28 de Outubro de 2016
by Margarida Riscado
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Tempo de incerteza

Houve um tempo em que precisou de colo. Procurava em todos os lugares mas só existia um vazio imenso, sem nada, nem ninguém que pudesse acalentar o seu desassossego.

Houve um tempo em que tudo à sua volta irrompia em cantos de felicidade e, sem saber, achava que era um engano. Era uma realidade desconhecida, por isso todos fingiam como o poeta.

Houve um tempo para lembrar que era preciso esquecer o tempo dos abraços. Passavam como o vento que atravessa o corpo e eram ignorados, invisíveis.

Foi um tempo de incerteza. Não voltes tempo! Deixa-te ficar quieto e escuta apenas as palavras que teimas em não ouvir.

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10 de Outubro de 2016
by Miguel
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Esquecimento

tristezaNesta tristeza que trago,
Dentro do meu coração
Te chamo irmã amiga e filha.
Na boca um sabor amargo,
Um sabor a ingratidão,
Como no mar uma ilha.

Esquecer o que já lá vai…
São dores que doem no tempo,
Tempo que não tenho mais,
Com gritos mudos  e ais.
Só quero p’ra ti o momento,
Nas pedras frias do cais.

Quero esquecer o que é mau
Agora neste momento,
Nem que tudo fique em vão?…
Neste fado do esquecimento.

27 de Setembro de 2016
by Salvina
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Um homem diferente

pedras-na-maoConheci-o quando morava em Luanda. Ele ocupava os anexos da casa onde eu vivia.

Chamava-se Sérgio. Eu chamava-lhe Senhor Sérgio.

Quando o vi pela primeira vez, senti um arrepio a percorrer-me a espinha. Era um homem pequeno, cujos braços lhe caíam muito abaixo dos joelhos. Tinha os ombros projectados para a frente e a parte superior da coluna mostrava uma corcunda assimétrica que pendia para o lado direito. Os seus pés e mãos eram enormes para a sua estatura. O andar era torto (coxeava um pouco) e os olhos estavam permanentemente voltados para o chão. O rosto não lhe iluminava o corpo, nem o corpo lhe arejava as feições. Não me atrevo a dizer que era uma fraca figura. Antes pelo contrário, era uma figura marcante, arrepiante.

Apesar da sua aparência, alguém o amou o suficiente para casar com ele e lhe dar dois filhos, um rapaz e uma rapariga, ambos de boa compleição física… e bonitos.

Todas as manhãs se levantava cedo para ir trabalhar. Regressava para almoçar e voltava a sair para o emprego, de onde só revinha à noite . Cruzávamo-nos quase diariamente e passei a vê-lo como uma pessoa amistosa, respeitável, afável até. A sua fisionomia deixou de me interessar. Passou a ser um amigo. E um amigo é um amigo, qualquer que seja a sua exterioridade.

Um dia fui ao Hospital Maria Pia visitar uma amiga que estava doente e num dos corredores dei de caras com o Senhor Sérgio. Parei e perguntei-lhe:

  • O que é que está aqui a fazer?
  • Eu trabalho aqui – respondeu-me orgulhoso
  • Que surpresa. Não fazia ideia.
  • E a menina? O que faz por estas bandas?
  • Vim visitar uma amiga…
  • Precisa de ajuda?
  • Não, obrigada…
  • Então… até logo!

E afastou-se com desenvoltura, uma desenvoltura que nunca lhe tinha visto. Jamais lhe tinha perguntado o que fazia, nem onde trabalhava, nem nada dessas coisas. Seguramente estava a fazer o que gostava, dada a sua expressão de orgulho e contentamento. Deixou-me a pensar.

Nessa noite conversámos sobre a sua vida e profissão. Fiquei a saber que tinha nascido com uma malformação congénita e que tinha desistido de estudar, porque na escola os meninos fugiam dele. Mal tinha aprendido a ler e a escrever. As crianças tinham sido os seus carrascos, não lhe tinham perdoado o facto de ter nascido diferente. Monstro marreco, aberração, corcunda… era o que lhe chamavam. Teve vontade de morrer. Um dia foi para a linha dos caminhos-de-ferro para se lançar para debaixo do comboio, mas, à última da hora, teve medo e desistiu.

Depois fechou-se em casa. Passou dias e dias, meses, anos, a estudar sozinho. A aprender a viver sem amigos.

Percebeu cedo que o mundo dos vivos não o aceitava e, por isso, escolheu viver entre os mortos. Trabalhava na casa mortuária do Hospital.

  • E não tem medo? – perguntei-lhe horrorizada
  • Medo de quê? Os mortos não me vêem, não me insultam, não me rejeitam e não me fazem mal. E dá-me prazer poder ser útil, lavá-los e pô-los bonitos para a família os poder velar. As famílias e os amigos dos mortos não reparam em mim… estão demasiadamente preocupados com as suas dores. Aqui ninguém me atira pedras.
  • Mas alguém lhe atira pedras?…
  • Pois! Quando comecei a vir para aqui tinha que passar por uma escola… e olhe que era uma escola secundária. Os miúdos, que já eram uns homenzinhos, punham-se a gritar e a atirar-me pedras. Às vezes até me magoavam. Chegaram mesmo a partir-me a cabeça. Foi assim que conheci a minha mulher, ela revoltou-se quando os viu a apedrejar-me e foi em meu auxílio. Vai daí eu fiquei-lhe muito grato. Começámos a encontrar-nos e acabei por me apaixonar por ela e ela por mim. O que faz o amor, veja lá. Agora posso dizer que sou um monstro feliz.
  • O Senhor não é nenhum monstro, Senhor Sérgio. Monstros são os que o maltratam. O Senhor é apenas um homem diferente… tão diferente quanto bom.

O mundo sempre foi um lugar cruel para quem nasceu d(eficiente).

10 de Agosto de 2016
by Margarida Riscado
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American Beauty

American Beauty é o primeiro filme da obra cinematográfica de Sam Mendes com uma estreia em grande no universo da sétima arte. A forma como transforma uma história vulgar numa obra-prima é simplesmente magistral. Não é para todos!

A narrativa centra-se numa família típica da classe média (um casal com uma filha adolescente) em busca do tão apetecido sonho americano. Mas rapidamente o espectador se apercebe que esta realidade não passa de uma ilusão, desconstruída de uma forma sublime por Mendes que é certeiro na forma como aniquila o jogo de aparências que prolifera numa sociedade cínica, onde o que mais importa é parecer em detrimento do ser.

E é através desta panóplia de elementos que surge uma família que será o tema central do filme através do casal Lester Burnham (Kevin Spacey) e Carolyn (Annette Benning) e, por último, a filha, Jane (Thora Birch). A câmara vai acompanhando, sob o olhar astucioso de Mendes, as primeiras palavras de Lester enquanto narrador desta trágica história:

“My name is Lester Burnham. This is my neighborhood; this is my street; this is my life. I am 42 years old; in less than a year I will be dead. Of course I don’t know that yet, and in a way, I am dead already. Look at me, jerking off in the shower… This will be the high point of my day; it’s all downhill from here.”

Este início indicia, de imediato, que estamos prestes a mergulhar num mundo perverso, com grandes contornos de malvadez, com os nossos níveis de ansiedade a revelarem-se elevados, uma vez que percebemos esta será uma narrativa envolta em mistério, traição, perfídia, à semelhança de uma obra digna de Maquiavel.

Lester é um homem de meia-idade, com um emprego vulgar numa seguradora, sem qualquer tipo de ambição profissional, desprezado pela mulher e pela filha. Por seu lado, Carolyn, vendedora imobiliária, é a encarnação pura e dura da mulher fútil, sem escrúpulos que se deixa seduzir facilmente pelo dinheiro e pelo poder, num eterno jogo de vaidades, não olhando a meios para obter tudo o que deseja a qualquer preço. A filha, Jane, sai completamente fora dos padrões da normalidade, utilizando todas as armas que tem ao seu alcance, numa espécie de combate sem tréguas à vista, com um único objectivo: destruir os bons costumes e ideais de beleza que os pais aspiraram para a sua vida. O ódio da adolescente pelos pais é uma constante na sua existência.

Os seus vizinhos, os Fitt, são peças fundamentais nesta trama. O pai, o coronel Fitts (Chris Cooper), é um militar na verdadeira acepção da palavra. Oriundo da antiga escola americana conservadora é um homem austero, inflexível, severo e homofóbico. Barbara (Alison Janney), a sua mulher, cuja característica central reside na sua obsessão em arrumações e Ricky (Wes Bentley), o filho do casal, um ser esquivo, com um estilo de vida acima da média, uma vez que trafica droga. Obervamo-lo a filmar Jane grande parte da narrativa. Mais uma família em que nada é o que parece ser… as aparências a levarem, também neste caso, a primazia.

American Beauty, como referi, é uma obra-prima. Uma sátira ao estilo de vida americano numa crítica mordaz e inteligente com um elenco absolutamente notável.

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26 de Julho de 2016
by Miguel
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Passarão

Tristezas e cansaços
Passarão…
Abraços sem ter braços
Passarão…
Angústias e desenlaços
Passarão…
Desilusões e cansaços
Passarão…
Traições e desilusões
Passarão…

Tudo foi passando e nada passou
Afinal era só um pássaro grande!…
Um grande passarão.

19 de Julho de 2016
by Salvina
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As pedras da gruta

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Pedras grandes,
Amontoadas
De velas e rezas regadas
Pedras de culto, sagradas.
Pedras sobre pedras
Juntas, ligadas, encaixadas,
Feitas altar
De pedir, de dar
E de rezar

Meus pés descalços
Subiam pedras,
Pedras no tempo,
Do outro tempo
que já passou
Tempo acabou
Tempo não há
Pedras morreram
Ou não estão lá.

Ó velhas pedras
Da minha infância
Onde estareis
Pedras sagradas?
Que vestes tendes,
Tão renovadas?

Nós somos novas
Aqui plantadas
As outras pedras
já cá não estão,
Tempo as levou
Não voltarão

Ó pedras nuas
Por onde andais?

Respondo eu
pelos meus parentes
Daquele chão sobreviventes:
Somos raiz
Da estrutura
As outras pedras
Não tinham cura.
Fomos feridas e ofendidas
Pelos homens esquecidas,
Pelos anos destruídas.
Fomos vestidas
Travestidas,
Alisadas,
Polidas…
E retiradas das vossas vidas

Tempo acabou
Tempo não há
Muitas morreram
Já cá não estão.
Daquelas pedras
Daquele chão
Só resta agora
Recordação.

6 de Julho de 2016
by Margarida Riscado
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Heróis

Uma vez que está a decorrer o euro 2016, resolvi homenagear os nossos heróis que têm espalhado emoção e alegria por o mundo inteiro através do futebol, em particular, junto dos nossos emigrantes, também eles heróis. Hoje jogam-se as meias-finais. Era este o meu estado de espírito quando defrontámos a Polónia e que nos permitiu estar nesta fase do euro.

Hoje gritámos vitória;
Hoje fomos heróis;
Hoje celebrámos;
Hoje fomos excepcionais!
Nasceu uma equipa, unida em torno de um objectivo comum: conquistar vitórias.
Eu sonhei…
Sonhei que iríamos enfrentar a Polónia de uma forma combativa;
Sonhei que iríamos debater-nos com garra e com força;
Sonhei que iríamos fazer magia;
Sonhei, humildemente, que iríamos, chegar às meias-finais;
E, finalmente, acordei…
E? Valeu a pena! O sonho cumpriu-se!
Não posso deixar de referir quatro dos magníficos que se destacaram e que se revelaram absolutamente decisivos neste combate: Pepe, Quaresma, Renato Sanches e Rui Patrício.
Parabéns Selecção!
Parabéns Portuga!
Que hoje o sonho de cumpra uma vez mais!

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24 de Junho de 2016
by Miguel
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Triângulo

trianguloTriângulo quebrado, triângulo partido. Recto, isósceles ou escaleno….

Sou sempre um triãngulo, sempre com os mesmos graus. Mas,  pobre de mim, que ninguém me vê, ninguém me escuta, ninguém me diz se estou bem assim com 90 graus ou 60 graus….

Vou quebrar os meus três lados, fazendo uma linha recta de mim mesmo, sem princípio nem fim…

Aí… tenho 0 (zero) graus.

Aí!… Fico tão firme, tão certo , que a minha linha  pode vir da vida até à morte.

9 de Junho de 2016
by Salvina
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Nem quero que me lembre…

neuroniosOuviu uma buzina a tocar insistentemente, mas não se assomou à janela. Depois o seu nome foi gritado com aflição.

— Ó Cândida… Ó Cândida…

A medo espreitou por uma frecha, apenas uma frecha da janela, para ver quem era. Era o Américo, a mulher e os dois filhos. Apressou-se a abrir a porta.

— Viemos a Malanje buscar mantimentos para a loja, mas já não nos deixaram regressar. Chegámos ao cimo do Hospital, está lá a tropa e não deixa ninguém sair da cidade. Tivemos que voltar para trás. Agora não sabemos para onde ir. Isto está tudo a ferro e fogo. Se nos pudesses abrigar…

— Entrai, entrai.

A mulher e os filhos do Américo correram imediatamente para a porta, enquanto ele entrou pelo portão do quintal com a camioneta, que estacionou debaixo da mangueira, nas traseiras da casa.

Até então, a minha mãe só tinha por companhia o medo e a filha mais nova, com 9 anos de idade. De duas pessoas, passaram logo a ser seis.

— O que nos vale é que temos a camioneta carregada de mercearia. Tínhamos vindo abastecer-nos. Para comer não nos há-de faltar. Vamos trazer tudo para dentro de casa, porque não sabemos se poderemos voltar ao quintal tão cedo.

— Ó Américo eu também tenho alguma coisa. Andei a aviar-me de conservas e pão para podermos comer se não pudéssemos sair à rua.

Atarefados transportaram tudo o que puderam para a despensa da casa. Depois sentaram-se no chão e desataram a chorar.

— Coitado do Sr. João da Casa Sul. Apareceram lá uns malandros e o homem só queria que não lhe partissem a montra. Podiam levar tudo o que quisessem, mas que não lhe partissem a montra. Tiraram-no de lá para fora, mataram-no à frente de toda a gente e depois deitaram-lhe fogo – desabafou a minha mãe com susto na voz. Depois acrescentou: a tropa andou hoje a avisar que não devemos andar em pé dentro de casa. Temos que andar todos de rojo e junto às paredes.

Aquilo era o inferno: tiros por todo o lado, rajadas de metralhadoras, morteiros, bazucas e sei lá que mais. Tapavam-se os ouvidos, fechavam-se os olhos, soltavam-se as lágrimas.

— Estou com tanto medo, Américo. O meu marido já foi para Portugal, o meu filho foi para Nova Lisboa, as minhas filhas estão em Luanda e eu aqui sozinha com a miúda, que ainda tem mais medo do que eu. Ao menos um homem em casa, embora não adiante muito, sempre nos dá mais segurança. Ajudamo-nos uns aos outros.

— Ó Cândida. Segurança não temos em lado algum, mas enquanto tivermos umas paredes para nos abrigarmos já é alguma coisa. Na rua é que não podíamos ficar. Nem sabes quantos mortos já vimos até aqui chegar.

— Que desgraça, Américo, o que nos havia de acontecer. Quem diria que estávamos guardados para isto, sem fazermos mal a ninguém. Mas seja o que Deus quiser.

Bateram à porta com batidas de aflição. No meio dos disparos das armas, foi difícil ouvir aquele pedido de socorro. Era a tia Guiomar e o marido, a Matilde e o marido, a dona Perpétua, o Sr. António, a Dona Maria, a Dona Cecília, o Sr. Silva, a Dona Judite e o Sr. Salvador.

Entre o barulhar da guerra, o Sr. Pinto Minhungo, que ia a caminho de casa, que ficava mesmo ali ao lado, não teve tempo de lá chegar e irrompeu pela casa adentro, juntando-se ao grupo. Eram dezoito pessoas entre paredes, espalhadas pelo chão e pelos cantos da casa. Ali comiam, ali dormiam (vestidas), ali tremiam, ali (des)viviam. Tudo era precário, mas essencialmente a vida.

Durante nove dias e nove noites, não houve descanso. Tudo o que mexia na cidade foi morto… e até mesmo as árvores se renderam. A mangueira, a enorme mangueira, ficou toda esfarrapada; as balas atravessavam as paredes como se fossem transparentes, como se não existissem.

O grupo manteve-se unido, como se fosse família. Não havia fracos nem fortes, todos eram a imagem do terror e ninguém teve receio de mostrar fraqueza, de chorar, de comer sem cerimónia. Os ares da casa misturavam o cheiro de pólvora, com os cheiros de gente e os cheiros de gente com cheiro de comida enlatada. O lixo era isolado na cozinha. As condições de higiene iam-se degradando de dia para dia. Aquela casa, mesmo em frente ao Bispado de Malanje, albergava humanos, quase bichos, a lutar pela sobrevivência.

Três dias sem água. A água tinha deixado de correr nas torneiras e o calor abrasava. O que lhes valeu foram algumas laranjadas e água engarrafada. Era preciso racionar os líquidos, se não depressa sucumbiriam à sede. Os alimentos também já escasseavam. Até quando poderiam resistir?

Terror, pânico, desespero, sede, desilusão, tristeza, abandono… uma mistura ácida de sentimentos.

Ao nono dia as armas calaram-se. O silêncio escutou-se. Nunca o silêncio lhes soubera tão bem. O rio de lágrimas parou de correr. Lá fora as vozes de comando mandavam-nos sair. Eram as tréguas para evacuação dos sobreviventes. Eles tinham sobrevivido. Os outros estavam espalhados no chão, pendurados nas varandas dos prédios, esventrados ao sol, suspensos nas árvores, derramados no asfalto quente das ruas.

(Isto contou-me a minha mãe. Depois tapou os olhos com as mãos para espantar os demónios e disse: “nem quero que me lembre, nem quero que me lembre, minha filha”).

29 de Maio de 2016
by Margarida Riscado
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Navegar

É um facto que nas viagens ao passado encontramos momentos que nos marcaram de uma forma indelével… outros, nem tanto. Tento encontrar motivos para me fazerem acreditar que um dia, noutro tempo, noutra era, existiram sonhos… e quis o destino que esses sonhos se cumprissem… e esses sonhos, esses pequenos grandes nadas, inundaram o meu pequeno mundo com brilho. Mas, como existe o reverso da moeda, nem sempre foi assim…

Tenho saudades do tempo em que as pessoas tinham coluna vertebral;
Tenho saudades das gentes boas da minha terra… por onde andarão?
Tenho saudades do tempo em que o meu ofício era exactamente o meu ofício;
Tenho saudades do tempo em que a realidade se confundia com a ficção, tal era a felicidade que me esmagava e me fazia sentir imparável… não importavam os obstáculos, acabava sempre por superá-los;
Tenho saudades dessa força que existia, sem me dar conta.

Perdida, uma vez mais, nas minhas deambulações, sonho que, nos raros momentos de lucidez, essa força estará ainda algures por aqui, mesmo que escondida e envergonhada. Talvez seja chegada a altura de navegar.

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo…”
― Álvaro de Campos

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photo © Jenna Westra