida há quase quarente e oito anos, com muita amizade e alicerçada na base do respeito e do carinho. Um dia deixarão de lá ir, pois o tempo não se compadece…

Mas eles têm esperança de que vai haver alguém que se vai encarregar de os levar lá, àquela linda praia da Zambujeira do Mar.

P.S. Vou contar-lhes um segredo: O amigo que os apresentou naquele Agosto quente do século passado, era o pai da jovem de 17 anos, que caminhava na areia.

Gracinha Figueiredo

4 Comments

  1. Obrigada Vina. Beijinhos.

  2. Obrigado meu Querido Mano. Tu e eu somos um só…. Há coisas que ficarão para sempre dentro das nossas almas e dos nossos corações .Só a morte se encarregará de guardar esses retalhos das nossas vidas, no lugar que ela entender.Mil beijos cheios de carinho ………….

  3. Eu sempre soube e sempre vivi essa história, como outras entrelaçadas. Porque sou teu irmão!….
    Foi bom pores para fora alguma parte da história.
    A outra fica escrita nas estrelas, e nos abismos do mar…

  4. O texto é um bocado longo, mas vale a pena lê-lo. Parabéns Gracinha.

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