O Menino do Lago Verde

MeninoLago

Fotografia de Gergely Lantai-Csont

Todos os que madrugavam no kimbo se espantavam ao ver Minguito desaparecer na curva da picada que ia até ao lago verde, todos os dias, bem cedinho, como se fosse pescador, mas sem cana nem rede, só ele sozinho, mãos enfiadas nos bolsos de fundo sem fundo e pé enfiado na sua própria sola de calo rijo.

E Minguito regressava todo meio-dia, barriga a roncar de fome, nariz desviado para o cheirinho das panelas da mãe Eva, moamba às vezes sem galinha nem peixe seco mas molhinho de palma, e uns verdes que ela ia apanhar e que tinham gosto a galinha e a peixe mesmo sem eles e aquele funje lisinho e que se deixava enrolar no molho como nenhum outro!

E às tardes o sorriso do Minguito ia crescendo todos os dias, de orelha a orelha, os linguarudos do kimbo diziam até que menino tinha «endoidado». Mas Minguito se comportava tão bem, trabalhava tanto, nunca soltava palavrão, e por isso quem parecia ter «endoidado» eram os tais de linguarudos.

No Lago Verde, naquele Lago Verde cheio de milongos, vivia o melhor amigo do Minguito, um sapo, mas não um sapo qualquer, aquele era um SAPO diferente, com uma marquinha encarnada entre os dois olhos bem brilhantes, marca feitinha para ser descoberta por alguém especial como o Minguito.

O sapo Estrelado falava mas nunca ninguém antes do Minguito o tinha ouvido, nunca ninguém antes do Minguito se tinha calado bastante para o conseguir ouvir. Por isso aquele sorriso largo do Minguito e a sabedoria que nele crescia a olhos vistos e o transformava naquele menino de quem todos gostavam tanto.

O que é que o sapo Estrelado dizia ao Minguito? Vocês vão ter de perguntar ao Minguito, a mim ele contou que o sapo Estrelado, entre mil coisas, lhe disse: Olha Minguito, para sobreviveres entre todos esses peixes comilões, faz como eu. Observa tudo, escuta tudo, e não fales a não ser que saibas que o que vais falar é coisa bonita e ajuda sempre quem precisa mas sem cobrança.

Bem, vou ter de ir ao Lago Verde bem de madrugada e esperar que os meus olhos cansados consigam descobrir a marquinha do sapo Estrelado e que os meus ouvidos cheios de barulhos consigam ouvir a sua voz e que a minha boca habituada a abrir-se por tudo e por nada consiga ficar calada até à hora de ir até ao kimbo e aceitar o convite da mamã Eva para enfiar meus dedos naquele funje e naquela moamba e sentir meu sorriso crescer.

Izabel Nobre de Melo Rocha,
em Paris, 24 de Julho de 2013

One Comment

  1. Quantos Minguitos haverá por aí? Com lago verde ou azul….
    Gostei da «historinha».

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